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segunda-feira, setembro 13, 2010

Caro José,

Pensei tratar-te por você - daí o 'caro' - mas sempre achei que quanto mais perto as pessoas estiverem (mesmo no trato), menos equívocos se criam. E hoje quero conversar contigo de igual para igual - que sei que não somos -, sem grandes artifícios. Podes tirar a gravata, e tira também esse ar pesado, ajeita como quiseres o teu cabelo grisalho. Não queiras estar sempre intocável, descontrai. Podes pôr as mãos nos bolsos durante a conversa, não precisas de estar sempre com esse ar inabalável de quem tudo sabe e nada quer aprender. Hoje, vamos conversar francamente, por favor.
Quero dizer-te que o teu discurso não me comove. As pessoas não têm de comover toda a gente, é certo. Bem sei que não comovo metade das pessoas que gostaria. Bem sei que não consigo que toda a gente me oiça com a vontade e com a atenção que acho que alguns assuntos merecem, e que não tenho super-poderes que façam alguém mudar de ideias só com a força dos meus argumentos. Depende muito dos dias, dos ambientes, dos feitios...mas sobretudo dos humores. E é difícil lidar com humores, muito mais do que com gostos, com opiniões, com ideais. Os humores diferentes do nosso são difíceis de gerir (quanto mais quando temos de os coordenar com os nossos). Por isso, digo-te José: compreendo que muitas vezes sorrias e tentes camuflar a indignação que te vai na alma e os olhares críticos dos outros com essa figura seca e sem brilho, a não ser o da tua pele. Mas olha, ouve-me: as pessoas gostam de gente firme...mas gostam, sobretudo, de gente. Real. Gente que sorri, que chora, que treme a voz quando fica nervosa, que levanta o olhar quando há algo no meio da multidão que lhe chama a atenção. Gente de carne e osso, sabes?
Pois.
Isso. Gente. E depois, as pessoas gostam de gente que sabe. Não falo do saber História, ou Geografia. Ou melhor, não falo só desse Saber. Falo de conheceres Lisboa, mas quereres conhecer Portalegre. Falo de gostares de visitar as grandes refinarias de Sines, como teres curiosidade em conhecer as descobertas de uma equipa de cientistas da Universidade do Minho. Falo de te empenhares em proporcionar a 250 mil alunos do Básico a possibilidade de terem um novo Magalhães, como de estares presente na inauguração de uma plataforma de internet artesanal criada por alunos do secundário de Piódão. Falo de números - pequenos e grandes. Que sendo pequenos e grandes, referem-se a pessoas. Falo também, dos teus números. Que são os teus quereres.
Olha só: “Queremos chegar a 2020 com 40% dos cidadãos entre 30 e 34 anos com diploma, com formação de ensino superior". Pois. Eu também queria muita coisa. Mas sabes? Fez hoje quatro dias - é pouco, bem sei - que uma amiga muito amiga foi para Londres. E não é grave que tenha ido para Londres, que isso é uma aventura, e até é bom ter experiências diferentes. E o inglês bem falado e bem escrito dá sempre jeito. Não, não é esse o problema, José. O problema é que antes de ela ir para Londres - e se ter de despedir da amada Lisboa - ela estava na Alemanha. Antes disso, esteve em Bruxelas. E antes, na Alemanha. E perguntas tu: mas, e então? Então? Então que antes disso tudo, esteve cá, sim. A fundar um jornal. Um gratuito, desses a quem tu - aposto - rejeitas as chamadas quando alguém te liga. Que a propaganda não se faz nos gratuitos. Não é? E sabes quanto é que ela - licenciada, curiosa, bem formada, com tudo feito a tempo e horas - ganhava com isso? Zero, José. Zero. E ela é 5 estrelas. E não está em causa que as pessoas, depois do curso, não trabalhem de borla por uns tempos. Que a gente sabe que os cursos não dão mais do que coordenadas para a prática que se há-de treinar na profissão. No dia-a-dia. Mas José, ela não é a única. E sabes que mais, ela é já uma em muitas e muitos que estudam cá, são os melhores nas respectivas áreas, e além de todas as qualidades têm a coragem - sublinho, a coragem - de procurar noutros países aquilo que o deles - o tão amado país deles - não é capaz de lhes dar: condições para poderem viver nele e contribuirem para que ele cresça à medida que eles vão crescendo também. Vais perdê-los a todos. E qualquer dia não vais reconhecer a pátria. Porque a pátria é a nossa língua. E a nossa língua anda espalhada pelo mundo. Um dia destes, não vai sobrar um para contar a história.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Sept.

