Sui generis. Foi isso que foi. Não houve convites, nem vestido de princesa branco imaculado, nem uma plateia de convidados a encherem uma igreja da Baixa. Não houve copo de água, nem banda a tocar na festa, nem sequer houve acólitos a ajudar o padre a segurar a Bíblia, na hora de ler o Evangelho aos noivos. Os convidados contavam-se pelos dedos de duas mãos, o coro pelos de uma e os padrinhos foram a família. As palavras foram sentidas, houve enganos e sorrisos, e houve também tempo para corrigir o que estava mal, tempo para fazer as coisas com calma, de tão descontraído o acontecimento. Sui generis, dizia ela. E foi. Cantou-se com alma, abraçou-se com carinho, beijou-se com gratidão. Pediram-se pétalas e arroz no café da esquina, bebeu-se água de garrafas alheias, e houve desconhecidos a testemunhar o momento, que entravam na igreja ao mesmo tempo que decorria a cerimónia. Quebraram-se as tradições: o véu desapareceu, a liga não existiu. Mas houve um sol quentinho a receber os noivos debaixo da chuva de pétalas amarelas e vermelhas. E houve um carro barulhento com música. E houve turistas nas ruas do Chiado a tirar fotografias. E houve amigos que "eram capazes de aparecer" e que "apareceram" mesmo, entre a areia da praia e a calçada portuguesa. E houve também um brinde aos noivos, e promessas de amor eterno - que há tradições que nunca podem ser quebradas. Foi especial por ser assim. Simples. E porque o nervosismo estava lá, como em todo o lado onde se fazem promessas que se querem ver cumpridas. Sui generis.
domingo, maio 30, 2010
sexta-feira, maio 28, 2010
terça-feira, maio 25, 2010
toda a gente foi domingo (ao menos) uma vez.
Pega no copo de pé alto - um clássico que lhe custou barato naquela loja de antiguidades da esquina - e bebe o último trago do vinho branco que ainda está fresco. Não sabe bem como é que o vinho ainda está fresco, que é Agosto, está calor, e o tempo quente não é amigo das coisas frescas. Talvez seja dela, e da conversa saborosa à volta daquela mesa redonda naquele fim de tarde. Não nesse, mas daquele que nesse se lembra, que as recordações também são doces e frescas, como os dias presentes ou ainda aqueles sonhados que ainda não aconteceram. Ali sentada, sozinha, sente-se ainda acompanhada daquelas conversas. Da vida dos que estão longe mas que dão notícias por telefone. Dos outros, tão perto, mas que lhe escrevem cartas todos os meses, mesmo que combinem cafés. E dos outros, aqueles de quem nunca mais teve notícia mas que fazem e sempre farão parte das histórias da vida dela. Ali, sentada, inspira-se nas recordações que permanecem, e bebe o último trago, sem perceber que o vinho já aqueceu com o calor do ar, e que ela - tão preocupada com o passado comum - envelheceu sem dar por nada.
quinta-feira, maio 20, 2010
Est'agora
Às vezes preferia que não tivesse sido assim. Não dar por ti quando coincidimos nos sítios. Preferia que este radar que não falha falhasse de quando em vez. De vez em quando. Queria não te ter visto naquela calçada íngreme, tu a subir, eu a descer. Continuei a beber a capirinha - como se a lima (ou será limão dos brasileiros, dos verdes) me ajudasse a esquecer que naquele dia conversámos até de madrugada.
Preferia não ter visto quando passei - sorrateira - por trás de ti, noutra noite qualquer. Uma ventania grande na rua, e nós ali - coincidentes - mais uma vez. Preferia ter-te passado ao lado, preferia que não me tivesses sentido passar quase colada a ti (e esse radar que não falha). Preferia, às vezes, não ter coincidido naquela noite em que as despedidas foram as boas-vindas que num instante se tornaram despedidas. Ou então preferia só conseguir fazer-me notar sem notar eu que estavas também. Distraída. Acho que é isso. Preferia uma distracção.
