Se todos os sonhos são possíveis…então todos são passiveis de se concretizar!!!! Porque remar contra a maré a duas… é difícil mas é possível.
Margarida Vaqueiro Lopes e Mariana Matos Barbosa"
Depois de um dia complicado, mais complicado se torna sair do carro-patrulha com o frio que faz lá fora. Vale o turno da noite, que hoje termina junto ao rio, cenário que ajuda pela calma. Em redor, as luzes natalícias iluminam o Terreiro do Paço, ainda que ache todo este 'pisca-pisca' um grande exagero. Parece-me um grande festival, um acender e apagar de flashes. Encosto o corpo cansado à carrinha da polícia municipal e ponho-me a olhar para o velho relógio de aço, já encardido dos anos, a ver se o tempo passa mais depressa. Walkie-talkie no ouvido esquerdo, imagino-me a chegar a casa, nos subúrbios da capital. Terei o jantar já pronto a aquecer, dentro do microondas, como de resto sempre que a ronda acaba mais tarde. Esfrego as mãos uma na outra e sopro. O ar quente sai-me da boca e fumega na noite fria. Mas aquece as mãos, ressequidas pelo frio. Noite tranquila, que tudo permite. Até aquecer as mãos em pleno Terreiro do Paço, a apreciar a envolvência do local. Há umas 10 pessoas em toda a praça. Algumas esperam pelo eléctrico. Outras passeiam calmamente. Outras ainda andam apressadas, com urgência. Porque esta coisa das cidades grandes dormirem é mentira. Nada pára. Uma mulher gesticula, fala depressa. Dirige-se à esquadra na esquina e perco-a de vista. Dou a volta. Observo que se aproxima do hall, mas não passa da porta. Volta atrás. Fala ao telemóvel e mal se percebem as palavras que pronuncia. Parece falar para ninguém, 'profeta de horas vagas' que nem os fieís escutam com atenção. Nem uma palavra, nem um grito, um gesto. Nada. Só o gesticular de coisas que não conhecia, e o pronunciar de palavras que pareciam de amargura, de tristeza, de decepção. Perco-a de vista e olho o relógio outra vez. Onze e meia. Mais trinta minutos deste silêncio citadino e ponho-me a caminho do descanso. Vinda do lado do arco da rua Augusta, aproxima-se uma rapariga. Tem pouco mais de 20 anos. Ofegante, passo apressado, vem direita a mim. Atravessa cuidadosamente a estrada e diz-me que, mesmo em frente, do outro lado da estrada, está uma mulher deitada no chão. Sobressaltado, aviso o colega de turno e atravesso a estrada, quase sem pestanejar. Debaixo da paragem do autocarro, uma mulher jaz imóvel sobre as pedras da calçada portuguesa, gasta pelas constantes passagens. Entretanto, o INEM foi já chamado ao local. Observo-a à distância. A mulher está estendida no chão, sem sinais de agressão apesar de afirmar ter sido agredida. Lamento o trabalho que estes 'loucos' dão nestas noites frias, quando o que menos apetece é trabalhar. A mulher geme agora, com dores. No pescoço, que - grita - não consegue mexer, tal a agressão. Nas pernas, na coluna. E perturba mais saber que talvez vá atrasar-me na minha hora de saída, que o tempo não espera por estas emergências. Casos de loucos de Lisboa, vi já muitos. E este, digo, 'já conheço de cor'. As mãos trémulas dão a sensação de desgaste desta mulher. Mas não me engana. Agredida no eléctrico. No eléctrico da vida.


A cidade parece tão grande sem ti, que mete medo passear sem a tua mão quente a envolver a minha. E no entanto, nunca estiveste assim tão perto para poder chamar-te meu, para dizer-te coisas boas, para te dar o melhor de mim. Vedei-te passagem à primeira incursão, sem saber que ia afastar a oportunidade de ser feliz de outra maneira. E investi, enganada por hábitos e conversas, sem saber bem ao que ia, guiada sem mais nem menos por um íman que tanto preenche como corrói.
Sabe bem pensar em ti ainda numa linguagem meio-codificada, fruto da distância não definida. E, no entanto, estás longe da minha vista, ainda que sinta a tua presença ao meu lado. És imune à minha ausência e fiel à minha presença. Só quero que quando sentires que me encontraste, me abraces como nunca pudeste fazer. Não importa a espera, senão a intensidade com que o encontro é vivido, ouvi eu, algures, num dia qualquer. Duma coisa estou certa: sei que estás aí.
Um dia destes vai decidir-se finalmente a tirar as palas que tapam o 'ângulo morto'. A decisão puramente consciente vai permitir-lhe ver que a vida não tem de ser o amontoado coerente da estrada sem buracos, de alcatrão negro, mas plano. Vai subir ao topo do cilindro onde foi girando, protegido, e descobrir que por mais que o tempo não pare, há muito mais para lá do casa-trabalho, das 9 às 18. E dar-se-á conta de que, apesar de ainda restar muito tempo, outro tanto foi aproveitado em pouco mais de nada. 
Dança pela relva, menina que pensa que é princesa. Rodopia como só tu sabes, sobre as pernas pequenas, esguias e descoordenadas. Rodopia em pensamentos e em atitudes, deixa-te levar pela brisa da serra, que embala as estórias que crias só para ti. Torna-nos a nós, espectadores das tuas tramas, das tuas canções. É encantador olhar-te em silêncio. E sedutor pensar que estamos incógnitos. E desafiante acompanhar-te. Embala-nos o olhar só de te contemplar. Faz-nos acreditar que, por mais que cresças, podes ser assim para sempre. Eterna nas convicções...e nos sonhos. Ouve, menina que pensa que é princesa. Quantas estórias tens para nos contar? Príncipes, fadas, florestas, bosques encantados. Jornadas impossíveis, códigos secretos, amores eternos. Conta-nos aquilo que sabes, aquilo que nós já deixámos de acreditar. Sorri muito. Materializa aquilo que te vai no coração. Pede-me que te abrace, menina que pensa que é princesa. E não te esqueças de dizer-me baixinho que me adoras, nas noites em que tu e eu dormimos lado a lado. Veste-te a preceito. Encarna a personagem. Anda às voltas até ficares tonta e cai na relva macia as vezes que te apetecer. Canta baixinho músicas que conhecemos, fala com quem te apetecer, sempre com essa voz doce, doce. E pensa-me sempre contigo. Sejas tu a que rodopia, a que sorri, a que refila, a que chora, a que abraça, a que duvida. 


Tanto tempo, na vidinha, sem grandes agitações...e de repente, as coisas mudam. Habituados à vida de sempre, a uma realidade que se tornou rotina, a termos as mesmas pessoas, sempre nos mesmos sítios, pensamos que a vida não pode mudar assim tanto, num ápice, num simples piscar de olhos. E de repente, previsivelmente ou não, de modo esperado ou surpreendente, as coisas mudam. Fazem-se malas, segue-se viagem. Mudam-se vidas. Num ápice dizem-nos que morreu, que entrou, que vai mudar de país, ou de continente, ou de vida. Que vai tentar ser feliz noutro sítio, procurar casa noutra realidade. Que se apaixonou e vai embora, atrás desse amor. Que, de um momento para o outro, a vida se tranfigura, o quotidiano se transforma, e deixamos de nos poder encontrar a todas as horas, quando apetece. Porque as distâncias, de repente, deixam de poder ser apenas psicológicas. Passam a ser físicas. Daquelas que é preciso entrar num carro, apanhar um avião, sonhar acordado. Embarcar.

I don't wanna be your friend
I just wanna be your lover
No matter how it ends
No matter how it starts
Forget about your house of cards
And I'll do mine
Forget about your house of cards
And I'll do mine
Fall off the table,
And get swept under
Denial, denial
The infrastructure will collapse
From carpet spikes
Throw your keys in the bowl
Kiss your husband 'good night'
Forget about your house of cards
And I'll do mine
Forget about your house of cards
And I'll do mine
Fall off the table,
And get swept under
Denial, denial
Denial, denial
Your ears are burning
Denial, denial
Your ears should be burning
Denial, denial


O palco, a um canto, dá uma visão panorâmica ao espectáculo. Ninguém fica de fora, mesmo aqueles que espreitam por entre as colunas do claustro, no primeiro patamar. A envolvência, as luzes, o contraste entre as sorrisos e os olhos emocionados, compõem o cenário que acompanhámos, apaixonadamente. As recordações assumem um carácter fílmico, memórias que se amontoam por entre pó e luz, como se a partilha valesse a pena, apenas em silêncio. Porque a música estava lá, ao vivo e a cores. Entre as colunas daquele claustro mágico.
A minha cumplicidade com Madrid, foi-se construindo como se de um amigo se tratasse. Madrid cativou-me, com toda a agitação, o bulício, a animação, a variedade característica de toda a cidade grande que se preze. E porque tudo tem o preto e o branco, o quente e o frio, o yin e o yang. Madrid também me cativou pela eterna, calma, e tranquila descoberta que foi o tempo em que lá estive. Fui reviver Madrid faz agora uma semana. Madrid não será a mesma, de cada vez que lá vá. Mas rever e reviver um amigo de sempre, é sempre esta dualidade. De quem se conhece, mas de quem deixa sempre alguma margem para se conhecer melhor. Como os amigos, nem tudo se desvenda, não vá a evidência corroer a saudade e matar o desejo de rever.

O jantar era normal. Convites modernos e amigos do ambiente, por email, iguais às respostas. O restaurante, cabo-verdiano, sem cor nas paredes nem imagens que liguem ao continente africano. Ali, na cadeira, olhava em volta a ver o que se passava. Na observação, tinha o seu maior passatempo. As coisas que se aprendem através da observação, todos tão preocupados em falar para ensinar, e ela ali, sedenta de aprender, observava.
Pés saltitantes querem anos novos. Passos pequenos, por mais que a calçada seja irregular e escorregadia, são a melhor maneira de caminhar. Com precaução, é possível que as casas se construam a partir de alicerces fortes. Podem ter cores gritantes, gostar de festa e de alarido, mas não deixam de ser fiáveis e, em última instância, de confiança.(Para ouvir ao ler)
Passear contigo é sentir que quando caminho não estou sozinha. É o descomprometimento de pôr as mãos nos bolsos sem medo de não te dar a mão. É sentir o vento frio na cara, transpirar de calor, sentir o sol a pique no nariz, a iluminar-me o rosto. É compor a gola do casaco e sentir um beijo teu. É o teu cheiro, sempre tão familiar. Saber que estás lá. Saber-te minha. Passear contigo é o misto mais agradável de descontração e apreço. É abraço sem contacto e contacto sem toque. É cumplicidade. Passear contigo é saber-te minha e saber-me tua. De alma, coração, confiança. É sentir que me sabes tantas vezes a tanto, e outras tantas a tão pouco.