Antes de perguntares como acaba, preocupa-te com o início.

terça-feira, agosto 31, 2010

Era um verbo


Começou com um susto. Estremeceu como se lhe roubassem uma coisa preciosa. Depois questionou. Perguntou porquê. Por quê. Para quê. Fez mil insinuações, esperou para ver, atropelou os pensamentos com as palavras. Escreveu uma carta à mão. Dançou salsa em pensamento. Bebeu caipirinhas. Depois apanhou sol, apanhou uma virose, constipou-se, escaldou a pele. Encheu a cabeça de areia. Sacudiu a areia de entre os dedos dos pés. Barrou-se de creme cheiroso e petiscou. Falou mais cara-a-cara do que ao telefone, comprou bilhetes de comboio, foi pendular entre idas e voltas e voltas e idas. Chorou salgado e riu doce. E mergulhou salgado. E passou por água. Doce. E cantou parabéns, decorou letras de músicas, comprou bilhete para concerto. Leu livros, e revistas, e jornais. E também fingiu que leu livros, e revistas e jornais, enquanto observava quem passava, escondida entre as páginas e os óculos de sol. Ficou a ver o mar até anoitecer, e fugiu da nortada. Tomou banho frio. Dormiu mais. Acordou cedo e andou a pé todos os dias. Teve saudades. Sorriu. Agostou. Que - no início - era um verbo. Agosto.

quinta-feira, julho 29, 2010

(dei com isto) aqui ao lado*

Muito falamos nós das festas a que vamos, do que comemos ontem naquele jantar para que fomos convidados ou das caipirinhas que bebemos na noite de Carnaval. Muito vamos nós à missa, muito nos queixamos da vida regrada, sempre igual. Muito praguejamos nós que os anos passam e nos sentimos envelhecer sem que nada façamos para poder evitar a passagem inexorável do tempo. Sem dizer até amanhã ao namorado com quem estamos chateados. Ou sem ligar à avó, que já não vemos há meses, porque saímos demasiado tarde do trabalho. Ou demasiado moídos do ginásio. Ou demasiado ocupados da vida. Dos problemas que vemos em cada esquina. Das dificuldades que se nos atravessam no caminho. Permanentemente. Sem avisar nem dar descanso. Muito nos queixamos nós da vida calma, da chuvinha irritante que nos dificulta as gargalhadas – muito mais fáceis quando o sol quentinho nos aquece a cara por mais que sejam oito da manhã e esteja frio. Pouco agradecemos por estarmos assim. Só com a chuvinha. Só com o frio suportável. Só com uma barriguinha cheia. Só com um trabalho que nos preenche. Só com o que comer. Só com uma conta bancária que nos deixa ir ao cinema. E ao teatro. E jantar com amigos. E almoçar fora de vez em quando. E comprar umas sandálias da colecção de verão (mesmo sem a chuva ainda ter dado descanso). “Só”. Só que aqui ao lado, não. É diferente. Mesmo aqui ao lado. Só isso.
*Na Nossa Agenda

terça-feira, julho 20, 2010

Mexer no passado

Como diz o pugilista, antes dar que receber.

segunda-feira, julho 19, 2010

naquela da amizade

Domingos.

Tantas saudades que eu tenho de ti.

domingo, julho 18, 2010

Do cabo que é verde

Sorri-lhe a medo, que nestas coisas nunca se sabe para o que se vai. Eles são espontâneos e têm pouco medo de ferir susceptibilidades. Retribuiu, como se fosse esperado que eu o chamasse pouco depois para ao pé de mim. Veio rápido, meio saltitante, com umas sandálias que acendiam e apagavam umas luzes nas solas. Contornou as cadeiras à volta da mesa e sentou-se ao meu colo. Ia escorregando vezes sem conta, que os calções de sarja beges não conseguiam parar quietos em cima do meu macacão de tecido escorregadio. E carregava-me nos joelhos, à confiança, a ver se eu o resgatava da queda a tempo de não ir parar ao chão. Falámos dos Gormitis, dos Transformers e do Faísca, o herói do Carros. Contou-me que tinha andado toda a tarde a brincar com a "Carol que é de chocolate". Que o pai não estava a jantar ali com os amigos da mãe. Que estava ainda a trabalhar. Falou-me com o sotaque do Porto e disse-me que o clube era o azul e branco. "Mas quando estriver contigo souê do Benfica, está beie?". Está bem, Rafael. Andámos a brincar com o camião dos micromachines, e com um helicoptero invisível que era não mais do que um papel amachucado. Deu-me um beijo de despedida e acenou-me com a mão pequena.

Castelo de cartas

Custa à brava a construir. E cai num instante. E não é nada catita. É terrível.