quarta-feira, maio 19, 2010
Razões, ao ritmo do djambé
Falta-nos por aqui uma grande razão
Como dizia o Cesariny
Uma verdade para qualquer estação
Falta-nos um motivo, um anseio
um desejo fortíssimo,
Um desígnio, uma visão
Falta-nos um punhal brilhantíssimo
Para liquidar esta vida de conformismo
De rotina sem ambição
E falta-nos uma espingarda
Para apontar ao manto da noite
E rasgar estrelas na escuridão
Falta-nos um visionário
Que traga o futuro nos olhos
E a cara pintada de carvão
E falta-nos um gato persa
Que seja tão sábio como os sábios
Quando sustém a respiração
Falta-nos um garfo de aço holandês
Com embutidos de mármore
Que diga poemas em alemão
Falta-nos um Kant, um Locke
Um Aristóteles, um Sócrates,
Um Newton, um Platão
Falta-nos acabar com os burocratas
Fundar uma não igreja
E pôr no altar a imaginação
E falta-nos uma pianista que toque
Bach, Mozart, Chopin
De forma perfeita com uma só mão
Falta-nos brilho, noite, lantejoulas
E uma inesperada mulher-palhaço
Que nos faça rir até à exaustão
E falta-nos um jardim humanológico
Repleto de corruptos e assassinos
Comidos dia a dia por um leão
Falta-nos um relógio que não nos dê ordens
Um barco que seja um jardim
E um zeppellin que só ande no chão
Falta-nos dedos para tocar o invisível
Todas as palavras ainda por dizer
E uma imensa coragem no coração
E falta-nos ter o peito muito aberto
A tudo o que seja talento, novidade,
Diferença, inovação
Falta-nos fazer o exercício diário
De andar de bicicleta num arame esticado
Entre dois prédios em construção
Falta-nos sobreviver sem telemóveis
Automóveis, sacos de plástico,
Ipods, twitter e sobretudo a televisão
Falta-nos fazer filhos aos magotes
Mas não para garantir a segurança social
nem os educadores do ministério da educação
Falta-nos esquecer todas as fronteiras
Instalar alarmes, os barcos da marinha
Sossegar o nosso medo da imigração
Falta-nos filosofar socraticamente
Sobre negros, amarelos, mulatos
E os benefícios da miscigenação
Falta-nos uma bússola, um sextante
Um astrolábio, a rosa dos ventos
para nos ajudar na navegação
Falta-nos uma mesa de pé de galo
Que se levante no ar e voe
Quando o debate se transforma em discussão
Falta-nos discursos de jazz no parlamento
De Coltrane, Milles Davis, Thelonius Monk
Em vez de Governo e oposição
E falta-nos fazer algo verdadeiramente original:
eleger um sonho para nos governar
Em vez de uma desilusão
Até lá, como dizia o Cesariny
Falta por aqui uma grande razão!
Nicolau Santos
Como dizia o Cesariny
Uma verdade para qualquer estação
Falta-nos um motivo, um anseio
um desejo fortíssimo,
Um desígnio, uma visão
Falta-nos um punhal brilhantíssimo
Para liquidar esta vida de conformismo
De rotina sem ambição
E falta-nos uma espingarda
Para apontar ao manto da noite
E rasgar estrelas na escuridão
Falta-nos um visionário
Que traga o futuro nos olhos
E a cara pintada de carvão
E falta-nos um gato persa
Que seja tão sábio como os sábios
Quando sustém a respiração
Falta-nos um garfo de aço holandês
Com embutidos de mármore
Que diga poemas em alemão
Falta-nos um Kant, um Locke
Um Aristóteles, um Sócrates,
Um Newton, um Platão
Falta-nos acabar com os burocratas
Fundar uma não igreja
E pôr no altar a imaginação
E falta-nos uma pianista que toque
Bach, Mozart, Chopin
De forma perfeita com uma só mão
Falta-nos brilho, noite, lantejoulas
E uma inesperada mulher-palhaço
Que nos faça rir até à exaustão
E falta-nos um jardim humanológico
Repleto de corruptos e assassinos
