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quinta-feira, maio 06, 2010

Amor à primeira vista

É difícil explicar o que aconteceu. Foi tudo tão rápido e imperceptível. Sei que nem sabia o teu nome. Apresentaram-te como sendo um todo, não um nome só. Diziam que eras outra coisa, que eras ousado. Destemido. Fresco. Jovem. Completamente diferente dos outros.
Eu acreditei porque os que já te conheciam falavam maravilhas de ti. E eu decidi arriscar. Deixei o ceptismo de lado e, qual aventureira, deixei-me levar como fazem todos os apaixonados. Ainda sem te conhecer pessoalmente, perguntava por ti, preocupava-me contigo. E lembro-me que até sonhei contigo algumas vezes, nas noites antes do derradeiro dia. Conheci-te numa sala cheinha de gente que comentava o teu aspecto baixinho. E depois alto, ao microfone, para toda a gente ouvir. À primeira vista achei-te diferente, sim. Parecias luminoso, apesar de cinzento por dentro. Mas como toda a gente, pensei logo poder-te mudar, como se a mudança não partisse de ti, mas de mim. Mas aos poucos, comecei a dar-te espaço, e a por-me à vontade. E comelámos a conhecer-nos melhor, a conversar mais. Vimos que partilhavamos gostos, interesses... que gostavamos das mesmas cores, que coincidiamos nos lugares. Num instante, comecei a pensar em ti a toda a hora. Falava de ti a toda a gente. E sempre que me aproximava, o coração batia mais depressa e sentia borboletas na barriga quando te via. E toda a gente me perguntava quando é que te conhecia, tal era a excitação. Começaste a parecer-me mais luminoso, mais ousado. Deste-te a conhecer, mostraste-me outra maneira de ver as coisas. E começámos a falar da mesma maneira, a usar as mesmas expressões, a rir das mesmas piadas, como gente que passa muito tempo junta e se conhece como a palma da mão. Sabes? E depois o tempo foi passando rápido, as provas sendo ultrapassadas. Grandes novidades, pequenos segredos, montes de coisas partilhadas. Quando dei por mim estava apaixonada e já não me imaginava sem ti. Passaste a fazer parte do meu dia-a-dia, da minha vida, a condicionar as minhas escolhas. Abdiquei de tempo para estar contigo, estiquei os dias para poder dar-te atenção, desdobrei-me em cuidados quando te senti mais frágil, apoiei-me no teu ombro quando me apeteceu chorar. E não é isso o amor?
É difícil explicar como isto tudo aconteceu. Porque a maior parte das paixões não se explica. Acontece. Num instante. Tão rápida, veloz, inexplicável, imprevisível. Só sei que quando me dei conta, era impossível voltar atrás. Há um ano que preciso de ti todos os dias. Coisa boa, esta.

Olha


Só para avisar que tenho mau feitio, que posso assustar, que me apaixono facilmente, que não sei onde isto vai dar. Nem quando, nem como, nem se vai dar, de todo. Que sou muitas vezes menos do que queria ser, e outras tantas mais do que alguma vez imaginei. E que ainda não te dei o abraço que queria. E isso faz-me sentir a tua falta. Além de tudo o resto que ficou por fazer.

domingo, maio 02, 2010

mã

É desmedido, bem sei. E sempre me ensinaste que tudo o que era demais era mau. Mas gostar de ti de maneira desmedida - sei eu - nunca é demais. Sabes porquê? Porque nunca é suficiente gostarmos de quem nos quer bem. E de todas as vezes que me senti sozinha, tu estavas lá. E de todas as vezes que precisei de um abraço, tu deste-mo. E de palavras bonitas, e de uma palmada, e de uma festa no cabelo, ou de um beijo na testa.
Não és perfeita: já te vi chorar de tristeza, emocionar de alegria, gritar de ódio, sorrir de nervoso, dizer não por capricho, torcer o nariz de desconfiança. Já deixaste de me falar uma vez. Já te abracei quando não conseguiste deixar de fumar, já te fiz massagens nos pés, já te pintei as unhas e já cozinhei para ti. Já nos zangámos algumas vezes, já gritámos uma com a outra, e já chorámos por termos gritado uma com a outra.
Sei a tua voz de cor, e reconheço há anos a maneira como tosses. Tanto que quando passavas no corredor da escola, dizia baixinho que eras tu que estavas a passar. Nunca mentes e isso é bom. Dás o exemplo, elogias os bons feitos e és a primeira a criticar aquilo que fiz mal. E sei que posso contar sempre sempre, sempre contigo, que tenho a certeza que não me vais falhar nunca. Porque se não sei onde vou acabar, sei muito bem de onde vim. E isso ninguém nos tira. Nem a ti, nem a mim.

sábado, abril 10, 2010

Pátria

Trailer Cinema "Pare, Escute, Olhe" from Pare, Escute, Olhe on Vimeo.


Do país que nos acolhe e que somos. Da mentalidade tacanha, da saudade tramada, do pessimismo latente, do medo de arriscar. Do querer mais parecer do que ser. Da vontade de ir ao cinema e ver com olhos meus as histórias que outros viram, contadas em movimento e em melodia. Por mais que elas sejam de outros, são nossas também.

terça-feira, abril 06, 2010

Poesia

segunda-feira, abril 05, 2010

Páscoa

A porta, encostada, nem deixa adivinhar o que tem dentro se já não soubessemos. Vamos visitar-vos, e ela senta-se na beirinha da pedra cinzenta com os vossos nomes escritos, com a letra que ele escolheu. Simples. Passamos as jarras por água, movimento feito de cor sem que nunca ninguém nos tenha ensinado. Aprendemos de ver. A esponja cheia de água, verde, dá de beber á verdura e às flores cor de salmão que pomos na jarra de vidro. Vão ficar ali uns dias. E a primavera que tarda vai fazer o favor de não as secar tão cedo, que bom.
E ela ali sentada bebe das histórias que lhe contavam um e outro, e das que viveu convosco. E passa por água a pedra que ficou meia suja das flores e da confusão do arranjo. E num instante, naqueles filmes mecânicos que a cabeça faz, passam imagens em flash de momentos-chave. Aqueles dias de praia compridos, os aniversários onde nunca faltava ninguém. Os Natais cheios, as buscas pelo Pai Natal, o perú a tostar no forno de lenha da padaria que abria de propósito para lá irmos. A ceira na praça, carregada de legumes, os sapatos no chão do carro, dentro do saco de plástico, que calçavas à pressa e que substituiam os chinelos com que conduzias. E os óculos, pendurados ao pescoço, cheios de farinha caída dos cozinhados. O rosbife acabado de fazer. A sopa de grão-de-bico feita por encomenda. E os pães passados a ferro. Ai os pães passados a ferro. É nestas alturas que mais se sente a vossa falta. Quando entramos em casa e os quartos estão frios porque ninguém veio antes para acender a lareira. Ou quando não chegamos a tempo da cruz porque ninguém ligou a avisar que ela lá vinha. Ou então quando não há pão de manhã, nem beatas na lareira, nem sequer baton nos lábios nem verniz vermelho nas unhas. E já ninguém chama "canina" nem "araújo" quando precisamos de vocês. E cai-me uma lágrima matreira quando me lembro o quanto dava para vos pedir um conselho, para vos roubar um abraço. Para ouvir uma piada tua, avô. Ou para sentir o cheiro da avó outra vez.

quinta-feira, março 25, 2010

Sei lá

Não sei se grite ou se sorria de nervoso. Não sei que faça perante este irritante alvoroço. Não sei que faça agora. Se rio ou se choro. Se guardo para rir mais tarde, se vivo agora para não esperar. Não sei que faça - sinceramente. Se corra rápido ou disfrute lentamente. Que isto de fazer no momento pode ser anseio, pode ser tormenta, pode ser porque sim. Não sei - realmente que faça - de mim, de ti, de nós. Sei que estou baralhada, cansada, gasta. De pensar sempre e tanto. E permanecer. A sós.