Giro nas horas

A verdade é que gosto de ti porque é fácil ser melhor contigo. Porque me fazes querer ser mais, estar mais presente, saber mais coisas, ouvir melhor. Gosto de ti porque é bom reouvir-te. Porque me encanta o lufa-lufa da tua vida. Porque as tuas gargalhadas são tão apetitosas. Porque escreves muito bem. E cheiras muito bem. E porque falar contigo sabe-me a pouco. Porque és teimoso. Perdão, gosto de ti porque és muito teimoso. Gosto de ti porque às vezes adivinhas. Porque és giro nas horas. E porque quando falas de madrugada nem se te nota o sono na voz. E se te parece pouco que goste de ti assim, gosto de ti porque acordas quando ainda o dia é noite. Gosto de ti porque consigo fazer-te rir, e porque me dás conversa. Da boa. Gosto de ti porque me contas os teus segredos. E se os dias passam depressa, contigo ainda mais, que a conversa de telefone não me cura as saudades que tenho de não te ver, nem te sentir, há tempo demais.

quarta-feira, junho 30, 2010

Cá, aqui

So I say run, run, sparkling light,
Have your fun and then come home at night,
I’m sure you’ll tell me something new,
Things you did and thing you do,
Yeah I can see the world through you.

terça-feira, junho 29, 2010

A tua praia

Não sou, sei bem. Não te faço bater o coração mais rápido, nem te tiro a respiração ao passar. Ficas para aí, deitada na toalha, à espera que o sol venha a seguir à última nuvem. Mas de repente a noite volta outra vez, e o dia é mais curto, e estás outra vez sozinha. Pega-me na mão. Pega-me na mão, já disse. Entrelaça-me esses dedos uns nos outros e não te sintas mais sozinha, que estás aqui só para ti. Não desconfies dos que te passam a mão pelo cabelo, te elogiam a escrita, te gabam a voz. Acredita no que te dizem, que tu és especial, tu és única, tu és bestial. Não contraries o coração empedernido que deixaste de sentir. Mesmo que a cabeça feita água queira contrariar-te os dedos que teimam em escrever as mensagens no teclado a que tiraste o som. Ou é, ou não é. Agora, isto de quereres fazer bater o coração com meias massagens cardíacas sem aplicação de choques eléctricos, não. Que o coração de pedra não aguenta palavras meias. Só vai tornar-se mais duro.

E est'agora.

Não há dois, sem três.

segunda-feira, junho 28, 2010

D de despedida

Soletra a letra 'd' de despedida. Sabe que a voz límpida, ganhou-a ao microfone no país dos érres e dos ches. Tem a certeza que é certo o que vai fazer a seguir, mas custa-lhe voltar. Sobretudo pela despedida. Era mais fácil não ir agora outra vez, era mais fácil mandar uma mensagem a agradecer a presença. E não ter que dar mais uns abraços e uns beijos ao Reno. Como se se tratasse de uma amiga qualquer, no aeroporto. Tinha sido mais fácil, decerto, sem os crepes com Nutella e sem o vinho quente. Ou sem a insistência de quem já tinha saído de casa apesar das saudade. "Anda, preenche os papéis. O que é que cá ficas a fazer, hum?". A atitude - camuflada de medo de ir - sempre foi o seu forte. Tem andado de um lado para o outro como ninguém, sem ninguém. Com toda a inveja do mundo, que conhecer e falar e perguntar é uma paixão conjunta. Tinha sido mais difícil sem os crepes de Nutella e sem o vinho quente. O frio tinha sido mais letal e condensado. As saudades mais agudas. Fosse tão mau assim, e não custaria a despedida. Fosse tão doloroso assim - e sabe-se que foi, e nem é isso que está em causa, que quando as saudades apertam ninguém sabe como é que o coração sobrevive ainda - e não estava a preparar-se para partir, já. Que ainda não é desta que volta de vez.

domingo, junho 27, 2010

Fera



Estava chateada, com cara de poucos amigos. Amuada que só. Insuportável. Discuti, praguejei baixinho, sempre a olhar as pessoas nos olhos com ar de quem tem toda a razão do mundo. Refilei por pensarem que sabem tudo da minha vida quando nem eu sei bem. Pensam que sabem tudo. Como eu. E tu, sem saíres do tom, chamaste-me fera. E deste-me uma festa na cabeça.

sexta-feira, junho 18, 2010

"Não é tanto o ser que me preocupa, mas o deixar de estar. É pensar que um dia estou. E que outro dia já não."