Comidos dia a dia por um leão
Falta-nos um relógio que não nos dê ordens
Um barco que seja um jardim
E um zeppellin que só ande no chão
Falta-nos dedos para tocar o invisível
Todas as palavras ainda por dizer
E uma imensa coragem no coração
E falta-nos ter o peito muito aberto
A tudo o que seja talento, novidade,
Diferença, inovação
Falta-nos fazer o exercício diário
De andar de bicicleta num arame esticado
Entre dois prédios em construção
Falta-nos sobreviver sem telemóveis
Automóveis, sacos de plástico,
Ipods, twitter e sobretudo a televisão
Falta-nos fazer filhos aos magotes
Mas não para garantir a segurança social
nem os educadores do ministério da educação
Falta-nos esquecer todas as fronteiras
Instalar alarmes, os barcos da marinha
Sossegar o nosso medo da imigração
Falta-nos filosofar socraticamente
Sobre negros, amarelos, mulatos
E os benefícios da miscigenação
Falta-nos uma bússola, um sextante
Um astrolábio, a rosa dos ventos
para nos ajudar na navegação
Falta-nos uma mesa de pé de galo
Que se levante no ar e voe
Quando o debate se transforma em discussão
Falta-nos discursos de jazz no parlamento
De Coltrane, Milles Davis, Thelonius Monk
Em vez de Governo e oposição
E falta-nos fazer algo verdadeiramente original:
eleger um sonho para nos governar
Em vez de uma desilusão
Até lá, como dizia o Cesariny
Falta por aqui uma grande razão!
Nicolau Santos
segunda-feira, maio 17, 2010
O dia do ramo da espiga
"Bom dia", dizia ela do alto do metro e meio, sapatos de verniz altos e bicudos, próprios de uma professora primária. Respondiamos, já de pé e em coro "Bom dia, sra. professora", um hábito criado desde o primeiro dia, sem objecções (que em 1991 não havia quem refilasse com os professores). Anunciava que depois do intervalo grande - onde corríamos por baixo do chorão (que diziam ter escorpiões) e fingíamos ser super-mulheres no meio dos rapazes que não nos ligavam nenhuma nem se deixavam distrair no jogo de futebol - íamos apanhar a espiga. Que era dia da espiga. E nós - que a memória é curta e comprida - não nos lembravamos bem o que isso queria dizer. O intervalo ainda dava margem para mais uma passagem de modelos - e para roubar mais umas flores de maracujá ao jardim da D. Madalena no Casaleiro (que nunca fez queixinhas quando encontrava a minha mãe no supermercado).
Dois a dois - meninas com meninas e meninos com meninos - seguíamos por caminhos de cabras a tentar apanhar as papoilas mais viçosas, e as espigas mais bonitas. Margaridas, e "o teu pai é careca?" e mais outros jogos que envolviam namorados, e amoras, e quantos tens e quantos queres e se queres ou não queres. Não quero não. Do Matão para o bairro Mãe de Água são dez minutos de distância. E um acampamento de ciganos com a roupa lavada e estendida ao sol - que seca com o vento - onde os cães ladravam quando passávamos. E uns caminhos que já nos eram familiares ao passarmos por lá (e que agora, talvez já não reconheça, que há tantos anos não passo lá). E depois, raminhos bem feitos, escrevíamos uma frase bonita para entregar - qual presente que agora poucos dão valor - quando nos fossem buscar para almoçar.
quinta-feira, maio 06, 2010
Amor à primeira vista
É difícil explicar o que aconteceu. Foi tudo tão rápido e imperceptível. Sei que nem sabia o teu nome. Apresentaram-te como sendo um todo, não um nome só. Diziam que eras outra coisa, que eras ousado. Destemido. Fresco. Jovem. Completamente diferente dos outros.
Eu acreditei porque os que já te conheciam falavam maravilhas de ti. E eu decidi arriscar. Deixei o ceptismo de lado e, qual aventureira, deixei-me levar como fazem todos os apaixonados. Ainda sem te conhecer pessoalmente, perguntava por ti, preocupava-me contigo. E lembro-me que até sonhei contigo algumas vezes, nas noites antes do derradeiro dia. Conheci-te numa sala cheinha de gente que comentava o teu aspecto baixinho. E depois alto, ao microfone, para toda a gente ouvir. À primeira vista achei-te diferente, sim. Parecias luminoso, apesar de cinzento por dentro. Mas como toda a gente, pensei logo poder-te mudar, como se a mudança não partisse de ti, mas de mim. Mas aos poucos, comecei a dar-te espaço, e a por-me à vontade. E comelámos a conhecer-nos melhor, a conversar mais. Vimos que partilhavamos gostos, interesses... que gostavamos das mesmas cores, que coincidiamos nos lugares. Num instante, comecei a pensar em ti a toda a hora. Falava de ti a toda a gente. E sempre que me aproximava, o coração batia mais depressa e sentia borboletas na barriga quando te via. E toda a gente me perguntava quando é que te conhecia, tal era a excitação. Começaste a parecer-me mais luminoso, mais ousado. Deste-te a conhecer, mostraste-me outra maneira de ver as coisas. E começámos a falar da mesma maneira, a usar as mesmas expressões, a rir das mesmas piadas, como gente que passa muito tempo junta e se conhece como a palma da mão. Sabes? E depois o tempo foi passando rápido, as provas sendo ultrapassadas. Grandes novidades, pequenos segredos, montes de coisas partilhadas. Quando dei por mim estava apaixonada e já não me imaginava sem ti. Passaste a fazer parte do meu dia-a-dia, da minha vida, a condicionar as minhas escolhas. Abdiquei de tempo para estar contigo, estiquei os dias para poder dar-te atenção, desdobrei-me em cuidados quando te senti mais frágil, apoiei-me no teu ombro quando me apeteceu chorar. E não é isso o amor?
É difícil explicar como isto tudo aconteceu. Porque a maior parte das paixões não se explica. Acontece. Num instante. Tão rápida, veloz, inexplicável, imprevisível. Só sei que quando me dei conta, era impossível voltar atrás. Há um ano que preciso de ti todos os dias. Coisa boa, esta.
Olha

Só para avisar que tenho mau feitio, que posso assustar, que me apaixono facilmente, que não sei onde isto vai dar. Nem quando, nem como, nem se vai dar, de todo. Que sou muitas vezes menos do que queria ser, e outras tantas mais do que alguma vez imaginei. E que ainda não te dei o abraço que queria. E isso faz-me sentir a tua falta. Além de tudo o resto que ficou por fazer.
domingo, maio 02, 2010
mã
É desmedido, bem sei. E sempre me ensinaste que tudo o que era demais era mau. Mas gostar de ti de maneira desmedida - sei eu - nunca é demais. Sabes porquê? Porque nunca é suficiente gostarmos de quem nos quer bem. E de todas as vezes que me senti sozinha, tu estavas lá. E de todas as vezes que precisei de um abraço, tu deste-mo. E de palavras bonitas, e de uma palmada, e de uma festa no cabelo, ou de um beijo na testa.
Não és perfeita: já te vi chorar de tristeza, emocionar de alegria, gritar de ódio, sorrir de nervoso, dizer não por capricho, torcer o nariz de desconfiança. Já deixaste de me falar uma vez. Já te abracei quando não conseguiste deixar de fumar, já te fiz massagens nos pés, já te pintei as unhas e já cozinhei para ti. Já nos zangámos algumas vezes, já gritámos uma com a outra, e já chorámos por termos gritado uma com a outra.
Sei a tua voz de cor, e reconheço há anos a maneira como tosses. Tanto que quando passavas no corredor da escola, dizia baixinho que eras tu que estavas a passar. Nunca mentes e isso é bom. Dás o exemplo, elogias os bons feitos e és a primeira a criticar aquilo que fiz mal. E sei que posso contar sempre sempre, sempre contigo, que tenho a certeza que não me vais falhar nunca. Porque se não sei onde vou acabar, sei muito bem de onde vim. E isso ninguém nos tira. Nem a ti, nem a mim.
sábado, abril 10, 2010
Pátria
Trailer Cinema "Pare, Escute, Olhe" from Pare, Escute, Olhe on Vimeo.
Do país que nos acolhe e que somos. Da mentalidade tacanha, da saudade tramada, do pessimismo latente, do medo de arriscar. Do querer mais parecer do que ser. Da vontade de ir ao cinema e ver com olhos meus as histórias que outros viram, contadas em movimento e em melodia. Por mais que elas sejam de outros, são nossas também.
terça-feira, abril 06, 2010
segunda-feira, abril 05, 2010
Páscoa
A porta, encostada, nem deixa adivinhar o que tem dentro se já não soubessemos. Vamos visitar-vos, e ela senta-se na beirinha da pedra cinzenta com os vossos nomes escritos, com a letra que ele escolheu. Simples. Passamos as jarras por água, movimento feito de cor sem que nunca ninguém nos tenha ensinado. Aprendemos de ver. A esponja cheia de água, verde, dá de beber á verdura e às flores cor de salmão que pomos na jarra de vidro. Vão ficar ali uns dias. E a primavera que tarda vai fazer o favor de não as secar tão cedo, que bom.
E ela ali sentada bebe das histórias que lhe contavam um e outro, e das que viveu convosco. E passa por água a pedra que ficou meia suja das flores e da confusão do arranjo. E num instante, naqueles filmes mecânicos que a cabeça faz, passam imagens em flash de momentos-chave. Aqueles dias de praia compridos, os aniversários onde nunca faltava ninguém. Os Natais cheios, as buscas pelo Pai Natal, o perú a tostar no forno de lenha da padaria que abria de propósito para lá irmos. A ceira na praça, carregada de legumes, os sapatos no chão do carro, dentro do saco de plástico, que calçavas à pressa e que substituiam os chinelos com que conduzias. E os óculos, pendurados ao pescoço, cheios de farinha caída dos cozinhados. O rosbife acabado de fazer. A sopa de grão-de-bico feita por encomenda. E os pães passados a ferro. Ai os pães passados a ferro. É nestas alturas que mais se sente a vossa falta. Quando entramos em casa e os quartos estão frios porque ninguém veio antes para acender a lareira. Ou quando não chegamos a tempo da cruz porque ninguém ligou a avisar que ela lá vinha. Ou então quando não há pão de manhã, nem beatas na lareira, nem sequer baton nos lábios nem verniz vermelho nas unhas. E já ninguém chama "canina" nem "araújo" quando precisamos de vocês. E cai-me uma lágrima matreira quando me lembro o quanto dava para vos pedir um conselho, para vos roubar um abraço. Para ouvir uma piada tua, avô. Ou para sentir o cheiro da avó outra vez.
quinta-feira, março 25, 2010
Sei lá
Não sei se grite ou se sorria de nervoso. Não sei que faça perante este irritante alvoroço. Não sei que faça agora. Se rio ou se choro. Se guardo para rir mais tarde, se vivo agora para não esperar. Não sei que faça - sinceramente. Se corra rápido ou disfrute lentamente. Que isto de fazer no momento pode ser anseio, pode ser tormenta, pode ser porque sim. Não sei - realmente que faça - de mim, de ti, de nós. Sei que estou baralhada, cansada, gasta. De pensar sempre e tanto. E permanecer. A sós.
segunda-feira, março 22, 2010
sábado, março 20, 2010
Floripa
Havia lá um calor bom, daqueles que aquece a pele só do contacto, mal se sai do avião e o ar condicionado desaparece. Era assim calmo como a infância, de uma calma que se torna hábito tão rapidamente como nos habituamos a qualquer coisa boa e de que sentimos que sempre estivemos à espera. Havia lá muito verde, entre montanhas, florestas, t-shirts e havaianas, com a bandeira do Brasil. Havia obras em Copacabana, e no Leblon, e no caminho para o aeroporto Tom Jobim - e como me encantou o nome do aeroporto - que preparam o país para o que aí vem e para tudo o resto. É um povo virado para o futuro, pessoas preparadas para receber. Contaram-se histórias de produção de ostras na casa-trabalho da dona Gioconda, e do Niemeyer e de uma cidade que ele não construiu. Contou-nos a Helena, que nos recebeu entre doces e chás quentes e frios. Numa pasta, entre capas de plástico, contou-nos a história de um projecto feito e desenhado ao pormenor, e que só o pai dela cumpriu. E disse-nos que a pele pendurada na lareira da pousada dos Chás fora trocada, em tempos, por uma garrafa de chachaça brasileira, numa caçada em que o negócio foi feito entre o tio dela e índios. E depois metemo-nos mais uma vez na carrinha do seu Octávio - nem sei quantas vezes nos metemos naquela carrinha - e seguimos um caminho que parecia que não acabava nunca mais. E foi um amor que senti à primeira vista, uma familiaridade com o desconhecido que nunca imaginei. Foi sentir-me em casa e querer voltar rápido e cedo, que já tenho saudades do "nossa, minina" da Carla Paulista, ou das reflexões com selo "banana reflexiva" do Richard que desenhava tudo quanto via e ouvia. Há histórias que vou resgatar com o tempo. Outras que vão ficar comigo para sempre. Foi bom, tão bom, que tenho mesmo de voltar.
sexta-feira, março 19, 2010
Father's eyes
Toda a gente diz que tenho os olhos iguais aos teus. Pode ser verdade, mas não é só isso que interessa. As pestanas compridas, herdei-as com certeza de ti - não restam dúvidas - assim como o cabelo muito escuro que tanta gente insiste ser preto. E que eu insisto ser exactamente da mesma cor que o teu: um castanho escuríssimo. Gostava de te ter conhecido mais quando era pequena, e quando tinha todo o tempo do mundo para falar-te de mim e dos meus segredos minúsculos a que eu dava a maior das importancias. Mas nessa altura tu estavas pouco, trabalhavas fora e o tempo foi passando. Nunca foi difícil lidares comigo, bem sei, que eu sempre te obedeci. Por isso, talvez mesmo só por isso, seja difícil para ti que eu não esteja sempre, como sempre estive, debaixo da tua asa. Como quando me arranjavas o pão com manteiga que ficava com o cheiro do teu after-shave entranhado e parecia que eu estava a beber perfume. Tens as mãos lindas - nunca te tinha dito, certo?. E sei que também sentiste que o passado tinha sido uma perda de tempo quando, naquela viagem para o Alentejo, falámos de uma vida inteira em duas horas e tal. A nossa relação é intuitiva, é compreensível, é simples e meiga e carinhosa. Gosto muito dos teus beijinhos. E gostava ainda mais que se multiplicassem por infinitos. Só que nem tudo é como nós queremos, paps. Mas sabes, há uma coisa que nunca vai mudar. Os meus olhos vão ser sempre iguaizinhos aos teus.
quarta-feira, março 17, 2010
Início
Falava-te de como era difícil começar. Falava-te não. Falávamos. De como é difícil o início. Porque antes do início, ninguém consegue saber como vai ser, o que vai ser, quando vai acabar, se vai ter fim. É como um texto, como começar a escrever a primeira palavra na folha branca e vazia, da preocupação de a letra sair perfeita, de o texto sair sem enganos, das palavras não ultrapassarem as margens.
A importância - ou não - de escolher a primeira cor a tocar no papel, o primeiro traço do desenho, o primeiro toque da tinta. Parece-nos sempre que o sucesso de um texto depende do arranque. E que da precisão de um desenho depende a primeira impressão com o papel. Como se o fim fosse decidido pelo início (como se o Benfica só desse goleadas aos adversários quando marca três ou quatro golos nos primeiros minutos). Hoje, é-nos difícil sentir esta tensão do início. Porque é muito fácil apagar e voltar a arrancar com um texto. É simples corrigir um desenho num qualquer programa de computador. Hoje, quase nada de decide a partir do início. De quase nada depende o arranque. Mas nunca as casas resistirão a um tremor de terra se os alicerces não forem suficientemente fortes. Isso nunca.
quarta-feira, março 10, 2010
B5/Dona Lena
Uma vez meu filho me perguntou: mãe, que pousada é a nossa? Eu pensei um pouco, vendo o que poderia dizer, e falei para ele: Filho, a gente tem uma pousada do carinho.
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