segunda-feira, março 22, 2010

sábado, março 20, 2010

Floripa

Havia lá um calor bom, daqueles que aquece a pele só do contacto, mal se sai do avião e o ar condicionado desaparece. Era assim calmo como a infância, de uma calma que se torna hábito tão rapidamente como nos habituamos a qualquer coisa boa e de que sentimos que sempre estivemos à espera. Havia lá muito verde, entre montanhas, florestas, t-shirts e havaianas, com a bandeira do Brasil. Havia obras em Copacabana, e no Leblon, e no caminho para o aeroporto Tom Jobim - e como me encantou o nome do aeroporto - que preparam o país para o que aí vem e para tudo o resto. É um povo virado para o futuro, pessoas preparadas para receber. Contaram-se histórias de produção de ostras na casa-trabalho da dona Gioconda, e do Niemeyer e de uma cidade que ele não construiu. Contou-nos a Helena, que nos recebeu entre doces e chás quentes e frios. Numa pasta, entre capas de plástico, contou-nos a história de um projecto feito e desenhado ao pormenor, e que só o pai dela cumpriu. E disse-nos que a pele pendurada na lareira da pousada dos Chás fora trocada, em tempos, por uma garrafa de chachaça brasileira, numa caçada em que o negócio foi feito entre o tio dela e índios. E depois metemo-nos mais uma vez na carrinha do seu Octávio - nem sei quantas vezes nos metemos naquela carrinha - e seguimos um caminho que parecia que não acabava nunca mais. E foi um amor que senti à primeira vista, uma familiaridade com o desconhecido que nunca imaginei. Foi sentir-me em casa e querer voltar rápido e cedo, que já tenho saudades do "nossa, minina" da Carla Paulista, ou das reflexões com selo "banana reflexiva" do Richard que desenhava tudo quanto via e ouvia. Há histórias que vou resgatar com o tempo. Outras que vão ficar comigo para sempre. Foi bom, tão bom, que tenho mesmo de voltar.

sexta-feira, março 19, 2010

Father's eyes

Toda a gente diz que tenho os olhos iguais aos teus. Pode ser verdade, mas não é só isso que interessa. As pestanas compridas, herdei-as com certeza de ti - não restam dúvidas - assim como o cabelo muito escuro que tanta gente insiste ser preto. E que eu insisto ser exactamente da mesma cor que o teu: um castanho escuríssimo. Gostava de te ter conhecido mais quando era pequena, e quando tinha todo o tempo do mundo para falar-te de mim e dos meus segredos minúsculos a que eu dava a maior das importancias. Mas nessa altura tu estavas pouco, trabalhavas fora e o tempo foi passando. Nunca foi difícil lidares comigo, bem sei, que eu sempre te obedeci. Por isso, talvez mesmo só por isso, seja difícil para ti que eu não esteja sempre, como sempre estive, debaixo da tua asa. Como quando me arranjavas o pão com manteiga que ficava com o cheiro do teu after-shave entranhado e parecia que eu estava a beber perfume. Tens as mãos lindas - nunca te tinha dito, certo?. E sei que também sentiste que o passado tinha sido uma perda de tempo quando, naquela viagem para o Alentejo, falámos de uma vida inteira em duas horas e tal. A nossa relação é intuitiva, é compreensível, é simples e meiga e carinhosa. Gosto muito dos teus beijinhos. E gostava ainda mais que se multiplicassem por infinitos. Só que nem tudo é como nós queremos, paps. Mas sabes, há uma coisa que nunca vai mudar. Os meus olhos vão ser sempre iguaizinhos aos teus.

quarta-feira, março 17, 2010

Início

Falava-te de como era difícil começar. Falava-te não. Falávamos. De como é difícil o início. Porque antes do início, ninguém consegue saber como vai ser, o que vai ser, quando vai acabar, se vai ter fim. É como um texto, como começar a escrever a primeira palavra na folha branca e vazia, da preocupação de a letra sair perfeita, de o texto sair sem enganos, das palavras não ultrapassarem as margens.
A importância - ou não - de escolher a primeira cor a tocar no papel, o primeiro traço do desenho, o primeiro toque da tinta. Parece-nos sempre que o sucesso de um texto depende do arranque. E que da precisão de um desenho depende a primeira impressão com o papel. Como se o fim fosse decidido pelo início (como se o Benfica só desse goleadas aos adversários quando marca três ou quatro golos nos primeiros minutos). Hoje, é-nos difícil sentir esta tensão do início. Porque é muito fácil apagar e voltar a arrancar com um texto. É simples corrigir um desenho num qualquer programa de computador. Hoje, quase nada de decide a partir do início. De quase nada depende o arranque. Mas nunca as casas resistirão a um tremor de terra se os alicerces não forem suficientemente fortes. Isso nunca.

quarta-feira, março 10, 2010

É que nem coração de mãe: cabe todo o mundo.

B5/Dona Lena

Uma vez meu filho me perguntou: mãe, que pousada é a nossa? Eu pensei um pouco, vendo o que poderia dizer, e falei para ele: Filho, a gente tem uma pousada do carinho.

B4/Rómulo

Gastronomia é moda que nem roupa. Eles vêm aí, pedem um pastel de camarão, tomam um chôpe, conversam, ficam até de madrugada. Temos o recorde de venda de chôpe por metro quadrado. Actores, cantores, políticos. Aí vai, aí vêm. Temos o bar mais democrático daqui. Porque aqui vem todo o mundo. Rico e pobre. Político, médico, músico e varredor de rua.

sábado, março 06, 2010

B3/Dona Gioconda

Gosto de coisas vivas, de trabalhar com seres vivos. Por isso as ostras. Daí ter vindo. Os meus filhos continuam lá. E eu aqui. Sempre que tem algum problema, minha filha sempre liga e me diz, 'mãe isto, mãe aquilo'. Meus filhos sempre pensam que a mãe resolve qualquer coisa.

B2/Seu António

Hoje vim para matar a saudade. A minha vida é todo um romance. Ai, o vinho Teobar. Deu uma saudade agora. Pois é. Volto lá de dois em dois anos. Fui em 2005, voltei em 2007. No ano passado não. Tenho um filho com dois anos. De uma segunda mulher. A 'minha patroa', como se diz às vezes, morreu-me em 2003. Faço 40 pastéis de Belém, e ando aí a distribuí-los. É muito trabalhoso, mas sempre distrái a saudade. Deu agora a saudade. Ai que saudade de Portugal. Um dia eu volto. Gostava de voltar.