O pior que a morte tem é que antes estavas, e agora já não estás. Eu digo de outra maneira, aquilo que um dia a minha avó disse. "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". E...ela não tinha pena de morrer. Ela tinha pena de já não estar, no futuro, para continuar a ver esse mundo que ela achava bonito.

Nas chegadas

Não tinha mais de metro e meio. Uns cinco, talvez seis anos. Estava agitado, não foi preciso muito para perceber que estava nervoso, ansioso. Estava com uma mulher morena e muito magra, com as unhas impecavelmente pintadas e o cabelo impecavelmente esticado, pintado de preto. Chamou-lhe mãe, enquanto apressava a pintura de um papel quadriculado, com letras desenhadas. Olhei por cima do jornal a tentar disfarçar a minha curiosidade de quem espreita sem autorização, só por mera cuscuvilhice. Amo-te muito, pai, lia-se em letras gordas, que pintava apressado antes de ele chegar. E ele chegou mais cedo do que se esperava, camisola com capuz verde e mochila às costas, como quem parece vindo de uma aventura. Abraço apertado que exigiu baixar a cabeça debaixo do corrimão de metal, e um olhar curioso sobre o que se passava ali, enquanto ela pintava depressa o que faltava, com a ajuda dele, que sentia o tempo a passar e tentava disfarçar o papel ali estendido e sob o meu olhar atento, cada vez mais curioso. Cada vez mais evidente. Fechei o jornal, li a contracapa. E eles a colorirem o desenho com lápis de cor. Letras gordas pintadas e folha dobrada, o miúdo entrega ao pai o papel quadriculado com a mensagem de boas-vindas. Ela tira do saco de papel um boneco de gesso pintado - uma miniatura de jogador de futebol - e esconde-o para que ele não o veja até ele lho mostrar. Um trofeu de orgulho por um campeonato infantil ganho. E ele dá-lhe um abraço. A seguir, um diploma da escola de futebol do Benfica. E outro abraço. Finalmente, um pacote de leite simples ainda com a palhinha colada. Outro abraço. É bom tê-los aqui. Pequeno-almoço dividido no aeroporto.

quinta-feira, junho 17, 2010

Ciência

Sentada à beira da piscina naquela tarde de Junho pouco Verão e por entre pensamentos mais ou menos desorganizados e sms que a fizeram rir, ela viu. Amores perfeitos. Num vaso. Mesmo ali, debaixo do nariz dela. À distância de um olhar.

domingo, junho 13, 2010

Ora, est'agora.

Já percebi que estiveste a reler as mensagens que trocámos. Imagino-te, sentada aí num canto, computador nos joelhos, a tentar metodicamente ordenar por datas o que aconteceu. Depois abres outra janela, irritas-te com a lentidão do computador (que a propósito devias mandar formatar porque não sabes como isso se faz) e praguejas sem dizer uma palavra enquanto escolhes uma música qualquer suficientemente deprimente. Rodas e deitas-te na cama que ainda está por fazer e, de barriga para baixo, assentas os cotovelos no colchão. Parece que te estou a ver...
Relês à procura de um indício, de um qualquer pormenor que te faça perceber o que foi, por que foi que naquele dia eu decidi acabar uma coisa que, dizes, nem sequer tinha começado. Sorris com a conversa trocada em meia dúzia de linhas e voltas a reler. essas coisas não se agradecem. repetem-se. Franzes a testa. Há qualquer coisa que te escapa e detestas isso. Porque metodicamente, pelas tuas contas, tudo resultaria depois de um quando quiseres. Mas não és só tu a caixa de surpresas. Ironia do destino, comigo quase nada é o que parece.

sábado, junho 12, 2010

Na noite das cores,

ainda vamos de dia para apanhar a última luz de um sol preguiçoso que mal aparece...desaparece. Vemos as cores das flores de papel dos manjericos misturada com o cheiro das sardinhas assadas que se entranha no cabelo e lá fica...qual segredo difícil de esconder. Andamos pela calçada como em nenhum outro dia do ano, para cima e para baixo, sem perceber bem se subimos ou descemos, nem se estamos ou não acima do castelo. Parece que estamos dentro de um daqueles labirintos difíceis de chegar ao fim, porque nenhum mapa é melhor do que o olfacto e nenhuma mensagem escrita funciona tão bem como um grito no meio de um bailarico. "Olá, tudo bemmmm?". Encontramos gente que nunca mais vimos, gente que nunca cumprimentámos com beijos e abraços. Que nas noites mágicas se transformam em cúmplices de festa. De uma festa de uma cidade que deixa de ser branca para se transformar num cenário de cores e cheiros que só acabam quando, depois de o sol nascer, os mais resistentes encostam a cabeça na almofada. Mais um ano, e tantos Santos para contar.