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quarta-feira, dezembro 17, 2008

Dardos - o primeiro prémio

Diz a lenda que:
"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais,etc. que em suma demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as sua letras, entre suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.

Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve:

1. Exibir a distinta imagem;
2. Linkar o blog pelo qual recebeu;
3. Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos.

Recebi o prémio das 'mãos' da Meg .
Premeio, sem ordem especial, os seguintes:

http://www.sapatositalianoseperfumefrances.blogspot.com/ (escrita fluída, cadente, inspiradora)
http://www.deb2diletante.blogspot.com/ (visão muito particular e cheia de pormenores)
http://www.bplacido.blogspot.com/ (sentimentos à flor da pele)
http://www.seriousandsober.blogspot.com/ (literatura pura, talento inato)
http://www.gangovocc.blogspot.com/ (novidades fresquinhas, sempre)
http://www.meuinfernoprivado.blogspot.com/ (provocador, inspirador, perturbador)
www.revistaindice.wordpress.com (cultura de um ecossistema)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Material de primeiros-socorros

Cansaste-te de mim. É verdade, e eu assumo. Fui demasiado inquisitiva, demasiado exigente, pedi-te demasiado. Mas é desses pedidos, dessas exigências, que é feita a vida. Não te pediria nunca menos do que aquilo que te dou. Não por te dar à espera de receber de ti, mas porque quando se dá, exige-se em troca. Porque é óptimo dar. Mas também é óptimo receber. Dar sem receber é mau. E sobretudo é injusto. As relações unilaterais são sempre injustas. E só são relações porque existem duas pessoas quando se dá. Mas se uma é passiva, enfim, deixa de ser uma relação justa. E sim, sei que a vida não é justa e essas tretas todas. Mas acho-me no direito de exigir. Quero dizer, achei-me. Que aquilo que tínhamos acabou quando passou a ser só meu. Peço-te, agora que estás cansado, farto, que já não me podes ver à frente, que me dês uma oportunidade. Deixa-me reinventar(-me).

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Atestado

Estou a horas de te mentir. E sei-o já. Planeio-o premeditadamente há alguns dias, e não consigo evitar o sofrimento. Sempre te pedi transparência, igual à que sempre te dei. Total. E está a moer-me ter que te mentir, mas disso depende um passo mais no meu tão ansiado sonho. E não consigo tirar os olhos do cume da montanha, deixar de seguir a estrela que almejo, evitar perseguir esse tão mordaz e criticado trabalho com que me sinto preenchida. Através dele sinto-me inteira, realizada. E não vou deixar que ele me fuja, com um desdém que poderia demonstrar agora, por medo de punição tua. Vou segui-lo agora, porque a oportunidade pode não voltar a aparecer. Terei de mentir-te porque estas coisas não se contam assim, do pé para a mão. Era preciso preparar-te para a verdade e não tive tempo para isso. Não poderia pedir-te que estivesses pronto para aceitar esta realidade quando ainda nem eu estou em mim.

Desafio (obrigada R.)

"Deve ter um montão de lixo referente ao seu passado; descarregue-o".
1. Agarrar o livro mais próximo.
2. Abrir na página 161.
3. Procurar a 5.ª frase completa.
4. Colocar a frase no blog.
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro! Utilizar mesmo o livro que estiver mais próximo.
6. Passar a 5 pessoas.

A frase que me calhou em sorte:
"Localizava-se vagamente no Bairro da Madragoa, mas ninguém lhe arrancava uma precisão.", in O Rio Triste, Fernando Namora.

Passo a 'batata quente' à Catarina, à Débora, ao Helder, à Margarida e ao Quirino.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Cru

Há restos pelo chão. Coisas que não consigo decifrar, que não tenho capacidade para descodificar, palavras que não reconheço. Caíu-me no esquecimento a vontade de fazer mais e melhor, e só ela me permitiria fazê-lo. Perdi a noção da realidade e vejo agora as coisas em tons cinza, sem reconhecer as cores verdadeiras, sem compreender o belo e o feio, a verdade e a mentira, sem distinguir o meu e o teu. Tudo se confunde nos pedaços espalhados pelo chão. Tudo se tornou uma marcha fúnebre que se arrasta por uma enorme avenida e dá voltas sem fim. Caminho circular que não conheço, não domino, e tão pouco me apercebo da sua existência. Sou o corpo da alma desfeita. Aquele triturado, torturado, açoitado, dormente. E quando entro em casa, naquele que devia ser o refúgio, vejo restos que nem sequer sei se são os meus. São pedaços de uma matéria viscosa, que cheira já a môfo por ter estado tanto tempo fechada. Peças de um puzzle que foram durante anos 'protegidas' por uma redoma de vidro. Agora que o fogo fez quebrar o revestimento, é hora de decidir o que fazer. E servir o prato. Cru.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

77

Lembro-me de ti, de pequenina. Do teu cheiro, das duas expressões, das tuas perguntas retóricas. Lembro-me da cumplicidade que nos estava destinada, da troca de olhares. Lembro-me da tua simpatia, do teu sentido de humor, do teu respeito pelos outros, por nós, por todos. Pelas escolhas, pelas opiniões, pela diferença. Lembro-me de te ver sofrer, nos últimos dias, com plena noção de que nos deixarias, mais tarde ou mais cedo. Lembro-me de teres noção disso, e de nos pedires desculpas com o olhar, por não estares a corresponder às nossas expectativas. Às nossas esperanças. E sobretudo, à nossa vontade. Sempre disseste aquilo que pensavas, sempre subtilmente. Lembro-me dos Natais contigo e já sem o teu amor, sem a presença dela ao teu lado. Lembro-me de te ver com a lágrima no olho porque tinhas saudades, sentias a falta. Porque ela estava e deixou de estar. Compreendo a tua saudade, avô.

Se cá estivesses, já tinhas atendido mil telefonemas. De amigos. De conhecidos. De pessoas que te admiravam. De todos. Nossos. Provavelmente o fim-de-semana que aí vem seria passado contigo, num almoço ou num jantar qualquer, em tua casa, na nossa, tanto fazia. Que o importante destes encontros não era o sítio, mas o facto de estarmos todos juntos. E de podermos dar-te um beijo grande e um abraço de muitos parabéns. Seriam 77. Tenho saudades.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Clandestino em Repeat

Não. Xiuuu. Fala baixinho. Já te disse que não. Não insistas. Mas foi isso que combinámos, não te lembras? Sim, naquela noite chuvosa em que ficámos os dois em casa. A conversa como as cerejas. E combinámos não contar. Mas a sério? Não te lembras? Vá lá, não podemos. Ah, mas tenho que tapar-te a boca? Queres que te diga ao ouvido esquerdo, o ouvido que o coração ouve? Não, não podemos...Porquê? Ora, porque não. Foi o combinado. Sim, eu também...Eu sei. Sei pois. Duvidas? Sim, e eu também quero. Mas agora não. Não podemos. Quero guardá-lo só para nós. É que quando dissermos, vai deixar de ser o nosso segredo. E por enquanto, quero que continue assim. Só nosso.

Anda cá e dá-me a mão. Em troca, dou-te um beijo. Xiuuu. Não digas a ninguém. É clandestino. Só nosso.

É isto que eu sou, e tantas, tantas coisas. Mas isto, de certeza, sou eu.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis

terça-feira, novembro 25, 2008

o texto que pode ser início e também pode ser fim de alguma coisa

imagem daqui
A relevância da actualidade (ou aquilo que a margem de 1300 caracteres me permitiu escrever para levar a cabo aquilo a que chamamos o nosso sonho)

A engrenagem arranca sem sequer ser accionada. Toca o despertador. Os phones nos ouvidos trazem a rádio que faz companhia até ao trabalho. Entretanto, já a televisão foi ligada e desligada. Na passagem pelo quiosque, uma vista de olhos pelos jornais diários. No metro, um ecrã gigante dá conta das novidades, ao mesmo tempo que as mãos folheiam os gratuitos. Chegado ao destino, a cadeira apoia o corpo frente ao computador. O dedo carrega no botão e a rede (www) faz o resto.
A informação submerge e é difícil distinguir o essencial do acessório.
Vive-se num mundo globalizado. A internet é referência pela quantidade, e ferramenta pela diversidade. E torna-se perigosa, pela ampla gama de ‘produtos’ que pode oferecer. Na rede, qualquer um pode viver, fazer, ser o que quiser. E quem quiser. Podem viver-se vidas paralelas, criar-se mundos imaginários.
Neste sentido, o mundo globalizado é por si só um enorme paradoxo. É proximidade, porque a rede anula distâncias geográficas. No entanto, é também afastamento, pelo carácter ficcional que se estabelece entre os participantes e pelo abismo que se cria hipoteticamente, entre aquilo que é verdadeiro e aquilo que se crê como tal.
A informação enquanto esclarecimento assume nos dias de hoje um carácter fundamental em termos de conhecimento da realidade. Para o leitor/espectador/cidadão, é essencial estar ‘a par’ da actualidade. Ela é início, meio e fim da informação. E a razão para a fazer circular nesta aldeia global em que, ela própria, transformou o mundo.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Diz que há por aí novidades...

E que há um sonho em comum...
E que há vontade de remar contra a maré...
E que duas cabeças pensam mais e melhor que uma...
E que há vontade de fazer andar um projecto...
E que há uma agenda (nossa, tão nossa) à disposição.



"A ideia é escrever as coisas que achamos que devem ser noticia, para além das que têm que ser notícia. Escrever sobre o que se vai passando, mas de uma perspectiva nova, nossa, muito própria.
Se todos os sonhos são possíveis…então todos são passiveis de se concretizar!!!! Porque remar contra a maré a duas… é difícil mas é possível.
Margarida Vaqueiro Lopes e Mariana Matos Barbosa"


Posto isto, podem visitar-nos aqui.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Ao Terreiro do Paço

À primeira vista

Depois de um dia complicado, mais complicado se torna sair do carro-patrulha com o frio que faz lá fora. Vale o turno da noite, que hoje termina junto ao rio, cenário que ajuda pela calma. Em redor, as luzes natalícias iluminam o Terreiro do Paço, ainda que ache todo este 'pisca-pisca' um grande exagero. Parece-me um grande festival, um acender e apagar de flashes. Encosto o corpo cansado à carrinha da polícia municipal e ponho-me a olhar para o velho relógio de aço, já encardido dos anos, a ver se o tempo passa mais depressa. Walkie-talkie no ouvido esquerdo, imagino-me a chegar a casa, nos subúrbios da capital. Terei o jantar já pronto a aquecer, dentro do microondas, como de resto sempre que a ronda acaba mais tarde. Esfrego as mãos uma na outra e sopro. O ar quente sai-me da boca e fumega na noite fria. Mas aquece as mãos, ressequidas pelo frio. Noite tranquila, que tudo permite. Até aquecer as mãos em pleno Terreiro do Paço, a apreciar a envolvência do local. Há umas 10 pessoas em toda a praça. Algumas esperam pelo eléctrico. Outras passeiam calmamente. Outras ainda andam apressadas, com urgência. Porque esta coisa das cidades grandes dormirem é mentira. Nada pára. Uma mulher gesticula, fala depressa. Dirige-se à esquadra na esquina e perco-a de vista. Dou a volta. Observo que se aproxima do hall, mas não passa da porta. Volta atrás. Fala ao telemóvel e mal se percebem as palavras que pronuncia. Parece falar para ninguém, 'profeta de horas vagas' que nem os fieís escutam com atenção. Nem uma palavra, nem um grito, um gesto. Nada. Só o gesticular de coisas que não conhecia, e o pronunciar de palavras que pareciam de amargura, de tristeza, de decepção. Perco-a de vista e olho o relógio outra vez. Onze e meia. Mais trinta minutos deste silêncio citadino e ponho-me a caminho do descanso. Vinda do lado do arco da rua Augusta, aproxima-se uma rapariga. Tem pouco mais de 20 anos. Ofegante, passo apressado, vem direita a mim. Atravessa cuidadosamente a estrada e diz-me que, mesmo em frente, do outro lado da estrada, está uma mulher deitada no chão. Sobressaltado, aviso o colega de turno e atravesso a estrada, quase sem pestanejar. Debaixo da paragem do autocarro, uma mulher jaz imóvel sobre as pedras da calçada portuguesa, gasta pelas constantes passagens. Entretanto, o INEM foi já chamado ao local. Observo-a à distância. A mulher está estendida no chão, sem sinais de agressão apesar de afirmar ter sido agredida. Lamento o trabalho que estes 'loucos' dão nestas noites frias, quando o que menos apetece é trabalhar. A mulher geme agora, com dores. No pescoço, que - grita - não consegue mexer, tal a agressão. Nas pernas, na coluna. E perturba mais saber que talvez vá atrasar-me na minha hora de saída, que o tempo não espera por estas emergências. Casos de loucos de Lisboa, vi já muitos. E este, digo, 'já conheço de cor'. As mãos trémulas dão a sensação de desgaste desta mulher. Mas não me engana. Agredida no eléctrico. No eléctrico da vida.

À segunda vista

Descer a Avenida da Liberdade em época de luzes de Natal, é como embarcar num dos mais bonitos cenários que presenciei. É fixar os olhos na iluminação e acelerar a velocidade, de maneira a que as pequenas lâmpadas se tranformem num 'combóio´de luz. É olhar em volta e descobrir uma Lisboa que cheira a Natal, um frio que sabe bem. A Rua Augusta tranforma-se em corredor de luz e sombras e, apesar de não existir, não é difícil começar a cantarolar o Jingle Bells, baixinho, para dentro. Atravesso o arco da rua Augusta. Falta pouco para as onze da noite e o Tejo está iluminado pelas luzes psicadélicas que enfeitam o Terreiro do Paço. Atravessamos, tu e eu, quais exploradoras da noite lisboeta, amantes de músicas efusivas que nos permitem gritar, saltar, dançar, e aproveitar o vermelho do semáforo para sair porta fora e agitar o corpo, despojadas de tudo o que é politicamente correcto. Ali, não há protocolos a seguir. Há uma cumplicidade latente.
E na espera, sentamo-nos no meio da praça, no banco frio. Às vezes reparamos nos mendigos estendidos na rua. e pomo-nos a elogiar-lhes a capacidade de resistência ao frio. Questionamos se terão, eles também uma alternativa. Uma oportunidade.
E ali sentadas, sentimo-nos numa discoteca em silêncio, onde há espaço para discutir um assunto já batido. Falamos de amor.
Chama-nos a atenção uma senhora. Caminha rapidamente, de um lado para o outro. Atravessa a estrada. 'Não parece nada bem', dizes, com aquele ar apreensivo de quem sabe o que diz mas não sabe o que fazer. Reparo nas mãos irrequietas. Que gesticulam desregradas ao ritmo de palavras que parecem noutra língua. Calamo-nos e observamos. E voltamos ao assunto do amor. Da saudade. E do hábito. E ela, por momentos, desaparece do nosso ângulo de visão. Passa um eléctrico. Pára na paragem. Toca a campaínha. E no momento em que arranca, nesse milésimo de segundo, olho para a esquerda e vejo-a caída no chão. Ela que, há pouco parecia preocupada. Perturbada. Nervosa. Apreensiva. Irritada. Codificada.
Agora está apenas prostrada no chão. Gelado. Corpo inerte. Caída sobre a carteira castanha. No chão branco da calçada portuguesa. Gelada. Ligamos ao INEM, as perguntas do costume. 'O que disse? Que idade tem? O que estava a fazer?'. O senhor desculpe, mas está uma mulher caída na paragem do autocarro e o senhor faz-me essas perguntas? Eu sei lá! Sei que ainda agora estava em pé, a caminhar louca, de um lado para o outro. E agora, sem mais nem menos, está caída no chão. Um homem aproxima-se também. Somos já três a assistir ao espéctáculo. Olho em volta. Alguém que ajude? De olhos fechados, nem sinal de vida naquele corpo 'adormecido'. Um carro da polícia municipal do outro lado da estrada. Apresso-me a atravessar a estrada. 'Boa noite. Está uma senhora caída ali no chão. Na paragem. Mesmo aqui em frente. Já ligámos ao INEM'. Atravesso a estrada. Oiço qualquer coisa relacionada com a ajuda de Deus. O homem está a pegar-lhe na mão e a falar-lhe de Deus. E a ambulância que não chega. Os olhos abrem e fecham repetidamente. As mãos tremem, não sei se de frio, se de raiva, se de nervoso, se de medo. Queixa-se de dores. De uns malandros que lhe roubaram a carteira. 'Não, a carteira está aqui minha senhora'. Não, a carteira era vermelha. Essa é castanha, não é? E agarra um lenço enrolado na mão, aperta-o com força. E o telemóvel apaga a luz azul. E ela geme de dores no pescoço, que foi agredida, e que lhe roubaram a carteira vermelha com os documentos, que não, que não é pelo dinheiro mas pelo passe. Como é que eu vou para casa agora? E eu não devia pagar nada porque foram eles que mo levaram. Ai se eu os apanho.
E o tempo passa, diz o polícia que conhece a história muito bem, que é 'complicada'. E eu assinto. E compreendo. Será loucura? Nada que não me tenha passado já pela cabeça, fruto do meu cepticismo. Credível? Sim. Em sofrimento? Também. E esperneia mais uma vez, e o pescoço que não consegue mexer. E as pernas. E a carteira. E a agressão no eléctrico. E a queixa que fez na polícia, ou que não fez porque não a deixaram. Porque precisa de ir primeiro ao hospital e ser observada pelo médico. E a ambulância a caminho. Não chega para acabar com o tormento. Observo de perto. Olho em meu redor. As luzes piscam ininterrupamente, sem pestanejar. O mundo continua invariavelmente a girar. A vida não pára e a mulher caída no chão de pedra. Frio. E preciso de um silêncio meu para digerir tudo isto. Avalio o meu cepticismo. Aproximo-me e olho-a nos olhos. Apetece-me passar-lhe a mão pela cabeça. Falta-lhe carinho. Falta-lhe amor. Falta-lhe atenção. Consegue-a. E temo ser agora mal interpretada nesta ideia simplificada que tenho da vida, de que nem tudo é o que parece, de que nem tudo tem de ser tão linear como o estabelecido. E percorro memórias, e sucedem-se imagens na minha cabeça. De que vale a atenção, se ela é acompanhada de pesar? Se os olhos que nos olham temem por nós? Engulo em seco estes pensamentos. E comento quanta solidão há nesta gente das cidades, nesta gente da actualidade, nesta gente de um mundo tão global que se conhece tão rapidamente e mais velozmente de desvincula. Num mundo que de repente se torna muito maior do que alguma vez poderemos albergar. E no qual às vezes, muitas, tantas, tanta gente não consegue encontrar um lugar que seja seu.

À terceira vista
E agora, aqui no chão frio, todo o meu corpo é chaga que reflecte o estado da minha cabeça. Da desordem, conheço os cantos à casa. Nada me faz recuar nas decisões. No início, a vida era feita de pequenas coisas, algumas delas pequenos dramas. Mas parece que agora, tudo na minha cabeça ganha uma dimensão desmedida, da qual perco facilmente o controlo. Espero pelo autocarro apinhado com a expectativa de quem aguarda uma oportunidade de iluminar um quotidiano negro. A pancada serve-me de alimento ao ego, tantas vezes ferido, outras tantas amargurado. E são tantas as pessoas que se cruzam no meu caminho que, muitas vezes não custa tentar chamar a atenção. E no chão frio, finjo-me esquecida, que é como me sinto sempre. Desprovida de bens, crio aos olhos dos que passam uma personagem que já não sou eu, senão a condensação de ódio, tristeza e solidão. Sinto-me só, e então? Tanta gente se sente assim, hoje em dia. Os dias passam e sem darmos por eles já são anos que passam sem darmos por eles e já são décadas. Que passam sem darmos por elas e já é a vida. E a vida passa sem darmos por ela. E no entanto, há pouco barata tonta, alvo de olhares curiosos, transformo-me num ápice em vítima da minha própria vida, camuflada por uma fraqueza de pernas que é real e me deixa afundar sob a paragem do autocarro. E os olhares curiosos passam a síndrome de preocupação. De pesar.
Olham-me na esperança de que lhes diga algo sobre a vida. Perguntam-me as razões da queda. Como explicar se eu própria não as sei? Fui coleccionando quedas, umas atrás das outras. E quando reparei, estava assim. Despojei-me do meu eu. Vivo uma vida paralela num corpo que já não reconheço, ora infecundo de esperança, ora mordaz de desespero, ora calejado de loucura.
E este plano contrapicado com que olho os que me olham, aqui, assim, caída em pleno Terreiro do Paço, não é mais que o meu palco, onde preconizo devaneios de uma vida que já nada me diz, senão o meu nome. Porque agora, só nele me reconheço.


E a vida passa, e continua, e alberga tantas vidas nela.
E é plateia observante. Expectante.
E também palco.

terça-feira, novembro 18, 2008

Com encontro marcado

A cidade parece tão grande sem ti, que mete medo passear sem a tua mão quente a envolver a minha. E no entanto, nunca estiveste assim tão perto para poder chamar-te meu, para dizer-te coisas boas, para te dar o melhor de mim. Vedei-te passagem à primeira incursão, sem saber que ia afastar a oportunidade de ser feliz de outra maneira. E investi, enganada por hábitos e conversas, sem saber bem ao que ia, guiada sem mais nem menos por um íman que tanto preenche como corrói.
Sabe bem pensar em ti ainda numa linguagem meio-codificada, fruto da distância não definida. E, no entanto, estás longe da minha vista, ainda que sinta a tua presença ao meu lado. És imune à minha ausência e fiel à minha presença. Só quero que quando sentires que me encontraste, me abraces como nunca pudeste fazer. Não importa a espera, senão a intensidade com que o encontro é vivido, ouvi eu, algures, num dia qualquer. Duma coisa estou certa: sei que estás aí.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Um dia destes


Adormecida visão daquilo que as coisas são realmente, todos os dias arrasta os pés para o objectivo que pensa ser o seu. Sempre fiel às convicções, sempre defensor de direitos e cumpridor de deveres. Questiona-se acerca da legitimidade das decisões, numa escala em que a assertividade é contrária à negação. E acena com a cabeça de um lado para o outro enquanto faz coisas que não quer, impregnado pela vida cheia de coisas, que o leva todos os dias estoirado para a cama. Chama-lhe quotidiano, quando não lhe chama vida, e isso, só por si, leva-o a reflectir. De noite, arrasta os pés rumo ao lar, refúgio de horas vagas, sem 'coisas que tratar'. Vida cheia, coração demasiado ocupado, percurso sem sentido.


Um dia destes vai decidir-se finalmente a tirar as palas que tapam o 'ângulo morto'. A decisão puramente consciente vai permitir-lhe ver que a vida não tem de ser o amontoado coerente da estrada sem buracos, de alcatrão negro, mas plano. Vai subir ao topo do cilindro onde foi girando, protegido, e descobrir que por mais que o tempo não pare, há muito mais para lá do casa-trabalho, das 9 às 18. E dar-se-á conta de que, apesar de ainda restar muito tempo, outro tanto foi aproveitado em pouco mais de nada.

terça-feira, novembro 11, 2008

Wanna Disappear Completely?

I'll tell you how.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Se perguntarem por mim


Já a noite vai longa e a escuridão não assola a cidade. Há luz de fundo, uma luz fininha, daquelas como a adolescência que - diz a minha mãe - não é carne nem peixe. Subo as escadas já com os chinelos a fugir dos pés. Apago a luz das escadas, abro a porta do quarto e acendo a luz da mesa de cabeceira. Rituais diários que fazem da vida esta sucessão de dias, e que tornam os anos uma continuidade de quotidianos.

Apago a luz e - ainda - a cidade não dorme. A luz dourada entra pela janela no tecto e deixa adivinhar a lua cheia lá fora. Pego no telemóvel. Penso na hora do despertar. 20 minutos mais cedo para poder dobrar o 'adiar' na manhã seguinte. Aproveito, ligo-o à ficha para carregar, não vá a bateria acabar a meio do dia de amanhã. Ou melhor, de hoje. A reflexão do dia. O que fiz. O que não fiz. O que preciso de fazer. Aquilo que não quero e aquilo que não consigo evitar fazer. Planos. Sonhos. Mais um dia que passou e a vida não anda. Rodo sobre o meu próprio eixo e ponho as mãos debaixo da almofada. Adormeço.

Toca o despertador. Adio. Toca outra vez. Adio novamente. Toca a terceira. Não há duas sem três, não é verdade? Toca. Levanto-me. Corro. Casa-de-banho, quarto. Faz a cama, veste-te, come, lava a cara, lava os dentes, tens tudo na carteira? Óculos, porta-moedas, agenda, caderno de apontamentos? Telemóvel. Vá, pega na chave. Sim, aquela que deixas sempre em cima da mesa da entrada, para evitar o esquecimento. E despacha-te, senão vais chegar atrasada. Anda, rápido que o tempo não pára. E penso pelo caminho, no que tenho de fazer, e nas coisas para o fim-de-semana, e na mochila que ainda não arranjei para levar, e no equipamento para a natação que ainda está por preparar, e o jantar combinado. E páro para conseguir tirar o auricular do telemóvel. Raio de fios enrolados. Como é que é possível? E eu com tanta pressa, já em cima da hora, e a querer ouvir rádio pelo caminho e os fios todos enrolados, parecem um ninho. E o telemóvel? Bolas que nunca encontro nada na carteira... E subo as escadas, cruzo-me com pessoas, algumas tão familiares. E desço. Bolas, que agora começou a chover. E apresso o passo. E agora a calçada - que é tão linda e tão branca e tão característica e tão portuguesa - agora tão escorregadia. E atravesso a passadeira. E a estrada. E espero pelo verde dos peões, que os carros que cruzam a avenida não estão para brincadeiras. E vejo a Gulbenkian à direita. E a frutaria à esquerda. E o relógio em frente a lembrar-me que ele não pára. E já está o Bruno Nogueira a falar na rádio e eu ainda nem a meio do caminho. Abrigo-me da chuva miudinha. Aconchego o lenço ao pescoço. Fecho mais um botão do casaco. E apresso o passo. Páro na montra do quiosque. Faço a revista de imprensa. Obama na capa do Público. Entro e compro. E a Vogue fresquinha. E penso que sou de contrariedades. E de antíteses. E que até posso ser um bocadinho estranha. E agradeço. Muito Obrigada e um bom dia, sim? E passo pelo hotel, e pela farmácia metida provisoriamente num bunker, coberto de folhas do Outono que já se instalou. E tropeço num buraco. E espero pelo bonequinho verde que quando vem também apita. E atravesso o jardim, por debaixo das árvores, apressada. Dou uma vista de olhos na capa do jornal, mas não consigo deixar de reparar na feira de velharias que nem sei de quanto em quanto tempo há. Mas sei que já algumas vezes pensei nisso, e pensei em reter as datas para saber quando era. E nunca o fiz. E depois atravesso a estrada, subo os degraus e tenho de esperar que a porta automática abra que estas coisas das tecnologias não contam com as minhas pressas. E espero pelo elevador que está no oitavo. E subo. Ligo o computador e vou buscar um café. Aninho-me na cadeira. Trabalho. Trabalho. Trabalho.
Almoço rápido e fujo, corro, vou dar uma volta que isto de passar oito horas seguidas sentada dá cabo de mim. Passo apressado e fujo às pessoas, aos hábitos. Decido subir a rua em vez do costumeiro descer. Mas não posso negar a pressa, que ao almoço o relógio também não pára e há que cumprir horários. Volto ao trabalho. Telefono. Escrevo. Telefono. Atendo. Respondo. Sorrio. Berro. Ponho as mãos à cabeça. Penso na vida. Esfrego os olhos que eles nem sempre se compadecem com as poucas horas de sono. Café. Outro. E as horas que agora não passam. Os minutos que não avançam. As respostas que não chegam e eu com tanta coisa que fazer. E estou a pensar se não hei-de ir dar uma volta agora, quando o apito soar na minha cabeça a dizer que é hora de saída. Que se os horários são para respeitar, que seja à entrada e à saída. E acho que vou mesmo. Calmamente. Sem pressas. Andar descompassadamente, sem querer saber de horas. Dar uma volta, a ver se esta rotina não se apodera - além dos meus horários - da minha vida (ou será tudo o mesmo?!). Além do mais, apetece sentir o cheirinho das castanhas que não pude comer ao almoço. Não houve tempo para ficar à espera na fila com pelo menos 10 pessoas. O tempo não se compadece com essas pequenas urgências. Não se intimida. Intimida-me antes a mim que, quando sair, afinal não vou ser assim tão livre de horários. Tenho mais ou menos uma hora para esse andar descompassado. Que o relógio que tenho hoje ao fim da tarde - e que se chama natação - não espera. Mas se, neste espacinho - que é meu - perguntarem por mim, digam que devo andar por aí.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Dança

Dança pela relva, menina que pensa que é princesa. Rodopia como só tu sabes, sobre as pernas pequenas, esguias e descoordenadas. Rodopia em pensamentos e em atitudes, deixa-te levar pela brisa da serra, que embala as estórias que crias só para ti. Torna-nos a nós, espectadores das tuas tramas, das tuas canções. É encantador olhar-te em silêncio. E sedutor pensar que estamos incógnitos. E desafiante acompanhar-te. Embala-nos o olhar só de te contemplar. Faz-nos acreditar que, por mais que cresças, podes ser assim para sempre. Eterna nas convicções...e nos sonhos. Ouve, menina que pensa que é princesa. Quantas estórias tens para nos contar? Príncipes, fadas, florestas, bosques encantados. Jornadas impossíveis, códigos secretos, amores eternos. Conta-nos aquilo que sabes, aquilo que nós já deixámos de acreditar. Sorri muito. Materializa aquilo que te vai no coração. Pede-me que te abrace, menina que pensa que é princesa. E não te esqueças de dizer-me baixinho que me adoras, nas noites em que tu e eu dormimos lado a lado. Veste-te a preceito. Encarna a personagem. Anda às voltas até ficares tonta e cai na relva macia as vezes que te apetecer. Canta baixinho músicas que conhecemos, fala com quem te apetecer, sempre com essa voz doce, doce. E pensa-me sempre contigo. Sejas tu a que rodopia, a que sorri, a que refila, a que chora, a que abraça, a que duvida.

quarta-feira, novembro 05, 2008

'Cause things can change


Some men see things as they are and say why.

I dream things that never were and say 'Why not'?

Robert F. Kennedy

sexta-feira, outubro 31, 2008

A lição de Charlie Chaplin

Smile though your heart is aching
Smile even though it’s breaking
When there are clouds in the sky, you’ll get by
If you smile through your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll see the sun come shining through for you

Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you must keep on trying

Smile, what’s the use of crying?
You’ll find that life is still worthwhile
If you just smile

That’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying?
You’ll find that life is still worthwhile
If you just smile

“Smile”, Charlie Chaplin

quinta-feira, outubro 30, 2008

"Ninguém escreve como eu"

"Ele não é personagem, o livro não tem personagens, não conta histórias. Cada vez mais os livros sou eu. Nem sei se sou eu. O que eu queria era pôr a vida inteira lá dentro. Os livros não são seus. É como os filhos: também não são nossos. Também não são de mais ninguém. São deles mesmo, se forem", António Lobo Antunes, escritor, em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, in Pública, 12.10.08

quarta-feira, outubro 29, 2008

Ninguém vive por ti


Fecha os olhos e o tempo vai parar.
Encosta-te à cabeceira da cama, sente o friozinho na barriga, sente o corpo cair.
Respira-te, sorve o oxigénio que precisares, não abdiques do ar que é teu.
Inspira os teus ideais, os teus sonhos.
Equilibra forças com os teus pesadelos. Convive com eles.
Observa o passado de cima, abstrai-te do facto de teres sido tu a personagem principal dessa estória.
Aprende com as aventuras e com as desventuras.
Observa os teus movimentos passados.
Analisa-te. Elogia-te. Critica-te.
Planeia o futuro com a vivência do presente.
Respira-te.
Sê, contigo.

segunda-feira, outubro 27, 2008

O poema

Foi depois de umas férias quaisquer, alguns dias em que estivemos longe um do outro sem podermos olhar-nos nos olhos e sentir-nos o cheiro. Um ao outro. Tocou o telefone e ouvi-te dizer-me que precisavas de me ver. Sentia o mesmo já ia para séculos, e só consegui sorrir com a declaração de amor. Ainda em casa mas já com o pensamento ao teu lado, conseguia sentir o teu odor tão característico. Senti os teus olhos tocarem-me levemente e vi o teu sorriso mal entrei na tua rua. Estavas à porta, à minha espera. Subimos de mãos dadas, os dedos inquietos que nunca conseguem estar parados quando se tocam. O calor tão conhecido, tão familiar. Fechaste a porta e o tempo parou. Deste-me um abraço. Dei-te outro. Cheirou-me a ti. Na tua mão, dobrada em quatro, uma folha de papel pautado, escrita com a tua letra. Leste em voz alta. Dizia assim.
To see you, when I wake up is a gift I didn't think could be real.To know that you feel the same as I do is a three-fold utopian dream.You do something to me that I can't explain.So would I be out of line if I said, I miss you.(?)I see your picture, I smell your skin on the empty pillow next to mine.You have only been gone ten days, but already I'm wastin away.I know I'll see you again whether far or soon.But I need you to know that I care and I miss you.
Era - disseste tu - retrato fiel daquilo que tinhas sentido por estares longe de mim. Apeteceu-me dar-te um abraço por cada palavra. E dei.

terça-feira, outubro 21, 2008

Abana a cabeça a dizer que não


Nega. Diz que não fazes, que não fizeste. Nega que deixaste de telefonar, de te preocupar. Porque sabes... eras importante. Tinha-te em consideração. Convidava-te para vires, para estares. Achava que querias, também. Agora acho que já não queres. É que, de repente mudaste. E deixaste de ser a pessoa que eu conhecia. Fechaste-te em copas, sei lá. Faltaste. Falhaste. Com medo que te julguem? Com medo que não te apoiem? Com medo de quê, caramba?! Com medo que afinal uma amiga não seja realmente aquilo que aprogoa há anos? Com medo que as tuas alegrias possam contagiar? Com medo que o teu medo corrompa a vontade de estares? De existires? Tens medo de quê? Importas-te de me dizer? É que eu vejo-te afastar, vejo-te ficar na tua. Como se já não fizessemos parte de um mesmo universo, de uma mesma realidade. E de repente, encho-me de coragem e pergunto-te, afinal, o que se passa. Baixas a cabeça em sinal de arrependimento. E de vergonha. E finalmente, apercebes-te daquilo que realmente tens feito, ou melhor, daquilo que falta fazer. Eu vou estar lá nessa altura. Tenho a certeza. Só que a nossa amizade não pode ser unilateral como o tempo se encarregou de nos habituar.

Os meus braços, doridos, vão estar prontos para te receber. Para te aninhar quando quiseres. Basta vires.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Do reencontro


Disse-lhe palavras ao ouvido, baixinho, para não a acordar. "-És linda", sussurrou, com a frescura de uma primeira vez. Aconchegou o lençol que descaía e deixava a descoberto o ombro. Olhou-a debruçado sobre a cama como que a adorá-la. As pálpebras brancas, quase transparentes, deixavam vislumbrar as veias arroxeadas. Os olhos azul celeste, agora tapados, eram únicos. Nunca os tinha visto senão nela. O nariz fino e alto, podia ser perturbador. Mas pelo contrário, encaixava na perfeição dos traços. A tez muito branca, a expressão dos olhos, os dentes muito brancos. Fez-lhe uma festa na cabeça. O cabelo louro, normalmente apanhado numa banana, estava solto e ainda conservava alguns ganchos esquecidos. Envolveu-a num abraço pequeno, como que a protegê-la.

Foi esse abraço que recordou naquela noite. Deitou a cabeça na cama e desejou estar a acordar na manhã do dia anterior. Queria rever tudo para perceber aquilo que lhe tinha falhado. Fechou os olhos e regressou ao hall do hospital. O verde das paredes, o cheiro a desinfectante, tudo regressou outra vez ao ângulo de visão. Voltou a ver a velhota a coxear, as macas no corredor, enfermeiros e médicos atarefados, máquinas a apitarem em sinal de alerta. Os pés a arrastarem-se-lhe por entre os mosaicos cor de rosa com pedrinhas brilhantes. Voltou a entrar no elevador e a subir ao terceiro andar. O percurso era o mesmo já há algumas semanas, não sabia precisar quantas. Desde que a doença tinha progredido até ao ponto em que deveria ser acompanhada 24 horas por técnicos especializados. Nesse dia, quando chegou ao quarto, a cama estava vazia.

Foram dias que pareceram séculos, horas que pareceram meses. O tempo arrastou-se de tal maneira que, às vezes, o próprio corpo teimava e enganava o sono, que já não o abandonava. Tinha vontade própria a necessidade de ficar por debaixo dos lençóis a sentir-lhe o cheiro. Depois do choque inicial, sentia-se em constante descarga eléctrica, sem querer acreditar que ela já não estava nem ia estar mais. Para ele, o primeiro a desaparecer seria sempre ele, tão mitigado por sustos, faltas de ar, arritmias. Vezes sem conta, tinha sido ela a marcar o 112, a chamar a ambulância, a receber os paramédicos. Tinha um coração cansado, o seu homem. Uns pulmões sujos pelos três maços de tabaco que fumou anos a fio. Quando iam para a praia, em Agosto, o ar húmido molhava os brônquios que não podiam com tanta humidade. Acentuavam-se as debilidades, chamava-se a âmbulância. Mas mal chegava ao hospital, tudo se desvanecia. Queria logo voltar, para casa, para o calor da cama, para a confusão das refeições, para o ruído familiar.

E agora, deitado na cama, recordava que sempre pensara ser o primeiro. Nunca tinha sequer imaginado ter de prosseguir sem ela. Sem a leve presença, e deveras importante. Era a matriarca da família, como o meu pai disse um dia. " A Petit era o suporte de tudo". Era mesmo. Sem ela, as coisas nunca voltaram a ser as mesmas.

O despertar era um martírio, mesmo nos dias em que os raios entravam sem autorização por entre as persianas mal fechadas. A noite passava em constante sobressalto, com despertares sistemáticos. Não dormia, nem sonhava. Ficava muito tempo enroscado, outrora 'lapa', agora rocha, sem vida. A roupa amontoava-se aos pés da cama, e às vezes cobria o corpo doentio, de quem não tem vontade senão de descansar. De não pensar. Na mente dele, apenas ela.

Tinha saudades dela a todas as horas. Sentia a falta daquela presença familiar, tantas vezes camuflada por entre a correria do quotidiano. O certo é que estava sempre lá e, de um momento para o outro, deixara de estar. Sem aviso, sem preparação. Teve de e contra vontade, adaptar-se a esta nova realidade. Prosseguir caminhada sem um braço, sem um olho, sem metade do coração. A ausência corrói, dói, faz dano. Sem avisar, deixou um vazio que só o reenconto pôde preencher.


Quero um amor que se confunda com a cor do céu.

E o teu cheiro para sempre no meu cabelo.

sábado, outubro 11, 2008

sexta-feira, outubro 10, 2008

Rendida


Já me rendi a ti. Agora estou só à espera de uma coisa.
(Rapta-me).

quinta-feira, outubro 09, 2008

Ensaio


A luz continua presa ao tecto
Por mais que se tente tirar
Está alta de mais
Ou encandeia os olhos
Ou queima quando se toca
Parece que sabe queimar
Parece que não tenho janelas
Não entra ar aqui (...)
Tira a mão quente dos olhos
Tira o frio da frente
Já tenho tão pouca gente para me encontrar
Desata-me os olhos, desata-me a cara
Desata o teu corpo dentro do meu
Tira-me a voz que puseste no tempo
Que não está a querer desistir
De pisar os membros no chão
De arrancar os braços no tecto
Tira-me de mim, vá tira-me de mim
Transforma o fraco em coisa forte porque tudo se renova...!

Toranja

Carta aberta ao meu amor II

Meu querido amor,
Todos os minutos passam devagar enquanto não chegas. Espero ansiosa pelo encontro, pelo momento em que vou poder abraçar-te.
Nem sempre as coisas foram como quisemos, e nós sabêmo-lo. Durante muito tempo, andámos desencontrados, entre turras e abraços. À procura do equilíbrio, puxámos tantas vezes pelo que pensávamos ser melhor. Empurrámos a vontade, tentámos impingir sentimentos, fazer-nos compreender ao outro como se isso fosse uma missão solitária. Tantas vezes nos sentimos tristes connosco por não nos sentirmos capazes de o fazer perceber ao outro. Sentimo-nos impotentes, sem escapatória. Houve alturas em que abraçar-te era, mais do que uma vontade, um refúgio.
Os teus braços sempre o foram. E a ternura com que olhamos um para o outro, a cumplicidade dos sorrisos, as palavras não-ditas que compreendemos. E todas as letras são poucas para mostrar a dimensão do meu amor. E todos os minutos grandes demais enquanto não chegas e curtos demais quando estás.
Não vejo a hora de chegares. Porque andámos desencontrados muito tempo. Mas os nossos corações sempre souberam o caminho um do outro. Os nossos corpos sabem de cor o percurso que têm de fazer para se completarem. Porque desde o primeiro momento soube que eras tu.
Reparo em ti e sinto que sou tua. Espero por ti no café da esquina e estás atrasado. Olho para o relógio. Bato o pé no chão. Apoio a cabeça na mão, em cima da mesa. Ansiedade boa, esta.
Vejo-te no fundo da rua. Sorrio. Sorris. Já estava com saudades tuas.

quarta-feira, outubro 01, 2008

'Fazer as malas'

Tanto tempo, na vidinha, sem grandes agitações...e de repente, as coisas mudam. Habituados à vida de sempre, a uma realidade que se tornou rotina, a termos as mesmas pessoas, sempre nos mesmos sítios, pensamos que a vida não pode mudar assim tanto, num ápice, num simples piscar de olhos. E de repente, previsivelmente ou não, de modo esperado ou surpreendente, as coisas mudam. Fazem-se malas, segue-se viagem. Mudam-se vidas. Num ápice dizem-nos que morreu, que entrou, que vai mudar de país, ou de continente, ou de vida. Que vai tentar ser feliz noutro sítio, procurar casa noutra realidade. Que se apaixonou e vai embora, atrás desse amor. Que, de um momento para o outro, a vida se tranfigura, o quotidiano se transforma, e deixamos de nos poder encontrar a todas as horas, quando apetece. Porque as distâncias, de repente, deixam de poder ser apenas psicológicas. Passam a ser físicas. Daquelas que é preciso entrar num carro, apanhar um avião, sonhar acordado. Embarcar.
Custa imaginar. Mas dá alento. Dá esperança. Dá vontade de mudar também.
A despedida custa a aceitar. Mas contrasta sempre com o bichinho da viagem. Com a expectativa.
E também, e claro, com o regresso. Boas vibrações.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Se eles falassem

Saberiam que, por mais que tente disfarçar, por mais que negue, por mais que tente manter-te longe, por mais que teime em dar-te beijos na testa e pancadinhas nas costas. Por mais que te fale friamente. E que deixe a mente divagar por caminhos que tento afastar da memória. Por mais que tente dizer que já não gosto tanto, que não desejo tanto. Que não quero tanto. Por mais que diga a mim próprio que já passou o tempo...

...a tua cabeça encostada ao meu ombro naquele banco naquela noite foi só a confirmação de que o teu cheiro não me é indiferente. De que os teus olhos me dizem mais do que todas as cartas que me possas escrever. De que mais tarde ou mais cedo, nos vamos encontrar impreterivelmente. Se eles falassem, iam citar-me com uma palavra apenas. 'Quero-te'.

domingo, setembro 28, 2008

Teriam histórias que contar


Há qualquer coisa encantadora nos bancos de jardim. Sozinhos com eles, sentimos a solidão no estado puro. Observamos cuidadosamente quem passa. Passos rápidos, no quotidiano citadino. Sentados, de repente o tempo pára. Fazem companhia, são encosto, são presença na ausência de alguém. São poleiro, são mesa de histórias, são ouvidos, são confidentes sem boca nem receios. Escutam e calam, como poucos. Armazenam tristezas, solidão, beijos roubados, histórias de amor. São companhias nas tardes de Outono, por debaixo das árvores de folhas douradas e cor de tijolo. Faça chuva ou faça sol, ou mesmo debaixo da maior tempestade, os bancos de jardim estão lá. Não mexem, não falham. Estão presentes na sua efemeridade. São testemunhas, espectadores, de abraços, de discussões. Se falassem, teriam muitas histórias que contar. Entre amores e desamores, alguns gravados para sempre, em palavras escritas na madeira já sem cor, dos dias de sol picado ou de chuva impertinente, bem em cima deles.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Índice de um ecossistema


Índice* de uma precipitação.
A casa ilumina-se para juntar amigos, todos espectadores atentos de um percurso. São interlocutores, participantes. Opinam, riem, conversam, discutem ideias. A música de fundo confunde-se com os elogios, as gargalhadas, os abraços de orgulho, os sussurros. Palavras breves para uma alegria que não cabe em letras, em sons. Mas que se sente. Comentam-se as linhas, as cores, a música, o espaço. A Índice, por não ser apenas uma encadernação de páginas, enche de luz a sala, enquanto o dia anoitece. Índice é uma 'encadernação' cuidada de amigos espalhados pelo mundo.
Comenta-se o caminho. Percorrido em muitas horas. Em muitos dias. Em muitos sonhos. Índice não é uma revista. É um ecossistema.

*A nova revista dedicada aos textos e à cultura dos textos.
Dedicada aos livros, autores, editores, livreiros e leitores de todas as espécies.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Carta aberta ao meu amor I

Meu amor,
O nosso amor é perfeito. O problema, é que ainda não acreditamos.
Sempre que te vejo, fraquejam os pés e as pernas tremem. Antes, já o coração bate acelerado. Os olhos piscam mais rapidamente e, às vezes até a garganta me seca com medo de não ter tempo de te dizer, mais uma vez, que te amo.
As palavras, a mim, parecem-me sempre pouco quando posso beijar-te. Quando estás por perto, é fácil fazer-te feliz. Sofro aquando das despedidas, quando olhamos demoradamente e repetidamente para trás, a ver se prolongamos o momento. Não que queiramos prolongar a despedida, mas queremos prolongar a presença.
Para mim, meu amor, a perfeição és tu. Cheiras a ti, falas como tu, questionas, andas, sorris, corres, refilas. Como só tu sabes. Para mim, o amor tem o teu nome. Olhado por mim és perfeito. Sempre o foste só que ainda não sabias. Sempre soube que eras o tal. "És a luz da minha vida", disse-te um dia. E tu acreditaste. Porque acreditar é amar e confiar. É ser destemido. Enquanto se ama, não há espaço para cansaço nem para desistência. Não há tempo para tempos separados. Quem ama quer, deseja, está, acredita. Quem ama fica. Quem ama não foge (já te tinha dito?). Quem ama sussurra para ser ouvido, abraça para dizer que está, beija para existir.
Por minha vontade, o nosso mundo teria apenas uma peça. Tu e Eu.

'Talvez'...ou mais uma 'não-resposta-tua'

Talvez não haja razão nenhuma e toda eu seja demência, ou urgência, não sei...
Talvez não sejas tu, nem seja eu, nem tenhamos nós que existir
Talvez devesse simplesmente deixar fugir o momento, em que dentro de ti navego e sonho e acordo a rir

Talvez tu não sejas mais do que tudo aquilo que a minha imaginação quis criar
E não sejas bom nem mau, não sejas forte nem fraco, não tenhas por dentro tanto além daquilo que eu vejo por fora (e que, aqui entre nós, é pouco...)
Talvez a razão não me acompanhe nesta viagem e eu percorra a estrada apenas como um louco, sem pequenas questões nem grandes respostas.

E então, poderão perguntar-me:
- Mas afinal, porque gostas?
Talvez eu nesse instante possa responder que é justamente
esse não sei quê, que nasce não sei quando, vem não sei como e dói não sei porquê que me faz acreditar."

Luís Vaz de Camões

Querido Euromilhões...

Desta vez, até te dou a escolher!!!


Da minha parte, também já está escolhido: Nova Iorque (numa primeira paragem, claro!)

quinta-feira, setembro 04, 2008

Ecoa em mim

"She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love.
But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run.
And it wears me out, it wears me out.
It wears me out, it wears me out.

And if I could be who you wanted
If I could be who you wanted
All the time, all the time.
Oh, oh."

quarta-feira, setembro 03, 2008

(...)

- E por que é que não paraste?
- Porque nunca me disseste para parar.
- Pára.
- Não quero.

Desculpa-me, mas...


Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa

terça-feira, agosto 26, 2008

Vem...

Devagar, depressa, aos saltinhos, às cambanhotas, aos pinotes, a gatinhar, a correr, a saltar, lentamente, a cantar ou a assobiar. Vem rápido. Não demores. Ou então leva tempo. Faz como quiseres, desde que venhas. Mas vem.

Estou a morrer por um abraço teu.

sábado, agosto 16, 2008

O Assobio (Canção do Avô)





Naquele dia, pareceu que o tempo parou. As horas teimaram a passar, o ar estava denso, o tempo húmido e quente. A tensão à volta da pequena igreja era muita. Abraços sentidos, beijos sem dar por eles, chamadas de apreço e carinho e que pouco ajudam numa altura daquelas. Todas as palavras são pensadas e sinceras, mas poucas para exprimir aquilo que se sente, numa altura em que parece que o cérebro está gelado e vazio. Ao mesmo tempo, as memórias acumulam-se quais relâmpagos que teimam ameaçar uma tarde de festa. A notícia caiu como bomba, ainda que esperada. Na verdade, nunca ninguém vê o dia derradeiro como algo efectivo e ao qual não se pode fugir. É tão longínquo e tão certo que impressiona.

Pelas saudades, e por todo o resto. Porque vamos, de certeza, lembrar-te este mês. E porque nunca as palavras são sentidas o suficiente e suficientemente eficazes para exprimir as saudades que temos tuas. Ofereço-te esta música, desejosa de que nas lembranças, nos acompanhes na nossa praia de sempre. (escrito em Julho)

Death Cab for Cutie - I Will Possess Your Heart

All I need

o coração não bate. apanha

I don't wanna be your friend
I just wanna be your lover
No matter how it ends
No matter how it starts

Forget about your house of cards
And I'll do mine
Forget about your house of cards
And I'll do mine

Fall off the table,
And get swept under
Denial, denial

The infrastructure will collapse
From carpet spikes
Throw your keys in the bowl
Kiss your husband 'good night'

Forget about your house of cards
And I'll do mine
Forget about your house of cards
And I'll do mine

Fall off the table,
And get swept under

Denial, denial
Denial, denial

Your ears are burning
Denial, denial
Your ears should be burning
Denial, denial

segunda-feira, agosto 11, 2008

Um dia peço-te para ficares comigo para sempre

Hoje é o dia.

latitude longitude coordenadas e vice-versa

ali, a luz amanhece clara e quente. há lugares assim, onde as cores prevalecem frente ao cinza quotidiano. lugares onde as conversas embalam de tal maneira o tempo, que os minutos passam a correr e as horas sucedem-se sem nos apercebermos. lugares quentes onde nos sentimos acompanhados, ouvidos, entendidos, escutados. lugares onde a velocidade do dia é apagada pelo momento eterno dos olhares cúmplices. onde há conversa mas onde a conversa dita não é essencial. lugares onde me sinto eu, plenamente. lugares onde estamos nós, juntos, só tu e eu.

quarta-feira, julho 30, 2008

.

Digo-te olá. Todos os olás são para nós reparadores. Pergunto-te porquê. Dizes-me porquê. Não gosto da resposta. Insisto. Sinto o coração a querer sair-me do peito. Quero abraçar-te. Reservo-me. Escondo-me. Insisto. Porquê. Voltas a repetir, reforças. Olho fixamente o infinito. Insisto porque assim te sinto real. E perto. Perco-me em pensamentos. Partilho. Quero ver-te. Apetece-me ver-te. Ir à tua rua. Esperar à tua porta. Tocar na tua campaínha. Perguntar-te outra vez. Procuro-te. Parece que tudo gira à volta da resposta desejada, do sinal sonhado, da interpretação intersubjectiva directamente proporcional. Insisto.

domingo, julho 27, 2008

Nos fios do novelo


Como num combate de boxe, há vezes em que sinto a vida esbofetear-me. Os planos...faço-os com frequência. Quantos mais faço, mais se desfazem. Há um rolo de lã que desenrola e no qual tenho de pegar com regularidade. É ver desenrolar, e enrolar de novo, à espera que os fios não se tenham separado, ou pior, partido. As mãos têm de ser rápidas, astutas, sempre incansáveis. Porque os fios são frágeis. Uma vez, com um cesto de novelos na mão, ofereceram-se para o tapar. Se o tapassse, os fios, e os novelos, continuariam lá, quase imóveis. Poderiam rodar sobre si próprios, rolar no espaço que existia entre uns e outros. Mas o espaço de movimentos seria restrito. Quis que o cesto continuasse aberto, para deixar entrar o ar e a luz. Mas nos cestos abertos também entra a névoa. Também entra o vento. E a chuva.
Por isso, os novelos, às vezes aconchegados, chegam num instante a ficar encharcados. Há tempestades inesperadas que nem deixam tempo para colocar um oleado por cima deles, que os proteja do pior. Ficam molhados, ensopados, e sem reacção. Pesados da tormenta, têm mais dificuldade em deslocar-se dentro do cesto. Quanto às saídas para fora dele, nessas alturas, enfim...é preciso guardá-las para mais tarde. O novelo fica pesado. É preciso fazer dar-lhe o sol primeiro, para que todas as gotas de água sequem.
Oooo no
Here comes that sun again
That means another day without you my friend
And it hurts me to look into the mirror at myself
And it hurts even more to have to be with somebody else

And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes
You just have to walk away
Walk away

So many people to love in my life
Why do i worry about one
But you put the happy in my ness
You put the good times into my fun

And it's so hard to do
And so easy to say
Sometimes
Sometimes
You just have to walk away
Walk away

And head for the door
We've tried the goodbyes
So many days
We walk in the same direction
So that we could never stray
They say if you love somebody
Then you have got to set them free
But i would rather be locked to you than live in this pain and misery

They say that time, will make all this go away
But it's time that has taken my tomorrows and turned them into yesterday
And once again that rising sun is a droppin' on down
And once again you my friend are no where to be found

And its so hard to do, and so easy to say
But sometimes
Sometimes
You just have to walk away
Walk away

Turn and head for the door....
Walk away
Ben Harper

quarta-feira, julho 23, 2008

the race is long, and in the end, it’s only with yourself

Por caminhos sinuosos, escarpas. Por pedras, buracos, poças de água. Por subidas íngremes, tempestades, sol abrasador. Por estradas estragadas, onde a terra batida e o cimento se misturam. Caminha, ela, sedenta de sonhos e de ansiedade. Medo, não tem. Que seria, se tivesse receio do destino que sonha alcançar quando cruzar a meta. Alimenta-se da lua, respira as brisas. Segredos, tem muitos. Ou quem sabe, apenas um. Corre depressa, às vezes, como medo que o chão desapareça. Quando a jornada é longa e as asas já doem de tanto bater, o voo segue lento e rotineiro. A velocidade, afinal, não pode ser sempre a mesma. Perder-se-iam recuos importantes, meditações que só baixando a rotação do 'conta-quilómetros' são possíveis de fazer. Ficariam pelo caminho considerações e, até os pensamentos, às vezes, com o calor do entusiasmo, desapareceriam.
Pensa, às vezes, que com as temperaturas extremas, o mapa pode perder-se. Desaparecer. Sente receio de que, de tantos caminhos percorridos, a estrada lhe pareça demasiado confusa e sinuosa para manter o essencial. Questiona-se nos 'tempos mortos' sobre o que será de si sem isto ou sem aquilo, como será a sensação de 'não-estar', de 'não-fazer', de 'não-ser'. Pergunta-se se, um dia, terá tempo e disponibilidade para descansar. Porque enquanto houver sonho por realizar, enquanto a estrada continuar infinita e não houver sinais de que vá acabar, deseja que o dia ganhe mais 24 horas para poder fazer tudo aquilo a que se propõe, sem correrias de última hora e podendo ouvir os segredinhos soprados pela brisa que, às vezes, o bulício da cidade teima em tornar imperceptíveis.

sábado, julho 19, 2008

Nosso estranho amor

Nós dois fomos feitos muito p'ra nós dois

terça-feira, julho 08, 2008


Fecha os olhos.
Já sabes que os cegos são os que melhor sentem as coisas. Quero que para mim sejas cega. Quero que me sintas quando me aproximo e quando me afasto. Que sigas o meu cheiro apenas pela simples sensação de que estou lá. Que peças para me aproximar quando sentes a minha falta e que não tenhas medo de pedir que me afaste quando precisas de espaço.

Fecha os olhos e sente.
Quero que me digas o que queres. O que precisas. Aquilo que sou para ti. Quero que me faças sentir parte daquilo que és. Que todas as palavras que saiam da tua boca levem um bocadinho daquilo que sou para ti.

Fecha os olhos e sente-te.
Porque é essencial que te sintas para que me possas sentir. Deixa-me sussurrar-te ao ouvido coisas bonitas. E deixa-me que te sinta arrepiar. A pele de galinha a percorrer-te o corpo como da primeira vez que me aproximei. Deixa-me sentir as borboletas no teu estômago. Deixa que me aproxime e sinta o teu coração palpitar por mim. Porque só assim vais perceber que afinal não sou eu nem és tu. Somos uma mistura híbrida à qual, às vezes, quando os estômagos se juntam, damos o nome de nós.
Fecha os olhos e sente-te. E a mim.

Perfeita

segunda-feira, julho 07, 2008

Sobre o amor

sexta-feira, julho 04, 2008

"Pega-me na mão e aperta-a com força. Por favor, mói-me os ossos mas faz-se sentir que estás comigo. Não quero saber se depois vai doer. Sei que agora, o que eu quero, é estar assim."

sábado, junho 21, 2008

É contigo

Sonho contigo todos os dias e não consigo parar de pensar-te. Acordo de madrugada a ouvir-te cantar e parece que o dia ganha luz. O sol nasce ainda quando subo a avenida, e no entanto, dá para vislumbrar ainda a lua, lá em cima. Restos de círculo cheio a que, tu e eu, assistimos, na noite anterior. Porque só tu me completas como nunca, só tu me fazes conseguir dizer por palavras aquilo que sente o coração. E apesar de todas as barreiras, de todas as lágrimas não choradas, é atrás de ti que corro apressadamente quando a porta do quarto se fecha e sigo a mil à hora só para te ver. Porque é o sonho de te ter ao meu lado que dá alento ao sol e me aquece o dia. Quero-te comigo, querida rádio.

quinta-feira, junho 19, 2008

Pasión

O palco, a um canto, dá uma visão panorâmica ao espectáculo. Ninguém fica de fora, mesmo aqueles que espreitam por entre as colunas do claustro, no primeiro patamar. A envolvência, as luzes, o contraste entre as sorrisos e os olhos emocionados, compõem o cenário que acompanhámos, apaixonadamente. As recordações assumem um carácter fílmico, memórias que se amontoam por entre pó e luz, como se a partilha valesse a pena, apenas em silêncio. Porque a música estava lá, ao vivo e a cores. Entre as colunas daquele claustro mágico.

quinta-feira, junho 12, 2008


Acho óptimo!

sexta-feira, maio 30, 2008

Manuela Ferreira Leite cancela encerramento de campanha por razões pessoais

É uma notícia de última hora...Manuela Ferreira Leite cancelou a sessão de encerramento da campanha pla liderança do PSD. A sessão ia decorrer esta tarde...a antiga ministra das Finanças aponta razões pessoais como justificação pelo cancelamento da sessão...


E perguntam vocês: como é que a manela cancela uma coisa tão importante?Estará doente? Estará com medo?Com falta de disposição?

Não!! A Manela cancelou a sessão porque......tcharã...vai ver a Amy Winehouse!!!

quarta-feira, maio 28, 2008

Chuva torrencial no fim de Maio?

Nãaaa, não pode ser...devo andar a viver numa realidade paralela, num mundo à parte, um "matrix" qualquer que eu não compreendi e, nem quero...

quarta-feira, maio 14, 2008

Péssimaaa...

Acordei praticamente com uma notícia que me estragou imediatamente o dia: os combustíveis voltaram a aumentar? Mas o que se passa com este país?Agora, de dois em dois dias aumenta o preço de qualquer coisa?

quarta-feira, abril 30, 2008

Graças

Sentado na cadeira, pernas cansadas, debruçou-se sobre o prato e uniu as mãos. Os lábios, sussurravam uma língua que não percebi. Depois de servir todos os pratos, de cobrar o vinho, de correr para trás e adiante com esforço redobrado, pelos pés que teimam arrastar-se, fruto da idade, lá se senta. É a sua vez de comer. Mas comove-me a sensação de silêncio entre as gargalhadas estridentes, as discussões acesas. Perturba-me esta vontade de estar só e acompanhado, com um Deus que aí, é só meu. E as palavras baixinhas, segredam, nos seus ouvidos, uma acção de graças de quem agradece a proximidade da terra, enquanto cruza as mãos e reza baixinho. Graças por este pão, pela 'cachupa' que tenho à minha frente. (18/02/2008)

domingo, abril 20, 2008

Ai, ai, aiiiiii

Não tenho inspiração...
e quando tenho...

Não tenho tempo...
e quando tenho...

Não tenho computador à mão...
e quando tenho...

não tenho inspiração...
e quando tenho..

não tenho tempo.

Como dizia o outro...o que é que eu faço?!

sábado, março 22, 2008

Segredo de amigos


Voltar a um lugar onde já se viveu e que faz parte das memórias, é como rever um amigo que já não se vê há muito tempo. Há sempre a ansiedade, o desejo de o rever. Mas ao mesmo tempo, mistura-se a essa vontade o medo de que as coisas não sejam iguais. Porque quando ficamos muito tempo sem ver alguém que já fez parte do nosso quotidiano, e presenciou experiências e serviu de confidente aos nossos segredos, e nós aos dele, é possível que as coisas não estejam iguais. Que as piadas não sejam compreedidas à primeira. Que as expressões não sejam reconhecidas. Que as mudanças não tenham sido acompanhadas. Que as coisas não sejam iguais.Sabemos que situações não se repetem. Os vulgares "dejá vu" não são situações que vivemos duas vezes. São apenas a sensação que surge num instante, de que, já tenhamos vivido alguma coisa em algum momento na nossa vida. Mas são apenas isso. Uma sensação.


Mas voltar a percorrer ruas, a reviver o que se passou, a comer petiscos já experimentados e voltar a estar com pessoas que viveram connosco esse dia-a-dia longínquo, é como rever um amigo que há muito não víamos, e reconhecê-lo. E (Re)conhecê-lo. É um reabituar àquilo que somos com ele, àquilo que ele é connosco. E àquilo que somos quando estamos juntos.
A dualidade do sentimento faz-me desejar reconstruir o momento da minha partida, há pouco mais de um ano. Mas não. Vou guardar aquela manhã de Fevereiro só para mim. Parece que tudo permanece intacto na minha cabeça e no meu coração. Tal e qual um segredo de amigos. Madrid e Eu.

A minha cumplicidade com Madrid, foi-se construindo como se de um amigo se tratasse. Madrid cativou-me, com toda a agitação, o bulício, a animação, a variedade característica de toda a cidade grande que se preze. E porque tudo tem o preto e o branco, o quente e o frio, o yin e o yang. Madrid também me cativou pela eterna, calma, e tranquila descoberta que foi o tempo em que lá estive. Fui reviver Madrid faz agora uma semana. Madrid não será a mesma, de cada vez que lá vá. Mas rever e reviver um amigo de sempre, é sempre esta dualidade. De quem se conhece, mas de quem deixa sempre alguma margem para se conhecer melhor. Como os amigos, nem tudo se desvenda, não vá a evidência corroer a saudade e matar o desejo de rever.

sexta-feira, março 21, 2008


"Não te trarei flores, mas tomarei a tua mão e levar-te-ei até elas.
Não um punhado de flores, mas um bosque salpicado de prímulas, obscurecido por violetas.
Dou-te a Primavera."

Pam Brown

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Rapariga de ouro!


Fiz o teste e...confirma-se!! Como eu previa, sou uma menina de ouro!!!
"You Are A Gold Girl
You're dependable and hard working. You never miss a deadline - and you're never late.You have a clear sense of right and wrong. You're very detail oriented.You get frustrated when your friends are sloppy - or when they don't follow through.You're on top of things, and you wish that everyone else was!"
Podem ver também as vossas cores em http://www.blogthings.com/whatcolorgirlareyouquiz/

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Viver o sonho

O jantar era normal. Convites modernos e amigos do ambiente, por email, iguais às respostas. O restaurante, cabo-verdiano, sem cor nas paredes nem imagens que liguem ao continente africano. Ali, na cadeira, olhava em volta a ver o que se passava. Na observação, tinha o seu maior passatempo. As coisas que se aprendem através da observação, todos tão preocupados em falar para ensinar, e ela ali, sedenta de aprender, observava.
As conversas, entre colegas de profissão, foram dar ao de sempre. Ou se gosta do que se faz...e se sofre pelas condições. Ou se foge às más condições, e se faz o que não se gosta. O jornalismo, tem de ser feito com paixão, não por compaixão. É aí que está o verdadeiro sentido de contar histórias. De que adianta contá-las se não se as sabem? É preciso saber ouvir, tentar descobrir em cada linha um novo código e tentar descodificar linguagens. Uma vez, ouviu que o trabalho do jornalista é como o de um neurocirurgião. Para se fazer, é preciso saber exacta e meticulosamente, o que fazer. É por isso que saber bem a história é (quase) mais importante que contá-la.
O jantar lá avançou. Como a conversa. A passos tantos, já se falava de desemprego, no jornalismo. De acordo com alguns estudos, os licenciados em áreas relacionadas com as Ciências Sociais e Humanas são os que mais dificuldades têm em encontrar trabalho. Arriscaria dizer que isto acontece porque teimam em viver os sonhos. São mais românticos, mais poéticos, mais humanos. E por isso, mais sonhadores.
Agora, depois do curso, do estágio e dos pensamentos que às vezes tardam em fugir, não quero falar de más condições de trabalho, de recibos verdes, de ausência de subsídio de alimentação e transporte nem da impossibilidade de marcar férias. Não quero falar do facto de poder continuar assim anos e anos, como alguns. Nem da impossibilidade de construir a vida que imagino minha, já, daqui a nada. Não quero mudar de profissão, arranjar alternativas, ser caixa de super-mercado ou andar aí a choramingar pelos cantos. Eu quero que os dias passem como notícias e que as histórias possam ser contadas por mim. Agora, quero viver o meu sonho, ser jornalísta por este bocadinho. E que aí, assim, nesse espaço tão meu, que o tempo passe devagar e o mundo me caiba na palma da minha mão.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

"Importas-te de me dizer o que se passa?"
"Disseste-o com lágrimas a teimar em cair, nos olhos escuros. Como se uma resposta pudesse abalar-te o mundo, fazer-te cair de vez ou ressuscitar-te com um sopro apenas. Quando ouvi a pergunta, não quis acreditar. Como "Importas-te de me dizer o que se passa?"?Como? Andas a olhar para mim e não me vês? Tantos encontros e desencontros, enganos e frases por acabar. Acabam-se os sorrisos com abraços costumeiros, como se o mundo fosse um lugar tão estranho a nós que desaparecesse. O chão treme como se quisesse fugir e tu perguntas o que se passa. Passa-se que já não me sinto. Passa-se que sinto os costumes a esvair-se em pó, os sonhos lá longe a correr rumo ao horizonte e uma luz solar tão forte que já os fez desaparecer no fio. E o ardor dos olhos é tanto que já nem consigo chorar com medo que as órbitas me saltem de tanta dor. Porque tenho medo de não aguentar aquilo que sinto, de tão mal que o sinto por já não sentir mais. Tenho medo. Medo de não saber qual o sonho por que luto. Tenho fervor nas veias e dor no coração. E às vezes o fervor assalta a dor. E outras é ela que o possui, como o coração quando desata a galopar por já não te ter colado a ele. Salto e fico a meio caminho de sítio nenhum? Ou continuo nesta impaciência que me corrói e me mina, me consome de não me preencher? Ajuda-me a perceber aquilo que me vai no peito, que eu, de tanta dor, já não consigo vislumbrar. Ensina-me a pôr os óculos e conseguir apanhar os sonhos que já desapareceram no fio do horizonte."

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A Conta gotas
Abriu a persiana para ver como estava o dia. Lá fora, as gotas de orvalho pingavam nas folhas do alecrim e um cheiro a terra aquecia o ambiente. Aconchegou o casaco naquela manhã fria. Olhou para a lareira, onde a cinza dormia, depois das brasas da noite anterior. Ainda conseguia sentir o cheiro do fumo da fogueira. Lá fora, ainda tudo dormia. Tudo menos o sol que se ia levantando devagar, por detrás da encosta. Aquela casa, mesmo no cimo do monte, era mais do que um lar. Era um sonho tornado realidade.
Lembrava-se de quando a casa ainda era uma miragem. Dos primeiros tempos de trabalho árduo na cidade, onde não se sentia integrada. Naquela altura, os dias passavam depressa, mas pelo acumular de trabalho que ia adormecendo a secretária e a vida. Agora, sozinha naquele fim de mundo, naquele cume da montanha, lembrava todas as fases da escalada. Desde o momento em que começou a sonhar, que a vida tinha corrido melhor. Era por sonhar que vivia. E agora, no topo do monte e no cume da vida pensou que só queria ver tudo a conta gotas. Como se o tempo deixasse de existir e restasse apenas a eternidade.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Olá

Ano Novo!
Podemos ser amigos?!

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Pés saltitantes querem anos novos. Passos pequenos, por mais que a calçada seja irregular e escorregadia, são a melhor maneira de caminhar. Com precaução, é possível que as casas se construam a partir de alicerces fortes. Podem ter cores gritantes, gostar de festa e de alarido, mas não deixam de ser fiáveis e, em última instância, de confiança.
Os pés pequenitos andam devagar, serenamente, incessantemente. Porque os pequenos têm de dar passos mais certeiros, e o tempo de reflexão nunca é tempo perdido. Há que decidir melhor, leve o tempo que levar. Pés pequenos, por terem de procurar as melhores pedras onde saltitar e por terem de planear melhor os próprios saltos, caminham certeiramente ano após ano. Cansam-se muito, porque caminham em dobro. Mas ao mesmo tempo há neles a serenidade de saberem certas as decisões, de tão pensadas e reflectidas. Pés pequenos para grandes passos. Porque são mais certeiros. Porque sim.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

O futuro nos livros
Quando eu era pequena e os dias passavam devagar eu cansava-me das férias. A chegada de dias de férias era mais valorizada, creio que pelas festas na escola no dia antes. Gostava mais das festas de despedida de "Bom Natal" ou "Até para o ano", das recomendações das professoras de "Não se esqueçam de continuar a ler no Verão!" do que propriamento do dia em que não seria obrigatório acordar cedo para ir para as aulas. Gostava mais dos concursos de playback e das festas dos slows da adolescência no refeitório do que do prazer de dormir até mais tarde. E passados uns dias tinha vontade de voltar para a escola. Sempre me cansei das férias e muito especialmente das férias grandes. Sim, porque as férias de Verão eram mesmo grandes, senão enormes férias! Começavam no fim de Junho e só acabavam em meados de Setembro e o tempo rendia tanto que chateava não ter nada para fazer durante dois, quase três, longuíssimos meses de Verão.
Nas minhas férias de Verão, longas e pachorrentas, os meus dias passavam vagarosamente. O tempo, de tão lento, cansava de aborrecido. O tédio era esquecido quando, em meados de Agosto, os novos livros vinham para casa. A partir daí, podia sonhar em planear o novo ano, que aí já fazia sentido. É preciso bases sólidas para começar qualquer coisa. Sem pilares que sutentem, nada vinga nem anda para a frente. Os livros eram os meus pilares fortes num todo de "dolce fare niente", passageiro-permanente das férias de Verão. Os livros vinham, e eu, adorava cheirá-los, folheá-los, ver o que aprenderia logo logo em Setembro (que já estava tão próximo e ao mesmo tempo tão longínquo). Forrava-os com papel de bonecos, primeiro, e depois, transparente, que facilitava a idenificação. Era todo um ritual, este de folhear, cheirar, forrar, voltar a folhear, descobrir o futuro. E as páginas dos livros novos, a cheirar a coisas novas, serviam de base para planear o futuro e exerciam uma espécie de encantamento em mim, que ainda agora eu não consigo negar.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Calçada molhada, botas molhadas, calças molhadas, casaco molhado, cachecol molhado, mãos molhadas, chapéu de chuva molhado, gorro molhado, carteira molhada, telemóvel molhado. Tudo encharcado.
Brghhhhhhhhhhhhhhh...´Tá de chuva, caramba!!

quinta-feira, dezembro 13, 2007

(foto El Pais...Não está bestial??!)

Suspiro Jornalístico em LISBOA

Queria poder ter feito parte da cobertura deste Tratado. Quantas vezes estive durante a manhã de cabeça e coração no Mosteiro dos Jerónimos, a imaginar o ambiente. Preciso de mais do que ser espectadora dos acontecimentos. Quero participar, quero estar, ver, ouvir, quero colaborar. Quero sentir que o mundo sabe mais de si e que eu participo nessa partilha de estórias! Quando é que eu vou poder finalmente deixar de ser uma jornalista de secretária?

quarta-feira, dezembro 12, 2007

LX

(Para ouvir ao ler)

Passear contigo é sentir que quando caminho não estou sozinha. É o descomprometimento de pôr as mãos nos bolsos sem medo de não te dar a mão. É sentir o vento frio na cara, transpirar de calor, sentir o sol a pique no nariz, a iluminar-me o rosto. É compor a gola do casaco e sentir um beijo teu. É o teu cheiro, sempre tão familiar. Saber que estás lá. Saber-te minha. Passear contigo é o misto mais agradável de descontração e apreço. É abraço sem contacto e contacto sem toque. É cumplicidade. Passear contigo é saber-te minha e saber-me tua. De alma, coração, confiança. É sentir que me sabes tantas vezes a tanto, e outras tantas a tão pouco.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

O metro, a cigana e as lágrimas teimosas
Coberta de preto a velha cigana senta-se no banco do metro. Vai nervosa, ansiosa, nota-se-lhe uma instabilidade latente.
As rugas de expressão que acompanham a cara escura, outrora simples e encantadora, carregam a carga emotiva que a transfigura. A velha cigana aperta as mãos devagar. Baixa a cara, vêem-se-lhe as riscas na testa de tanto a engelhar, do sol, da vida. Depois, a cabeça entra quase entre os ombros e começa a gemer muito baixinho. Aperta os dedos contra os olhos num movimento repetido e aflitivo. Desespera, chora baixinho e sem lágrimas. Vida dura, corpo cansado. Mãos marcadas pelo passar dos anos, agora denunciado por não conseguir chorar.
Não chora a velha cigana vestida de negro. Geme de tanto tentar e não conseguir. A velha Lisboa entrega-se-lhe depois, quando sair do metro e vir a luz do dia. Corre e mostra-lhe que o dia é muito mais do que aquela velocidade a que o metro percorre os finos carris debaixo da terra. Se vivesse sempre como topeira nunca poderia sequer supor...tentar por momentos imaginar...adivinhar aquilo que se passa na vida daquela velha cigana de pele bonita. As rugas marcam os caminhos daquela cara viajante. Mas o tormento...sim...o tormento é a evidente dificuldade que as lágrimas têm de lhe percorrer a cara. Uma dificuldade em não saber ou em não conseguir chorar.

"Bentas"

Simplesmente encantadora..