B1/Seu Roland

Fui registado Rolando mas não acredito que o meu pai alguma vez no registo tenha dado esse nome para mim. Sou Roland. Sou filho de pais brasileiros, nunca falei senão alemão. Falo português por necessidade. Os alemães são chatos. São frios. Tenho a língua alemã no coração de um brasileiro. O quente e frio. E quando era pequeno andava sempre descalço. Todos andávamos. Quando havia algum assunto tabú, sobre o qual os adultos não pudessem falar, diziam: aqui não, tem demasiada gente descalça.

terça-feira, março 02, 2010

Ano um

i num instante, tudo mudou. Ocupei-me das palavras a tempo inteiro. Passei a depender da actualidade sem pensar no ontem e de olhos postos no amanhã. Acelerei o passo, deixei de ter tempo livre. Realizei-me. Hoje é o ano um.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Petite

Nortada e nós deitados na toalha de praia com franjas nas pontas e manchada do tempo. Entre as memórias das barracas de pano às riscas, montadas no areal enorme e dividido em parcelas pelo paredão de pedras. E identificado por zonas pelos cafés. O Visual, renovado todos os anos com cores e balcões e mesas e cadeiras, tudo novo. Havia o Bronze onde reunimos o grupo de amigos durante a tarde. Há o Contiqui, o Prefácio, o Posto 5 e outros que não têm nome.
Havia o banho-maria dos crepes de maçã com amêndoas. E nós descalços, sentados no passeio baixinho de betão, a sacudirmos a areia dos pés. Voltávamos muitas vezes a casa dois a dois, montados nas bicicletas dos primos. Aos ziguezagues, lá tentávamos não falhar os buracos da estrada. Íamos, com toda a pompa e circunstância reduzindo o ar dos pneus, tentando furar aqui e ali a borracha negra, gastando a pouco e pouco o que restava das rodas envelhecidas ao longo dos anos. E às vezes, ficavamos um ou dois para trás, numa última tentativa de mergulhar na água salgada e gelada do mar da Costa Nova, sem sabermos bem de que terra éramos quando parecia que se nos gelava o cérebro.
Sempre foi fácil perceber porque eras sempre a última a chegar e a última a partir. Preparavas a ceira, levavas ameixas lavadas e frescas, e pão de bico com ovos mexidos e salsichas cortadas às rodelas. Às vezes não arriscávamos deitar os caroços das rainha-cláudia na areia: já sabíamos que ias apoiar-nos e isso era mau. E quando te pedíamos para nos ajudares a construir um barco na areia, lá enchias tu as unhas com o verniz vermelho descascado de areia e punhas mãos à obra, que a embarcação não podia esperar. Nenhuma brincadeira espera pelo tempo certo. Ela aparece. E sempre soubeste isso.
E tomávamos banho de mangueira, água gelada, que arrepiava ao ar fresco da nortada. Tantas vezes passámos pelo corredor de casa ainda a espalhar os grãozinhos. Tu olhavas por cima das lentes rectangulares, e fingias que não vias. Acenavas com a cabeça a dizer que não - como se fosse algo de extraordinário tentar perceber as atitudes de miúdos com menos de dez anos. E andavas depois, cigarro nos lábios (e com a cinza a pingar, a parecer água), óculos pendurados ao pescoço, a varrer o areal que deixávamos nos cantos da casa de madeira, difícil de tirar. Paciente, nunca pediste que apressassemos as arrumações, nem as mudanças, nem nada. Sempre elogiaste aquilo que fazíamos bem e nunca deixaste de criticar aquilo em que éramos maus. Conseguiste sempre ver o bom, o bem, o certo. Distinguiste o azedo do doce, como se disso se tratasse a vida. E é bom recordar assim os dias compridos do verão que jamais será o mesmo.

domingo, fevereiro 14, 2010

Valentine's

Frio. Não, nem penses nisso. Isso nunca. Tens de esforçar-te mais do que isso. Não foi imediato, mas foi quase. Arrebatador, como o descrevem. Acabaste de ir e já te sinto a falta. é difícil estar aqui. Sustenho a respiração, não consigo evitar. É mais forte, mais rápido, mais imediato. Soube ser de outra maneira, sim. Admito. Mas agora não consigo. E não peço desculpa. Tem de ser assim. Inevitável. O amor pega em ti, deixa-te sem fôlego, aperta-te o estômago, não te deixa pensar, nem fugir dele. Quem me dera. Arrebatador.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Adelino

Não sei se já te tinha dito que ele se chamava Adelino. Tinha? Pois. Era. Chamava-se Adelino. Era baixo, careca e tinha uns óculos redondos, de massa preta e lentes semi-garrafais que lhe ocupavam metade da cara. Verdade, podes acreditar. E sabes que mais? Ficavam-lhe bem. Digo semi-garrafais porque lhe conseguia ver bem os olhos, apesar da graduação. Punha aveia na sopa, sabias? E vinagre. Adorava vinagre. E dava-nos mel às colheradas, e no pão. Era isso, pois. Mel no pão. E tangerinas, no quintal, mesmo às vezes no inverno, quando as gotas do orvalho da manhã ainda pingavam nos ramos estreitos. E lembro-me de quando as magnólias branca e cor-de-rosa floriam em Janeiro. Parecia que tombavam para a estrada com tantas flores. Mas das magnólias falo depois, que isso dá para outro tanto. As flores reflectidas nas lentes. Mas sim. Falava-te dele. Baixo, pequeno. Sempre de fato cinzento. E de camisa branca. Era um homem grande, ele. Sempre amigo dos amigos. E de quem não conhecia de todo. Sempre com vontade de ajudar, de fazer, de dar. Nunca foi rico por isso, justificam alguns. Que pelo andar no negócio seria, se não tivesse fiado tanto. E nunca ficou a dever nada a ninguém. Mas falava-te dele, era. Acho que nunca te tinha dito que se chamava Adelino. Nem naquele dia em que me contaste, a medo, que tinhas um assim. Foi, não foi? Disseste-me: vou contar-te uma coisa, mas promete-me que não te zangas. E eu sorri, já a adivinhar-te o brilho nos olhos. Como se me fosse estranho que me contasses os teus segredos. Pois era. Era Adelino. Estranho, nunca ter-te contado. Não achas? Mas o que se me estranha mais em toda esta história nem é isso. Não é nunca ter-te falado de como sorvia a sopa com aquele barulho. Nem da maneira como descascava os gomos de tangerina. Nem do modo como arrastava os pés. Nem do aroma doce do perfume que ele mesmo fazia lá em casa. Aquilo que mais me intriga nisto tudo é saber que não te contei que sempre tive dúvidas de como é que um coração tão grande pode caber num homem tão pequeno como ele. E nele, surpreendentemente, cabia mesmo.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Do S. Valentim antecipado


Põe-te na montra da minha memória e não entre os peluches de ursos e corações que dizem 'amo-te' - em letras gordas - na barriga.
Desfila todos os dias no meu quotidiano. Não penses em vir dia sim, dia não, como se pudesses abdicar de viver.
Abre a porta do meu mundo e ensina-mo. Quero vê-lo pela tua perspectiva, ouvi-lo contar com a tua voz, e saber-te espectador participante.
Quero que saibas que podes vir todos os dias. Que não precisas de pedir licença para entrar.
O S. Valentim vem e vai, todos os anos. E eu quero que tu estejas comigo todos os dias.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Paris

Estava fria. Chuvosa. Nostálgica. Preferia ter-me lembrado num dia de sol. Ou numa esplanada aquecida, com um capuccino na mão. Ou debaixo de um calor abrasador. Ou então, não me ter lembrado, de todo. Não fazes falta agora. O que passou, passou.
E Paris continua linda.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Ao sétimo dia.

O que eu dava para estar lá, para ir para lá. Para assistir, para reportar, para ver e contar as histórias. Para as poder escrever duramente. Para perceber o que é assistir à perda sem nada poder fazer. Para doer no coração a falta de água, para dar valor ao que tenho, ao que tive, ao que não tive, ao que ainda hei-de ter. O que eu dava para poder ir sem pestanejar. Para ajudar. 75 mil mortos oficiais. Desaparecidos. Caras que nunca mais se verão. Nunca mais serão beijadas. Corpos que nunca mais serão abraçados. Conversas perturbadas pelo espirro arrebatador de uma terra a que chamavam casa. E agora, ao sétimo dia, nada mudou. As caras são as mesmas. As dúvidas as mesmas. Só os números mudam. Acumulam. Morte. Morte.
Há uma semana o meu pensamento estava aqui. O que eu dava para o escrever. E o que eu dava para nunca ter podido escrevê-lo.

Do dia seguinte

Olhei-me ao espelho ainda não era de dia, e os olhos, encovados, quase desapareciam na cara. Olhei-me mais uma vez, e nem uma alteração, uma pequena diferença, um sinal que me desse a ideia de quem era aquela ali defronte de mim. Face àquela cara, corri contra os atrasos pouco habituais e comi devagar, com a calma de quem levantou o rabo da cama um pouco mais cedo para despertar com calma. E que adiou depois o despertador, de maneira a estoirar os minutos que sobravam naquele vale dos lençóis quentinho que tanto ajuda nos pensamentos. Expliquei-me num ápice o que tinha de ser hoje. No dia seguinte ao dia que se seguiu à véspera. Mas o sentido prático das coisas sobrepôs-se à confusão de dias. Deixei-me apressar pelos ponteiros velozes do relógio e sentei-me. Acomodei-me aquel aconchego quente. Esperei pelas torradas. Nada de novo. Valeu-me a vontade para contrariar o peso dos olhos. Os olhos pesaram no dia seguinte, como se tivesse dormido muitas horas. Ao contrário. Não dormi. À insónia juntou-se naquela manhã um dia que acabou a dançar. Tal como eu pedi.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Do dia

Vou acordar cedo como gosto e vou correr para não me atrasar. Como sempre. Com sorte, vou conduzir sem ter de parar nos semáforos, que o caminho faz-se a caminhar. Quero que não chova hoje - que eu não gosto nada de chuva - sobretudo em dias especiais. E hoje é um dia assim. Pego em mim e corro depressa, como sempre, numa vida que é quase uma acelera que não falha a marcha, mesmo que às vezes se meta por becos sem saída. E quero que o dia seja assim perfeito, que não quero aborrecer-me com coisas sem importância. Quero escrever. Escrever muito. Cansar-me de escrever, descansar de escrever, e redescobrir-me a escrever. Quero olhar para as coisas e sentir-me dentro delas, num aquário do qual me alimento e do qual depende a minha sobrevivência. E depois quero ler as palavras e sentir-me ali, rever-me nos substantivos, nos verbos. Nos sujeitos e nos predicados. Quero deixar a minha marca nos dias que vivo, nas vidas que passam por mim. E deixar-me aí, nesses lugares, é deixar as história dos outros em mim fazer história nos recantos que percorro, tantas vezes apenas em imaginação. Que eu sou louca por viagens. E sinto que o mundo é um sítio que merece ser descoberto e descrito letra a letra. Que é como quem diz, lugar a lugar. E entre as letras, vou receber palavras engraçadas, abraços apertados. E vou ter saudades dos que não me ocupam os dias fisicamente, ou dos outros ainda que as horas teimaram afastar. Quero - depois de tudo isto - merecer dançar. Muito. Rodopiar em cima do meu corpo. E esperar activamente que esta coisa do aniversário me passe. Que isto de ser um dia especial meio camuflado no meio de um dia normal, deixa-me algumas dúvidas.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Do dia de véspera

Falava-te eu das minhas coisas. De como sou perfeccionista, e mal-humorada (às vezes) e antipática à primeira vista. Falava-te de como tive a sorte da tolerância dos que me rodeiam. A sorte de me cruzar com as pessoas certas. A graça de me rir dos meus disparates. De como penso em coisas tão diferentes enquanto conduzo, da rapidez com que entretanto olho para o relógio no tabeliê e mudo instantaneamente a estação de rádio porque me apercebo que é hora das notícias. Ou então da maneira como grito alto pela música que aumento para o máximo na rádio. E sorrio enquanto bamboleio os ombros de um lado para o outro, como se estivesse metida numa pista só minha. Falei-te das coisas tal qual são. E do que nem sempre é o que parece. De como sou tão casmurra e da maneira como num instante peço perdão e corro a emendar erros que detecte. Por mais pequenos que sejam. Porque são meus. Sou sempre tão pragmática que invejo às vezes dos desaustinados, sempre tão despreocupados e tão sem peso nos ombros. Mas decerto não os invejo mais do que invejo os pássaros e a visão que não falha, que podem ter vistas panorâmicas a qualquer momento. Por mim andava sempre a sobrevoar Lisboa que adoro, cidade poema. Apaixonante. E sou imperfeita, bem sei. E gosto. É avassaladora a maneira como o meu coração acelera o "passo" quando falo dela. Só nunca posso comparar esse batimento ao que sinto quando penso em ti, pequena Mi. Que fazes parte de mim. És a minha cabeça, o meu corpo, o meu coração. E se algum dia me faltas, faltar-me-ei eu também, tal como as letras que teimo em escrever todos os dias naquela sala enorme e iluminada que me colora os dias. E onde eu pinto as linhas de realidade. E observo com cuidado as imagens que não sei captar. E analiso com olhos de cirurgiã os espaços vagos naquela folha de agenda demasiado cheia e às vezes tão vazia. Sinto-me como se a vida ainda estivesse toda por viver. E é essa a esperança que me preenche hoje. Na última noite destes 24 anos. Passei-a a escrever, como gosto. E a pensar baixinho para não acordar ninguém. Que gosto pouco de dar nas vistas por estas coisas pequenas. Mas só me calo - que já sabes - sou tagarela que dói - se me prometeres que, como prenda para os 25, me dás uma hora a mais em cada dia. É justo, vá lá. Foram 24 anos da minha vida a (sobre)viver com dias de apenas 24 horas. Dava-me um jeitaço.

terça-feira, janeiro 12, 2010

hey babe, take a walk on the wild side. let's take a walk on the wild side.

Don't be shy. come with me. let's take a walk.

80 tentativa #3

Queria ter-te escrito estas linhas a tempo de tas poder ler alto na festa daquela noite de dia 8, mas escapou-se-me o tempo, e a imaginação. E sobretudo, apoderou-se de mim o medo de não estar à altura de palavras tão especiais, que pudessem descrever-te bem. Por isso escrevo atrasada. Por isso pensei estas letras - insuficiente mas duramente. Por isso vou ter cuidado com os caracteres, começar de mansinho, e de uma maneira que me distinga de ti. O atraso. É esse que nos distingue hoje. Nunca te atrasarias - ao longo dos teus 80 anos - para entregares uma prenda de anos, muito menos se essa prenda dependesse unicamente de ti. A gestão do teu tempo é perfeita, sobra sempre para mais uma viagem, para outro telefonema, para perguntares se está tudo bem? se já jantaram? ou se já chegaram?.

Escrevo-te todos os dias um pouco aqui, quando não te escreves tu em mim. Sei que herdei de ti tanto do que sou e aprendi outro tanto de ti também. Que, de tudo o que sou e de todo o resto que julgo ser, nem sei o que de ti veio e o que vinha comigo de origem.

Queria primeiro agradecer-te tudo aquilo que nos dás, todos os dias. Vai ser sempre bom lembrar-me de ti, porque de ti não ficam senão as palavras doces e preocupadas, os telefonemas em contínuo, e as surpresas. Escreves em poesia, falas em prosa, sentes tudo de uma maneira especial. E consegues demonstrar todos os dias que, por mais que a vida teime em mostrar o quanto pode ser azeda e madrasta, há sempre o açucar que pode encarregar-se de adoçar os dias mais amargos. Mexe os cozinhados com empenho e amor, como sempre tens feito. Aposto que guardaremos sempre connosco o teu dedo para a culinária, mesmo que mais 80 anos passem.

80 tentativa #2

Todas as palavras do mundo não chegariam - ou talvez uma apenas chegasse - para descrever o impacto que tens nas nossas vidas.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

80 tentativa #1

Não consegui (ainda) escrever-te aqui.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Electrodomésticos

Conheci-te debaixo de uma nuvem carregada de chuva, num dia sombrio de céu cinzento e de muito vento. Tinhas vestido um anorak branco que era um prolongamento da tua pele pálida e sem graça, que eu teimo em não apagar da memória. Como se fosses assim tão especial. Como se as tuas piadas me fizessem rir, apesar de não falarmos há tanto tempo e de já nem recordar o teu nome. A memória passa-me assim estas rasteiras, enquanto folheio as frases que escrevi só para que lesses aquilo que me passava pela cabeça e que nunca conseguiste decifrar-me nos olhos, apesar de teres lido todos os livros de instruções. Nunca percebeste que teres-me a olhar para ti não significava que eu fosse tua. E a receita para me entenderes era abrires o coração.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Deste ano. E do próximo

Foi um ano bom, este que hoje acaba. E se a vontade é prolongar aquilo que foi acontecendo, é fácil perceber que o tempo, por mais que se tente, nunca volta para trás. Importa perceber que, mais do que em todos os anos que já passaram, este foi o ano em que me apercebi da real importância do tempo. Daquilo que posso fazer com ele. E daquilo que ele pode fazer comigo. Connosco. Importa sublinhar as coisas boas, esperá-las eternas na memória. E guardar as menos boas, como post-its colados na mesa do hall da entrada, onde obrigatoriamente passo todos os dias. Mais do que um dia de balanço, este último dia de 2009 é altura de avaliar o ano como um dos melhores. Foi um ano de saudades, um ano de projectos, de sonhos e de concretizações. Ano de crescer, como todos os outros que passaram. E todos os que ainda hão-de vir.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Primeiras impressões

Gosto do frio quente. Da rua 'cold' numa cidade 'warm'. Das luzes de Natal de uma festa que se prolonga. E das cabines vermelhas. E dos autocarros vermelhos. E dos semáforos. Da luz. Até do anoitecer precoce. Podia ser feliz aqui.

domingo, dezembro 20, 2009

A terra tremeu

E eu não senti. E não sinto as mãos, geladas. E o coração, sinto-o frio também, que o Inverno nem sempre traz lareiras quentes nem colos com termostatos. Aqueço de vez em quando, com sorrisos à distância. Aqueço com as luzes de Natal na Lisboa fria das pessoas e dos afectos. Na Lisboa às vezes autómata e outras romântica. Dos amores e desamores. Aqueço no aeroporto graças ao sol de inverno que decidiu espreitar. Ou de uma mensagem simpática no telemóvel que me acorda ainda é de noite. Aqueço dos planos e das conversas, e do chá de frutos vermelhos às sete da manhã. E aqueço também - e, por fim - quando chego a casa e ligo o aquecedor. Que é quem me aquece melhor nas frias noites de dias cheios e tão vazios de sol.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

09.12.2009

Há um ano, um atestado fez sentido para mim. Num instante.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

terça-feira, dezembro 01, 2009

Do jantar

Não há fila de espera a esta hora, que já é tarde para jantar. Encosta um braço ao balcão, espreita as sopas que há. Pede a de bróculos com parmesão. Só. São dois euros, obrigada. Pega no tabuleiro sem dificuldade, e o multibanco numa das mãos. Não anda mais de dois passos, afasta o banco e pousa o tabuleiro de madeira clara na mesa. Ajeita o casaco, senta-se e arruma o cartão no porta-moedas, não vá perdê-lo. Volta a levantar-se, pede-me para ler o jornal que está no topo da mesa, enquanto eu faço a chamada de fim de dia para o meu amor que está longe. E num instante, a sopa verde e light não lhe dura mais do que lhe toma a reportagem da 27.ª vítima de violência doméstica do ano. Consigo lembrar ao pormenor as palavras que li esta manhã enquanto tomava o café na pastelaria perto do trabalho. Acena que não com a cabeça, esfrega o olho esquerdo, ajeita o guardanapo branco no colo de ganga. E parece que entre ela e aquela página dupla, impressa durante a noite, não há senão o abismo de 24 horas. E uma realidade que partilha por lhe ser contada uma verdade que não era sua, mas passa a ser pelos olhos de outro que, com as palavras, trata de contar as histórias que os outros não puderam ver.

segunda-feira, novembro 30, 2009

num fôlego

é rápido como as coisas se sucedem os dias passam e passam rápido demais também as horas que nem tenho tempo de pensar como deve ser em ti apressam-se-me os dias os minutos custam a tardar e eu que às vezes me esqueço que não estive hoje contigo e tivesse eu mais tempo para te abraçar seria tudo mais quente e mais saboroso e tão melhor aproveito este fôlego para dizer que tenho saudades e quero abraçar-te já que a vontade com tanto tempo ocupado vai comendo por dentro aquilo que eu sinto quando penso em ti e tenho medo de um dia acordar e pensar que já não te tenho mais aqui por isso vou correr agora não chegue eu atrasada e fique sozinha à tua espera por não ter chegado a tempo de te sentir ainda aqui

terça-feira, novembro 24, 2009

sábado, novembro 21, 2009

Free Fall

Saímos cedo, ontem. Não quisemos perder a luz da manhã, que nada se lhe compara. E de repente já lá estávamos, no meio do jardim. As distâncias ali percorrem-se rápido, nem há o trânsito de Lisboa, que não conhecia. Nem sequer a peocupação de chegar depressa. E só isso, tira-nos a pressa e a ansiedade da chegada. Só queremos chegar.
Chamaste a atenção para as cores das folhas, mas eu já tinha reparado. Há nesta altura uma diferença ínfima. Parece que têm calor, as cores aquecem mesmo que a manhã esteja fria. E enquanto me ajeitas o cachecol ao pescoço, para não apanhar frio, dou comigo a abraçar-te e a pensar o quanto gosto de ti. Ontem, falámos de tantas coisas que já nem me lembro de todas. Falámos da escola em que já não ando, dos testes, dos manos, e falámos também das férias do próximo verão. E das cores que a Primavera trará entretantoo. E do Natal que se aproxima. Falámos de como gostas de ver passar as pessoas à janela de madrugada. E de como gostas de o fazer a fumar o primeiro cigarro do dia, mesmo antes de comeres. E do guardanapo - o único de tecido na mesa. Ontem falámos de ti e do teu trabalho - como nunca falámos. Decidi fazer-te todas as perguntas de que me lembrei e que nunca te tinha feito. Apanhámos as folhas do chão, construímos uma paleta de cores sem precedentes e admirámos os cogumelos perto do musgo, que se alimentam das primeiras chuvas. Pedalámos nas gaivotas no rio, baixámos a cabeça a passar por debaixo da ponte pequenina, pusemos uma moeda em duas bicicletas e fizemos uma corrida que fez estalar as folhas nos caminhos. E depois, ainda conseguimos cumprir com distinção o percurso de manutenção, com os exercícios já meio-apagados das placas das estações. Num instante, sem mais nem menos, ontem abraçaste-me. E eu senti que estavas ali ontem, como se o ontem fosse simplesmente ontem. E não apenas passado.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Abraça-me

terça-feira, novembro 03, 2009

Crónicas do reino de Marraquexe #2

Há despertador marcado para não nos atrasarmos para o pequeno-almoço. O dia de ontem foi longo e as pernas doem do cansaço. Mas nem esperamos pelo pipipi irritante para acordar. Há carros, carrinhas, autocarros, motas, bicicletas, burros, cavalos, carroças e charretes. Tudo à mistura numa rotunda que parece minúscula para esta enorme confusão. E acordamos com um taxista irritado que não quer esperar pelo semáforo verde para avançar e barafusta com os peões que tentam à pressão passar na passadeira com o sinal verde. Porque ali perde-se tempo de mais com o que se pára. Como se o tempo passasse depressa ali. Como se os dias se sucedessem sem uma palavra de amigos, sem uma imperial ao fim do dia. Sem um jantar-fora semanal. Há gente diferente todos os dias. Passaportes que entram e saem sem avisar. E gente que fala todas as línguas, como aqueles que conduzem, e aqueles que vendem carteiras e écharpes. E ainda aqueles com quem falamos nos restaurantes, e na praça, e à porta da Mesquita. E gente de todo o lado aqui, e é tudo tão diferente. E olhamos pela janela da sala do pequeno-almoço e pasmamos com o caos. Na pequena rotunda, tudo parece aleatório. Há carros e motas e carrinhas e autocarros e bicicletas e camiões e pessoas. Tudo à mistura. Sem regras, sem normas, sem caminhos instituídos. Sabem que podem entrar e que podem sair, independentemente dos outros. De repente, trememos. Uma bicicleta entra em contra-mão. Uns apitam, outros gritam, outros nem reparam. O caos estava instalado, por isso não volta a instalar-se. Só nós, na nossa pseudo-rotina semi-organizada, cheia de regras-e-normas-e-leis-e-hábitos estranhamos. Ali, é só normal. E nós (a)percebemo(-no)s (d)isso.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Crónicas do reino de Marraquexe #1

Chegas de mansinho e nem fazes barulho. Dou por ti já aqui bem perto da minha cara, quando sinto as tuas pestanas a tocarem-me a pele e depois os teus lábios encostados aos meus. Mas és suave nos movimentos, e é difícil sentir-te a pele senão na cara - se bem que pouco me importo, gosto da tua pele macia e clara, da tua tez branca, das tuas perfeitas imperfeições. Os olhos bem pretos fecham-se quando me tocam, mas sinto-lhes a profundidade de sempre. De quando me olhaste pela primeira vez na praça enfumarada da mesquita. De ti, foi pelos olhos que me apaixonei. De ti, na verdade, via-te apenas os olhos. O cabelo muito escuro estava tapado, como está hoje, com um lenço de cor pastel que esbatia o tom da tua pele muito clara. Pestanas muito longas, lembro-me que me tocaram o coração pelo enquandramento e pelo secretismo que os teus olhos me transmitiram. E sempre que entras aqui, seja noite ou seja dia, vens de surpresa. Sempre de mansinho, não fazes barulho. Ajudam-te os pés que descalças à entrada, a leveza do teu andar, e a medida certa da tua túnica comprida. O tecido pesado e quente. Denunciam-te as pestanas longas. O beijo profundo. E o teu cheiro, que detecto logo, mas que gosto de apreciar e aprecio saborear enquanto te aproximas, pé ante pé. E eu disfarço que não dou por ti, já o meu coração lateja numa dança louca, e os meus braços quase não conseguem controlar a vontade de te abraçar.

quinta-feira, outubro 08, 2009

quarta-feira, setembro 30, 2009

segunda-feira, setembro 28, 2009

A tua é a minha


É mais do que um momento. Mais do que um instante prolongado pela eternidade. É mais do que uma coisa sem sentido, como se todo o universo conspirasse a nosso favor. É muito mais do que sorrir sozinha, tímida, envergonhada. É rir alto para partilhar a alegria, chamar a atenção pelas melhores razões. É intimidar os outros, num primeiro momento, por ficarem assustados com a estridência do gargalhar. E depois levar-lhes à boca um sorriso que num instante se transfigura numa gargalhada presente. E partilhada.
Apetece mais.

Da evidência

Esqueço-me que os teus dias passam sem pensares no que farás amanhã. Como se o futuro fosse uma coisa tão longínqua, como se o amanhã fosse o tempo que nunca chega, a meta que não se pode cortar, a vida doutros que não posso viver. Impressiona-me que penses que a única coisa que importa é hoje, que me digas que o ontem já era e que o amanhã nunca chegará. E já agora, perturba-me que insistas em dizer-me que o mundo não chega para todo o amor que sentes por mim. Porque tu não és mais do que a evidência de que há coisas que nunca chegam às nossas mãos, porque nunca quiseram ser nossas. E isso diz tudo. Nem precisa de mais palavras. Evidentemente.

segunda-feira, setembro 21, 2009

quinta-feira, setembro 17, 2009

Chegar

Já era noite quando pôs a chave na ignição e a rodou. O motor ligou-se de imediato, apesar da temperatura baixar de dia para dia. Todos os dias. Estava a chegar o outono, pensava. Como o tempo passa. Naquele dia não apetecia ir directo para casa. Apetecia-lhe fugir do hábito. Não queria sentar-se frente à televisão, descalçar-se, o zapping do costume. Carteira ao colo, dar uma volta aos papéis, passá-los para a lista de contactos, separar os recibos da gasolina dos das refeições. Passar pelas brasas e acordar sobressaltado, meia hora depois, pensando na estupidez de não ter ligado o despertador. Levantar-se de rompante, como se o tempo lhe tivesse atacado a alma, encher a taça de sopa e pô-la a aquecer no microondas. Ali, sentado no banco do carro, não lhe apetecia pensar no que fazer para o almoço de amanhã. Não tinha vontade de cafés corriqueiros, nem de matar saudades dos amigos que deixara de ver por falta de tempo. Faltava-lhe mais do que tempo para os outros. Aumentou o volume do rádio. Estava sem vontade de ouvir notícias. O acidente de Penafiel. A reeleição na comissão europeia. A chuva prevista pelo instituto de meteorologia. Sussurrou uma coisa que nem percebeu bem o que era. Apetecia-lhe fugir daquele corpo, ser outra coisa, ter tempo para observar quem era. De fora. E depois, de um momento para o outro arrancou. Marcha atrás rápida. Decidida. Como se todos aqueles momentos fossem vãos face à vontade de conhecer-se. Acelerou a fundo. O fumo negro no tubo de escape gasto. E a cabeça inclinada para trás. Sem a contrapressão do pescoço. Mão no volante, mão nas mudanças, mão no cabelo, mão na mão. Sorriu ao espelho retrovisor e parou na entrada da rotunda, à espera de prioridade. As luzes reflectiam os faróis a passar, um atrás do outro. Sem pressas, arrancou. Pedal moderado. Pedal a fundo. Fundo pedalar. Seguiu, pelo caminho, sem olhar a combustível, a tempo, a horas, a espaço, a pensamentos. Esvaziou a cabeça, esqueceu a realidade. Passeou pela cidade, num instante que só deu para perceber que tinha saudades suas. Matou-as de um trago. Não fosse o tempo acabar.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Sobre o regresso

Olho para ele de baixo. Ele do alto dos seus 40 e tais, e do alto dos meus dez. Separam-nos centímentros, mas não são essas as diferenças que mais me preocupam hoje. Deixa-me nervosa o à vontade com que fala aos olhos atentos e expectantes. Fascina-me a fluência das palavras, a cadência da voz, e a simplicidade das frases. Límpidas como as dos livros infantis que já leio sem dificuldades, com as letras bem gordas e sem piadas que exijam grandes raciocínios. Embora conheça os cantos à casa, parece-me hoje que não sou de cá. Há uns meses, esta parte era-me interdita. Não podia passar da porta de metal com vidros pequenos. Agora, de repente, mudou o hábito, sem sequer me dar conta. E elas dizem que o tempo passou rápido, lembram-se da fotografia do primeiro dos primeiros dias. Pouso a cabeça na mão, pesa-me a pressão do cotovelo em cima da mesa. De soslaio, lá as vejo, sempre atentas a mim. E no espaço entre este pensamento e o sorriso seguinte, houve regras de conduta a respeitar, planos de contingência, regras de funcionamento. E este bocadinho passou rápido. Vou num instante arrumar a mochila e dormir.

terça-feira, setembro 08, 2009

Inverso

Estou farta de falar de mim quando nos encontramos virtualmente. Perguntam-se as novidades e nunca há nada a dizer. Ou há pouca coisa, que nunca ficamos muito tempo sem conversar. E quando há novidades és a primeira pessoa a saber que isto ou aquilo aconteceu, por isso nem sei porque perguntas como estão as coisas ou como ando. Sabes tão bem como eu a maneira como me afectam estas perguntas que não esperam uma resposta esperada. Antes uma resposta que queres ouvir. Estou farta de ter de confirmar que estás bem, como se de mim dependessem as tuas acções. Pões-me nos ombros as escolhas que fazes depois de muito pensar, e cansa pensar que só ages depois de saberes que não vou levar a mal. Mas sabes que assim, até as surpresas deixam de fazer sentido. Prefiro que deixes as preocupações de lado. Sugiro que guardes os vacilos para quando eu estiver longe de ti. Será mais fácil explicar-te à distância, as razões do meu afastamento e a velocidade avassaladora com que me desencantei em relação a ti. E agora, faz-me um favor e fala um bocado de ti, que estou farta da minha assertividade. E deste sorriso estúpido nos lábios.

quarta-feira, agosto 26, 2009

(Re)publicação #2*

Não vou a tua casa todos os dias, é certo. E mesmo que não vá tantas como gostaria, sempre que lá entro o teu cheiro está no ar. Na mesa da entrada há uma fotografia tua. Sorridente sem ser exagerado. Distinto e subtil como só tu sabes ser. E confio que estejas escondido em qualquer sítio, ou que tenhas saído sem avisar, ou que te tenhas atrasado nalgum recado. Só depois reparo nos finos lírios lilás que ficam tão bem com a gravata que tens na fotografia. E lembro-me que já não estás porque desde aquele Julho nunca mais voltaste. Lembro-me e sinto saudades de pôr o guardanapo diferente para ti na mesa. Porque só gostavas dos de tecido. Tenho saudades porque nunca provei arroz de tomate tão saboroso como o teu. Saudades de te ver cruzar as mãos, chamar Pequenina à avó, Formiguinha à Madalena e Bailarina à Maria. Falta de fazeres companhia nos pequenos-almoços das férias. De gostares de saber das notas da escola em primeira mão. E de apareceres sempre nas vésperas das festas para animar o pessoal. Saudades de ti, das gargalhadas sentidas e do orgulho que transparecia a par do sentido crítico que nunca perdeste. Falta dos conselhos sábios e da calma da análise das coisas. Falta de ti, que és tão insubstituível como esta ausência dura de gerir e impossível de esquecer. Impossível de compreender.

terça-feira, agosto 25, 2009

Por lapso

esqueci-me o quanto gosto de conversar à mesa depois do jantar, e de ficar a beber devagar uma bebida fresca, enquanto discutimos juntos tudo o que cada um fez durante o dia.
deixei de me lembrar que adorava pensar no dia todo, refazê-lo em partes e percorrer todas as palavras ditas e ouvidas, já com a percepção de que eram repetição, mas com o fascínio de quem vê a própria vida e a analisa de fora. sem culpas.
lembrei-me que há coisas mais importantes do que aquelas a quem realmente dou alguma importância.
importa-me esperar por amigos, aproveitar as conversas, sentar-me numa esplanada e remoer aquilo que leio nas páginas de um jornal, como se as palavras me fossem indegestas.
quero achar-te engraçado como quem ouve as piadas pela primeira vez e só as percebe quando são explicadas por alguém, tal é o fascínio de te olhar na tua altivez e ver-te, ao mesmo tempo, da minha altura.
lembrei-me hoje que é bom não esquecer certas coisas. que a memória é das qualidades mais importantes que devem conservar-se e praticar-se e cultivar-se. dia após dia.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Rápida-mente

Toca aquele bling bling cansativo e levanta-se de sobressalto, como se mais cinco minutos na cama fizessem toda a diferença. Não adormece de manhã, com medo que o mundo lhe escape num instante, de ver que as coisas mudam tão rápido que se de um momento para o outro o mundo cair, nunca conseguirá apanhar a cadência das coisas. Corre para o banho e é rápida no pensamento, mesmo de manhã, quando ninguém consegue ser. A luz dá-lhe uma energia quanse inesgotável e tem a certeza que, se falasse consigo logo de manhã, talvez não percebesse metade das palavras ditas, dada a velocidade com que o pensamento corre. Acumula a lista de tarefas diárias e só depende dela. Às vezes é esse o problema. Falta-lhe o tempo para poder agarrar-se ao pensamento, como num jornal normal numa praia ventosa: as folhas fogem sem deixar rasto, a menos que tenham sido cuidadosamente lidas. Cuidadosa é ela, com as coisas que faz. Já com as coisas que é, saltita entre as certezas e as dúvidas. Duvida tantas vezes que chega a confundir as próprias reflexões, como se as pernas não quisessem andar sem terem os sapatos calçados, mesmo que o chão seja forrado a algodão fofo e quente. Tem uma certeza: está numa construção que não tem fim. E é bom conseguir perceber isso.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Dossier

Houve um dia em que me deste um dossier antigo com artigos publicados em vários jornais e planos de um livro que nunca acabaste. Emocionou-me um gesto tão particular e sentimental da tua parte. Acho que foi das primeiras vezes que te senti de carne e osso.
Nunca me senti muito inspirada por ti. Digo-me que não sou assim tão sisuda, assim tão austera, tão ponderada, digo-me que não sou assim.
Mas penso algumas vezes se serei mais do que insisto em negar. Sou sisuda quando me vejo gravada por uma câmara de filmar. Franzo o sobrolho sem me aperceber, e fecho os olhos ao falar. Mas talvez sorrias mais do que eu quando achas alguma coisa engraçada. Pergunto-me por que nunca escrevi sobre ti, assim directamente. Já foste mais austero, mais distante. E acho quando te ofereci um livro com uma dedicatória te emocionaste por sentires que talvez tenha herdado de "escrever" de ti. Não me acompanhas tanto como gostarias, simplesmente porque talvez não estejas para aí virado nesses dias, mas sei que te orgulhas. E tens vergonha de teres vontade de chorar quando eu também, entre lágrimas, te agradeço o velho dossier que guardaste para mim. Fazes sentir-me especial. E isso é bom.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Primeiro de Agosto

É amanha dia 1 de Agosto /E tudo em mim é um fogo posto/Sacola ás costas, cantante na mão/Enterro os pés no calor do chão/É tanto o sol pelo caminho/Que vendo um, não me sinto sozinho/Todos os anos, em praias diferentes/Se buscam corpos sedosos e quentes/Adoro ver a praia dourada/O estranho brilho da areia molhada/Mergulho verde nas ondas do mar/Procuro o fundo pra lhe tocar/Estendido ao sol, sem nada dizer/Sorriso aberto de puro prazer, X&P



Estamos quase a chegar? - Perguntamos vezes sem conta, só porque sim. Tens de compreender que não é todos os dias que fazemos esta viagem. Só uma vez por ano sentimos que levamos a casa às costas e emigramos para a praia que conhecemos tão bem. Tens de compreender que não é todos os anos que aumenta trinta minutos a hora a que podemos chegar a casa, e que isso é motivo suficiente para que queiramos que os anos passem depressa e cheguemos cedo à maioridade. Porque durante muito tempo, pensamos que os dezoito são aquela idade em que, de um dia para o outro, tudo nos passa a ser permitido. Sem percebermos ainda que a confiança se conquista como se cria um filho. Dia-a-dia. Não vale a pena refilares, nem avisares que ainda falta, que podemos dormir um bocadinho porque a chegada ainda demora. Hoje é dia 1, a mala do carro vai cheinha como um ovo, e nós - não vale a pena insistires - não vamos dormir porque não temos sono. Põe o pé no pedal, acelera, e vamos. Que temos pressa em chegar, por mais que haja grandes probabilidades de estar a chover, de estar vento suão e das pessoas lá em casa estarem com os "azeites".
O caminho já é conhecido, mas parece sempre a primeira vez. Passamos o mosteiro da Batalha e já sabemos que falta pouco pouco para a entrada na autoestrada. E que depois da autoestrada, já falta pouco para chegarmos à ponte. Aí, podes acelerar, que é uma via rápida. Quando se chega à ponte, já sabes que tens de abrandar, não vão os radares apanhar a excitação transcrita nos quilómetros em excesso. Mas nãoi abrandes muito, que aqui já nós não conseguimos manter a alegria de vermos, mais uma vez, o farol vermelho e branco. Já nos cheira a maresia. A praia. E se abrirmos o vidro, já sentimos a humidade do mar apoderar-se do nosso cabelo. Quando propões o desafio de descobrir quem é o primeiro a ver o farol, sorris. Vejo-te, no retrovisor, orgulhosa. Inclinamos os quatro as cabeças, olhos esbugalhados, narizes alinhados, sem pestanejar, com medo de perder o primeiro sinal da Barra. Na rádio, deve passar qualquer coisa. Acho que também cantamos nas viagens. Fazemos aqueles jogos das palavras, e do limão. Por cima da ponte, há gente a andar de bicicleta. Gente que está a acabar as férias. Sei que durante o mês vai haver olás e despedidas q.b. .
Jantares de um grupo de amigos de verão, que se reúne a cada ano. Notam-se-nos as diferenças. Estás tão crescida. Os banhos no mar revolto da nortada. Os sete dias de marés vivas. As inundações de quando a ria enche até ao limite. E os passeios de bicicleta até à barra. As tripas com chocolate e canela. O vento frio e a chuva. Sempre a chuva, que teima deixar-nos algumas tardes livres para o Trivial. E quando chegamos finalmente, estacionas o carro e juntos tiramos as tralhas do carro. Arrumamos tudo em gavetas, penduramos cabides e fios-varão improvisados. Há que desinfectar a casa, limpar tudo bem. Subimos e descemos escadas vezes sem conta. Pelo meio vão aparecendo os amigos que já chegaram há mais tempo. Contam-se as novidades. A casa já tem vida. Acumulam-se as bicicletas à porta. A família chegou à praia. Sabemos que a partir daqui, começam as verdadeiras férias. Grandes, de verão. É bom rever os amigos. É triste deixá-los e dizer-lhes "até para o ano".
O engraçado é perceber que o tempo passa, aqui, tão devagar para nós. E que, mesmo que me esforce, vou pedir, por favor, mais ou menos a meio do mês, que me tragas de Rio Maior os livros do próximo ano. E desejar que as férias acabem depressa.

domingo, julho 26, 2009

Dos avós, e do dia deles

Não vou poder dizer-vos quantas vezes fomos ao Caramulo, ao Vale da Mó, nem ao Luso encher garrafões de água, porque não me lembro. Mas sei que foram muitas. Logo que entrávamos de férias, seguíamos para cima, que é como quem diz, para vossa casa. Levávamos os brinquedos preferidos - cada um com o seu - e lá íamos nós a contar os quilómetros para chegar. Mal víamos a primeira rotunda, começávamos a disputar quem veria primeiro a próxima, e a outra. E depois o ciclo. E o liceu onde a titezinha dava aulas. E depois os plátanos da avenida, com a folhagem enorme, e os raios de luz a passar por entre as folhas verdes. Era por cima delas que depois, no Outono, gostavamos de andar. Ouvi-las estalar, crocantes. Secas. Mas falemos antes do verão, estação dos 'olás', das descobertas. Das férias grandes. Os almoços ajantarados no moinho do avô, onde a água saía dos canos da casa de banho completamente cor-de-laranja. "Água férrea", diziam vocês. E nós assentíamos. Vocês sabiam tantas coisas, e nós nem duvidavamos. Como quando íamos ao Caramulo e tu, avó, descascavas maçãs e laranjas todo o caminho. Passavas os gomos sumarentos - "Uma especialidade" - para o banco de trás onde nós dividíamos por quatro o repasto. E as cascas - ainda sem preocupações ambientais - iam directas da janela para a rua, como se o carro deixasse um rasto de cascas de fruta que permitiria o regresso ao final do dia. Havia os outros em que, de manhã, saíamos cedinho convosco, sandes de salsicha-e-ovo-que-nunca-mais provei-igual na "ceira" que usavas na praça, ao sábado. E fruta - ameixas rainha cláudia, peras duras (como nós gostávamos), maçãs bravo de esmolfe e cerejas. Uma delícia. Passávamos o dia na piscina. Adorávamos entrar com o avô, que tinha um cartão "vip" que nos dava acesso à olímpica e à de saltos, onde eu sempre tive medo de saltar. E também quando íamos para o Palace da Curia, e ficávamos a ver-te observar-nos nos baloiços, lá em cima, ou cá em baixo, enquanto chapinhávamos os pés da água morna do "fosso" pouco fundo que rodeava a piscina. Lembro-me de como a água vinha sempre quente para o primeiro que tirava o cloro do corpo depois da tarde solarenga no Luso. E de como num instante enchíamos os garrafões na fonte da água, e também rapidamente os levávamos para a mala do carro. Era tão bom passar as mãos por água, molhar os pés que estavam quentes do calor. Ainda que nos ralhasses depois, por estarmos todos encharcados. Havia sempre programa em vossa casa. Fosse nas compras no grémio, que confirmavas com cuidado ao chegar a casa; fosse na praça de sábado, no café da vila a seguir ao almoço; na casa da vizinha, que tinha duas filhas da nossa idade; ou nos passeios de bicicleta pelo choupal, que pareciam sempre diferentes e sempre tão compridos. Agora as férias grandes passam num instante. Já não têm três meses. Os passeios ao choupal já não se fazem, e mesmo se fizessem, demorariam não mais de quinze minutos. As pernas são mais ágeis, e o percurso já não sabe nem cheira a descoberta. Além disso, vocês já não estão lá em casa. E é tão difícil explicar aos manos estas memórias que teimam - felizmente - em não deixar que vocês morram dentro de mim. Seria uma pena perder-vos para sempre. Convosco iriam bocadinhos de histórias, e tantos, mas tantos momentos, que nem tenho palavras para dizer todos.
E mais: tenho a certeza que se vocês ainda cá estivessem, seria melhor o caminho por debaixo dos choupos da avenida. As árvores do jardim deixariam passar mais luz. O carro andaria mais devagar só para prolongar a ansiedade da viagem. A alegria da chegada. O abraço do reencontro. E a infância - a nossa infância - iria prolongar-se para sempre. Porque, ao pé dos avós, nunca deixamos de estar de férias. Somos sempre apaparicados, como se a vida fosse um passeio onde tudo é novidade. Como se o outono não desse sinais, com o amarelecer das folhas. E como se as palavras nunca chegassem ao fim.

segunda-feira, julho 20, 2009

(Re)publicação*

Lisboa, Chiado, Fevereiro de 2009
Sai rapidamente do metro, livro metido debaixo do braço num encaixe quase perfeito. Gosta de caminhar assim sempre, mesmo que não tenha hora marcada na agenda, nem combinação com algum amigo. Anda assim simplesmente porque gosta de correr pela calçada portuguesa, envelhecida por tantos pés que por ali passaram. Poetas, escritores, filósofos, contadores de histórias. Calçada tão lusa que impressiona os estrangeiros. