quinta-feira, outubro 29, 2009
Crónicas do reino de Marraquexe #1
Chegas de mansinho e nem fazes barulho. Dou por ti já aqui bem perto da minha cara, quando sinto as tuas pestanas a tocarem-me a pele e depois os teus lábios encostados aos meus. Mas és suave nos movimentos, e é difícil sentir-te a pele senão na cara - se bem que pouco me importo, gosto da tua pele macia e clara, da tua tez branca, das tuas perfeitas imperfeições. Os olhos bem pretos fecham-se quando me tocam, mas sinto-lhes a profundidade de sempre. De quando me olhaste pela primeira vez na praça enfumarada da mesquita. De ti, foi pelos olhos que me apaixonei. De ti, na verdade, via-te apenas os olhos. O cabelo muito escuro estava tapado, como está hoje, com um lenço de cor pastel que esbatia o tom da tua pele muito clara. Pestanas muito longas, lembro-me que me tocaram o coração pelo enquandramento e pelo secretismo que os teus olhos me transmitiram. E sempre que entras aqui, seja noite ou seja dia, vens de surpresa. Sempre de mansinho, não fazes barulho. Ajudam-te os pés que descalças à entrada, a leveza do teu andar, e a medida certa da tua túnica comprida. O tecido pesado e quente. Denunciam-te as pestanas longas. O beijo profundo. E o teu cheiro, que detecto logo, mas que gosto de apreciar e aprecio saborear enquanto te aproximas, pé ante pé. E eu disfarço que não dou por ti, já o meu coração lateja numa dança louca, e os meus braços quase não conseguem controlar a vontade de te abraçar.
quinta-feira, outubro 08, 2009
quarta-feira, setembro 30, 2009
segunda-feira, setembro 28, 2009
A tua é a minha

É mais do que um momento. Mais do que um instante prolongado pela eternidade. É mais do que uma coisa sem sentido, como se todo o universo conspirasse a nosso favor. É muito mais do que sorrir sozinha, tímida, envergonhada. É rir alto para partilhar a alegria, chamar a atenção pelas melhores razões. É intimidar os outros, num primeiro momento, por ficarem assustados com a estridência do gargalhar. E depois levar-lhes à boca um sorriso que num instante se transfigura numa gargalhada presente. E partilhada.
Apetece mais.
Da evidência
Esqueço-me que os teus dias passam sem pensares no que farás amanhã. Como se o futuro fosse uma coisa tão longínqua, como se o amanhã fosse o tempo que nunca chega, a meta que não se pode cortar, a vida doutros que não posso viver. Impressiona-me que penses que a única coisa que importa é hoje, que me digas que o ontem já era e que o amanhã nunca chegará. E já agora, perturba-me que insistas em dizer-me que o mundo não chega para todo o amor que sentes por mim. Porque tu não és mais do que a evidência de que há coisas que nunca chegam às nossas mãos, porque nunca quiseram ser nossas. E isso diz tudo. Nem precisa de mais palavras. Evidentemente.
segunda-feira, setembro 21, 2009
quinta-feira, setembro 17, 2009
Chegar
Já era noite quando pôs a chave na ignição e a rodou. O motor ligou-se de imediato, apesar da temperatura baixar de dia para dia. Todos os dias. Estava a chegar o outono, pensava. Como o tempo passa. Naquele dia não apetecia ir directo para casa. Apetecia-lhe fugir do hábito. Não queria sentar-se frente à televisão, descalçar-se, o zapping do costume. Carteira ao colo, dar uma volta aos papéis, passá-los para a lista de contactos, separar os recibos da gasolina dos das refeições. Passar pelas brasas e acordar sobressaltado, meia hora depois, pensando na estupidez de não ter ligado o despertador. Levantar-se de rompante, como se o tempo lhe tivesse atacado a alma, encher a taça de sopa e pô-la a aquecer no microondas. Ali, sentado no banco do carro, não lhe apetecia pensar no que fazer para o almoço de amanhã. Não tinha vontade de cafés corriqueiros, nem de matar saudades dos amigos que deixara de ver por falta de tempo. Faltava-lhe mais do que tempo para os outros. Aumentou o volume do rádio. Estava sem vontade de ouvir notícias. O acidente de Penafiel. A reeleição na comissão europeia. A chuva prevista pelo instituto de meteorologia. Sussurrou uma coisa que nem percebeu bem o que era. Apetecia-lhe fugir daquele corpo, ser outra coisa, ter tempo para observar quem era. De fora. E depois, de um momento para o outro arrancou. Marcha atrás rápida. Decidida. Como se todos aqueles momentos fossem vãos face à vontade de conhecer-se. Acelerou a fundo. O fumo negro no tubo de escape gasto. E a cabeça inclinada para trás. Sem a contrapressão do pescoço. Mão no volante, mão nas mudanças, mão no cabelo, mão na mão. Sorriu ao espelho retrovisor e parou na entrada da rotunda, à espera de prioridade. As luzes reflectiam os faróis a passar, um atrás do outro. Sem pressas, arrancou. Pedal moderado. Pedal a fundo. Fundo pedalar. Seguiu, pelo caminho, sem olhar a combustível, a tempo, a horas, a espaço, a pensamentos. Esvaziou a cabeça, esqueceu a realidade. Passeou pela cidade, num instante que só deu para perceber que tinha saudades suas. Matou-as de um trago. Não fosse o tempo acabar.
quarta-feira, setembro 16, 2009
Sobre o regresso
Olho para ele de baixo. Ele do alto dos seus 40 e tais, e do alto dos meus dez. Separam-nos centímentros, mas não são essas as diferenças que mais me preocupam hoje. Deixa-me nervosa o à vontade com que fala aos olhos atentos e expectantes. Fascina-me a fluência das palavras, a cadência da voz, e a simplicidade das frases. Límpidas como as dos livros infantis que já leio sem dificuldades, com as letras bem gordas e sem piadas que exijam grandes raciocínios. Embora conheça os cantos à casa, parece-me hoje que não sou de cá. Há uns meses, esta parte era-me interdita. Não podia passar da porta de metal com vidros pequenos. Agora, de repente, mudou o hábito, sem sequer me dar conta. E elas dizem que o tempo passou rápido, lembram-se da fotografia do primeiro dos primeiros dias. Pouso a cabeça na mão, pesa-me a pressão do cotovelo em cima da mesa. De soslaio, lá as vejo, sempre atentas a mim. E no espaço entre este pensamento e o sorriso seguinte, houve regras de conduta a respeitar, planos de contingência, regras de funcionamento. E este bocadinho passou rápido. Vou num instante arrumar a mochila e dormir.
terça-feira, setembro 08, 2009
Inverso
Estou farta de falar de mim quando nos encontramos virtualmente. Perguntam-se as novidades e nunca há nada a dizer. Ou há pouca coisa, que nunca ficamos muito tempo sem conversar. E quando há novidades és a primeira pessoa a saber que isto ou aquilo aconteceu, por isso nem sei porque perguntas como estão as coisas ou como ando. Sabes tão bem como eu a maneira como me afectam estas perguntas que não esperam uma resposta esperada. Antes uma resposta que queres ouvir. Estou farta de ter de confirmar que estás bem, como se de mim dependessem as tuas acções. Pões-me nos ombros as escolhas que fazes depois de muito pensar, e cansa pensar que só ages depois de saberes que não vou levar a mal. Mas sabes que assim, até as surpresas deixam de fazer sentido. Prefiro que deixes as preocupações de lado. Sugiro que guardes os vacilos para quando eu estiver longe de ti. Será mais fácil explicar-te à distância, as razões do meu afastamento e a velocidade avassaladora com que me desencantei em relação a ti. E agora, faz-me um favor e fala um bocado de ti, que estou farta da minha assertividade. E deste sorriso estúpido nos lábios.
quarta-feira, agosto 26, 2009
(Re)publicação #2*
Não vou a tua casa todos os dias, é certo. E mesmo que não vá tantas como gostaria, sempre que lá entro o teu cheiro está no ar. Na mesa da entrada há uma fotografia tua. Sorridente sem ser exagerado. Distinto e subtil como só tu sabes ser. E confio que estejas escondido em qualquer sítio, ou que tenhas saído sem avisar, ou que te tenhas atrasado nalgum recado. Só depois reparo nos finos lírios lilás que ficam tão bem com a gravata que tens na fotografia. E lembro-me que já não estás porque desde aquele Julho nunca mais voltaste. Lembro-me e sinto saudades de pôr o guardanapo diferente para ti na mesa. Porque só gostavas dos de tecido. Tenho saudades porque nunca provei arroz de tomate tão saboroso como o teu. Saudades de te ver cruzar as mãos, chamar Pequenina à avó, Formiguinha à Madalena e Bailarina à Maria. Falta de fazeres companhia nos pequenos-almoços das férias. De gostares de saber das notas da escola em primeira mão. E de apareceres sempre nas vésperas das festas para animar o pessoal. Saudades de ti, das gargalhadas sentidas e do orgulho que transparecia a par do sentido crítico que nunca perdeste. Falta dos conselhos sábios e da calma da análise das coisas. Falta de ti, que és tão insubstituível como esta ausência dura de gerir e impossível de esquecer. Impossível de compreender.
terça-feira, agosto 25, 2009
Por lapso
esqueci-me o quanto gosto de conversar à mesa depois do jantar, e de ficar a beber devagar uma bebida fresca, enquanto discutimos juntos tudo o que cada um fez durante o dia.
deixei de me lembrar que adorava pensar no dia todo, refazê-lo em partes e percorrer todas as palavras ditas e ouvidas, já com a percepção de que eram repetição, mas com o fascínio de quem vê a própria vida e a analisa de fora. sem culpas.
lembrei-me que há coisas mais importantes do que aquelas a quem realmente dou alguma importância.
importa-me esperar por amigos, aproveitar as conversas, sentar-me numa esplanada e remoer aquilo que leio nas páginas de um jornal, como se as palavras me fossem indegestas.
quero achar-te engraçado como quem ouve as piadas pela primeira vez e só as percebe quando são explicadas por alguém, tal é o fascínio de te olhar na tua altivez e ver-te, ao mesmo tempo, da minha altura.
lembrei-me hoje que é bom não esquecer certas coisas. que a memória é das qualidades mais importantes que devem conservar-se e praticar-se e cultivar-se. dia após dia.
quinta-feira, agosto 20, 2009
Rápida-mente
Toca aquele bling bling cansativo e levanta-se de sobressalto, como se mais cinco minutos na cama fizessem toda a diferença. Não adormece de manhã, com medo que o mundo lhe escape num instante, de ver que as coisas mudam tão rápido que se de um momento para o outro o mundo cair, nunca conseguirá apanhar a cadência das coisas. Corre para o banho e é rápida no pensamento, mesmo de manhã, quando ninguém consegue ser. A luz dá-lhe uma energia quanse inesgotável e tem a certeza que, se falasse consigo logo de manhã, talvez não percebesse metade das palavras ditas, dada a velocidade com que o pensamento corre. Acumula a lista de tarefas diárias e só depende dela. Às vezes é esse o problema. Falta-lhe o tempo para poder agarrar-se ao pensamento, como num jornal normal numa praia ventosa: as folhas fogem sem deixar rasto, a menos que tenham sido cuidadosamente lidas. Cuidadosa é ela, com as coisas que faz. Já com as coisas que é, saltita entre as certezas e as dúvidas. Duvida tantas vezes que chega a confundir as próprias reflexões, como se as pernas não quisessem andar sem terem os sapatos calçados, mesmo que o chão seja forrado a algodão fofo e quente. Tem uma certeza: está numa construção que não tem fim. E é bom conseguir perceber isso.
quarta-feira, agosto 19, 2009
Dossier
Houve um dia em que me deste um dossier antigo com artigos publicados em vários jornais e planos de um livro que nunca acabaste. Emocionou-me um gesto tão particular e sentimental da tua parte. Acho que foi das primeiras vezes que te senti de carne e osso.
Nunca me senti muito inspirada por ti. Digo-me que não sou assim tão sisuda, assim tão austera, tão ponderada, digo-me que não sou assim.
Mas penso algumas vezes se serei mais do que insisto em negar. Sou sisuda quando me vejo gravada por uma câmara de filmar. Franzo o sobrolho sem me aperceber, e fecho os olhos ao falar. Mas talvez sorrias mais do que eu quando achas alguma coisa engraçada. Pergunto-me por que nunca escrevi sobre ti, assim directamente. Já foste mais austero, mais distante. E acho quando te ofereci um livro com uma dedicatória te emocionaste por sentires que talvez tenha herdado de "escrever" de ti. Não me acompanhas tanto como gostarias, simplesmente porque talvez não estejas para aí virado nesses dias, mas sei que te orgulhas. E tens vergonha de teres vontade de chorar quando eu também, entre lágrimas, te agradeço o velho dossier que guardaste para mim. Fazes sentir-me especial. E isso é bom.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Primeiro de Agosto
É amanha dia 1 de Agosto /E tudo em mim é um fogo posto/Sacola ás costas, cantante na mão/Enterro os pés no calor do chão/É tanto o sol pelo caminho/Que vendo um, não me sinto sozinho/Todos os anos, em praias diferentes/Se buscam corpos sedosos e quentes/Adoro ver a praia dourada/O estranho brilho da areia molhada/Mergulho verde nas ondas do mar/Procuro o fundo pra lhe tocar/Estendido ao sol, sem nada dizer/Sorriso aberto de puro prazer, X&P


Estamos quase a chegar? - Perguntamos vezes sem conta, só porque sim. Tens de compreender que não é todos os dias que fazemos esta viagem. Só uma vez por ano sentimos que levamos a casa às costas e emigramos para a praia que conhecemos tão bem. Tens de compreender que não é todos os anos que aumenta trinta minutos a hora a que podemos chegar a casa, e que isso é motivo suficiente para que queiramos que os anos passem depressa e cheguemos cedo à maioridade. Porque durante muito tempo, pensamos que os dezoito são aquela idade em que, de um dia para o outro, tudo nos passa a ser permitido. Sem percebermos ainda que a confiança se conquista como se cria um filho. Dia-a-dia. Não vale a pena refilares, nem avisares que ainda falta, que podemos dormir um bocadinho porque a chegada ainda demora. Hoje é dia 1, a mala do carro vai cheinha como um ovo, e nós - não vale a pena insistires - não vamos dormir porque não temos sono. Põe o pé no pedal, acelera, e vamos. Que temos pressa em chegar, por mais que haja grandes probabilidades de estar a chover, de estar vento suão e das pessoas lá em casa estarem com os "azeites".
O caminho já é conhecido, mas parece sempre a primeira vez. Passamos o mosteiro da Batalha e já sabemos que falta pouco pouco para a entrada na autoestrada. E que depois da autoestrada, já falta pouco para chegarmos à ponte. Aí, podes acelerar, que é uma via rápida. Quando se chega à ponte, já sabes que tens de abrandar, não vão os radares apanhar a excitação transcrita nos quilómetros em excesso. Mas nãoi abrandes muito, que aqui já nós não conseguimos manter a alegria de vermos, mais uma vez, o farol vermelho e branco. Já nos cheira a maresia. A praia. E se abrirmos o vidro, já sentimos a humidade do mar apoderar-se do nosso cabelo. Quando propões o desafio de descobrir quem é o primeiro a ver o farol, sorris. Vejo-te, no retrovisor, orgulhosa. Inclinamos os quatro as cabeças, olhos esbugalhados, narizes alinhados, sem pestanejar, com medo de perder o primeiro sinal da Barra. Na rádio, deve passar qualquer coisa. Acho que também cantamos nas viagens. Fazemos aqueles jogos das palavras, e do limão. Por cima da ponte, há gente a andar de bicicleta. Gente que está a acabar as férias. Sei que durante o mês vai haver olás e despedidas q.b. .
Jantares de um grupo de amigos de verão, que se reúne a cada ano. Notam-se-nos as diferenças. Estás tão crescida. Os banhos no mar revolto da nortada. Os sete dias de marés vivas. As inundações de quando a ria enche até ao limite. E os passeios de bicicleta até à barra. As tripas com chocolate e canela. O vento frio e a chuva. Sempre a chuva, que teima deixar-nos algumas tardes livres para o Trivial. E quando chegamos finalmente, estacionas o carro e juntos tiramos as tralhas do carro. Arrumamos tudo em gavetas, penduramos cabides e fios-varão improvisados. Há que desinfectar a casa, limpar tudo bem. Subimos e descemos escadas vezes sem conta. Pelo meio vão aparecendo os amigos que já chegaram há mais tempo. Contam-se as novidades. A casa já tem vida. Acumulam-se as bicicletas à porta. A família chegou à praia. Sabemos que a partir daqui, começam as verdadeiras férias. Grandes, de verão. É bom rever os amigos. É triste deixá-los e dizer-lhes "até para o ano".
O engraçado é perceber que o tempo passa, aqui, tão devagar para nós. E que, mesmo que me esforce, vou pedir, por favor, mais ou menos a meio do mês, que me tragas de Rio Maior os livros do próximo ano. E desejar que as férias acabem depressa.
domingo, julho 26, 2009
Dos avós, e do dia deles
Não vou poder dizer-vos quantas vezes fomos ao Caramulo, ao Vale da Mó, nem ao Luso encher garrafões de água, porque não me lembro. Mas sei que foram muitas. Logo que entrávamos de férias, seguíamos para cima, que é como quem diz, para vossa casa. Levávamos os brinquedos preferidos - cada um com o seu - e lá íamos nós a contar os quilómetros para chegar. Mal víamos a primeira rotunda, começávamos a disputar quem veria primeiro a próxima, e a outra. E depois o ciclo. E o liceu onde a titezinha dava aulas. E depois os plátanos da avenida, com a folhagem enorme, e os raios de luz a passar por entre as folhas verdes. Era por cima delas que depois, no Outono, gostavamos de andar. Ouvi-las estalar, crocantes. Secas. Mas falemos antes do verão, estação dos 'olás', das descobertas. Das férias grandes. Os almoços ajantarados no moinho do avô, onde a água saía dos canos da casa de banho completamente cor-de-laranja. "Água férrea", diziam vocês. E nós assentíamos. Vocês sabiam tantas coisas, e nós nem duvidavamos. Como quando íamos ao Caramulo e tu, avó, descascavas maçãs e laranjas todo o caminho. Passavas os gomos sumarentos - "Uma especialidade" - para o banco de trás onde nós dividíamos por quatro o repasto. E as cascas - ainda sem preocupações ambientais - iam directas da janela para a rua, como se o carro deixasse um rasto de cascas de fruta que permitiria o regresso ao final do dia. Havia os outros em que, de manhã, saíamos cedinho convosco, sandes de salsicha-e-ovo-que-nunca-mais provei-igual na "ceira" que usavas na praça, ao sábado. E fruta - ameixas rainha cláudia, peras duras (como nós gostávamos), maçãs bravo de esmolfe e cerejas. Uma delícia. Passávamos o dia na piscina. Adorávamos entrar com o avô, que tinha um cartão "vip" que nos dava acesso à olímpica e à de saltos, onde eu sempre tive medo de saltar. E também quando íamos para o Palace da Curia, e ficávamos a ver-te observar-nos nos baloiços, lá em cima, ou cá em baixo, enquanto chapinhávamos os pés da água morna do "fosso" pouco fundo que rodeava a piscina. Lembro-me de como a água vinha sempre quente para o primeiro que tirava o cloro do corpo depois da tarde solarenga no Luso. E de como num instante enchíamos os garrafões na fonte da água, e também rapidamente os levávamos para a mala do carro. Era tão bom passar as mãos por água, molhar os pés que estavam quentes do calor. Ainda que nos ralhasses depois, por estarmos todos encharcados. Havia sempre programa em vossa casa. Fosse nas compras no grémio, que confirmavas com cuidado ao chegar a casa; fosse na praça de sábado, no café da vila a seguir ao almoço; na casa da vizinha, que tinha duas filhas da nossa idade; ou nos passeios de bicicleta pelo choupal, que pareciam sempre diferentes e sempre tão compridos. Agora as férias grandes passam num instante. Já não têm três meses. Os passeios ao choupal já não se fazem, e mesmo se fizessem, demorariam não mais de quinze minutos. As pernas são mais ágeis, e o percurso já não sabe nem cheira a descoberta. Além disso, vocês já não estão lá em casa. E é tão difícil explicar aos manos estas memórias que teimam - felizmente - em não deixar que vocês morram dentro de mim. Seria uma pena perder-vos para sempre. Convosco iriam bocadinhos de histórias, e tantos, mas tantos momentos, que nem tenho palavras para dizer todos.
E mais: tenho a certeza que se vocês ainda cá estivessem, seria melhor o caminho por debaixo dos choupos da avenida. As árvores do jardim deixariam passar mais luz. O carro andaria mais devagar só para prolongar a ansiedade da viagem. A alegria da chegada. O abraço do reencontro. E a infância - a nossa infância - iria prolongar-se para sempre. Porque, ao pé dos avós, nunca deixamos de estar de férias. Somos sempre apaparicados, como se a vida fosse um passeio onde tudo é novidade. Como se o outono não desse sinais, com o amarelecer das folhas. E como se as palavras nunca chegassem ao fim.
segunda-feira, julho 20, 2009
(Re)publicação*
Lisboa, Chiado, Fevereiro de 2009
Sai rapidamente do metro, livro metido debaixo do braço num encaixe quase perfeito. Gosta de caminhar assim sempre, mesmo que não tenha hora marcada na agenda, nem combinação com algum amigo. Anda assim simplesmente porque gosta de correr pela calçada portuguesa, envelhecida por tantos pés que por ali passaram. Poetas, escritores, filósofos, contadores de histórias. Calçada tão lusa que impressiona os estrangeiros. Calçada que escorrega quando a chuva teima em não parar num inverno que tarda em ir embora. Calçada que gela em noites frias. E ferve em dias de sol. Calçada que reflecte a luz de Lisboa, que tanta falta faz aos que não estão. Calçada portuguesa é chão da língua da saudade, do fado, de Fernando Pessoa e das pessoas que ele era também. É base sólida dos poemas de Camões, da prosa infantil de Sofia, das linhas despontuadas de Saramago. Calçada portuguesa é suporte de um povo e de uma língua que se querem tão portugueses.
Quando ele sai do metro. Apressado. Livro na mão. Ponho-me sentado no degrau, apoio-me o queixo da palma da mão e olho-o de esguelha. Daquela calçada, naquela escada tão portuguesa que sobe da Baixa para o Chiado, pergunto-me que livro irá ele a ler. Que livro guardará ele debaixo do braço. Tão perto do coração.
*daqui
Sai rapidamente do metro, livro metido debaixo do braço num encaixe quase perfeito. Gosta de caminhar assim sempre, mesmo que não tenha hora marcada na agenda, nem combinação com algum amigo. Anda assim simplesmente porque gosta de correr pela calçada portuguesa, envelhecida por tantos pés que por ali passaram. Poetas, escritores, filósofos, contadores de histórias. Calçada tão lusa que impressiona os estrangeiros. Calçada que escorrega quando a chuva teima em não parar num inverno que tarda em ir embora. Calçada que gela em noites frias. E ferve em dias de sol. Calçada que reflecte a luz de Lisboa, que tanta falta faz aos que não estão. Calçada portuguesa é chão da língua da saudade, do fado, de Fernando Pessoa e das pessoas que ele era também. É base sólida dos poemas de Camões, da prosa infantil de Sofia, das linhas despontuadas de Saramago. Calçada portuguesa é suporte de um povo e de uma língua que se querem tão portugueses.
Quando ele sai do metro. Apressado. Livro na mão. Ponho-me sentado no degrau, apoio-me o queixo da palma da mão e olho-o de esguelha. Daquela calçada, naquela escada tão portuguesa que sobe da Baixa para o Chiado, pergunto-me que livro irá ele a ler. Que livro guardará ele debaixo do braço. Tão perto do coração.
*daqui
quinta-feira, julho 16, 2009
Da planície
Era ermo, aquele monte, quando o conheci. Meia dúzia de calhaus enormes, bicheza que a minha mãe viu primeiro que qualquer outra pessoa, e terra. Muita terra. Seca, árida. Clara. Cortada, rachada. Separada pelo calor do sol. Era assim, monte e vale. Valle. Havia duas casas, uma quase sem telhado, outra nem tanto. Alicerces rijos, naquela terra sacrificada pelas diferenças diárias de temperatura. Ora frio gélido à noite. Ora quente incendiário, de dia. Amplitude térmica que não trespassa para as gentes, sempre tão quentes. Tão calmas. Sempre tão iguais umas às outras. Ermo aquele sítio, no meio do nada. Quente, tão quente que o sol está que queima os ombros de quem por lá passa.
Passam-se ali horas rápidas, dentro da acalmia da casa. Das tardes sem televisão e com conversas. Das noites a tocar guitarra e a cantar. E das madrugadas em que a conversa vence o sono, enquanto a lenha estala na lareira alentejana. Baixa e de tijolo-burro. Um copo de vinho tinto que aquece, um queijo manchego e pão alentejano. Isso, e a eternidade. Quadratura perfeita de fins-de-semana perfeitamente inesquecíveis.
Passam-se ali horas rápidas, dentro da acalmia da casa. Das tardes sem televisão e com conversas. Das noites a tocar guitarra e a cantar. E das madrugadas em que a conversa vence o sono, enquanto a lenha estala na lareira alentejana. Baixa e de tijolo-burro. Um copo de vinho tinto que aquece, um queijo manchego e pão alentejano. Isso, e a eternidade. Quadratura perfeita de fins-de-semana perfeitamente inesquecíveis.
terça-feira, junho 30, 2009
Quem te disse
Os teus olhos são como os meus, mas mais claros. E sempre que me olham, dizem-me coisas que eu não entendo. Preferia ter um pensómetro e ler-te o pensamento, assim, de imediato, quando te chegasses a mim com toda a pompa e circunstância e a tua boca se calasse. Como sempre.
Deixei de estranhar a tua inércia e passei a encará-la como uma ligeira amnésia. Que escondo de mim e tento afastar do pensamento. Só que de cada vez que insistes em convidar-me a sentar à tua mesa, comer da tua comida e beber das tuas palavras suadas e mastigadas, percebo que essa minha amnésia [essa tua inércia] sempre lá esteve. Não importa crermos que as coisas dos outros mudam por nós. Não adianta pensar que as coisas se alteram assim, momentanea e instantaneamente. Os outros mudam, se quiserem. Nós também.
Deixei de estranhar a tua inércia e passei a encará-la como uma ligeira amnésia. Que escondo de mim e tento afastar do pensamento. Só que de cada vez que insistes em convidar-me a sentar à tua mesa, comer da tua comida e beber das tuas palavras suadas e mastigadas, percebo que essa minha amnésia [essa tua inércia] sempre lá esteve. Não importa crermos que as coisas dos outros mudam por nós. Não adianta pensar que as coisas se alteram assim, momentanea e instantaneamente. Os outros mudam, se quiserem. Nós também.
sexta-feira, junho 26, 2009
segunda-feira, junho 22, 2009
Recesso
Disse-te tantas vezes que gostava de ti e não ligaste. Pensaste que fosse durar para sempre.
Também eu, ora. Também eu acreditei que o teu sorriso me fosse encantar para sempre. Também eu te prometi que ia adorar-te até ao fim. Acreditei que a tua maneira de falar me seduzisse sem deixar dúvidas e que ias ser para mim, e para sempre, perfeito. Aturei-te as birras - e tu as minhas. Duras e muitas. Permiti que me magoasses e me espetasses espinhos bem fundo, no coração. E aí magoavas-me. Mas tudo o que tínhamos de bom compensava os momentos maus. Esquecia-me de tudo quando me abraçavas. Sentia-me protegida nos teus braços, mesmo que estivessem frios. Porque contigo, era como se fossemos um. Pensei mesmo que a dor de te perder nunca fosse passar. Que o buraco que senti no peito fosse para sempre. Que as lágrimas se prendessem aos olhos numa eternidade dura e numa dor miudinha e sem parança. Pensei que a cura fosse tardar, que as mãos nunca mais encontrassem calor noutras que não as tuas. E que o sol fosse perder-se para sempre, mesmo quando o verão chegasse. E agora que te (re)vejo, te cumprimento e te toco. E falamos sem pensar, vejo o quanto as coisas mudaram sem me aperceber. E sem te aperceberes. Aquilo que eu pensava para sempre, afinal tinha um prazo de validade. E parece que - se ainda não acabou - está muito perto de ficar recesso.
Também eu, ora. Também eu acreditei que o teu sorriso me fosse encantar para sempre. Também eu te prometi que ia adorar-te até ao fim. Acreditei que a tua maneira de falar me seduzisse sem deixar dúvidas e que ias ser para mim, e para sempre, perfeito. Aturei-te as birras - e tu as minhas. Duras e muitas. Permiti que me magoasses e me espetasses espinhos bem fundo, no coração. E aí magoavas-me. Mas tudo o que tínhamos de bom compensava os momentos maus. Esquecia-me de tudo quando me abraçavas. Sentia-me protegida nos teus braços, mesmo que estivessem frios. Porque contigo, era como se fossemos um. Pensei mesmo que a dor de te perder nunca fosse passar. Que o buraco que senti no peito fosse para sempre. Que as lágrimas se prendessem aos olhos numa eternidade dura e numa dor miudinha e sem parança. Pensei que a cura fosse tardar, que as mãos nunca mais encontrassem calor noutras que não as tuas. E que o sol fosse perder-se para sempre, mesmo quando o verão chegasse. E agora que te (re)vejo, te cumprimento e te toco. E falamos sem pensar, vejo o quanto as coisas mudaram sem me aperceber. E sem te aperceberes. Aquilo que eu pensava para sempre, afinal tinha um prazo de validade. E parece que - se ainda não acabou - está muito perto de ficar recesso.
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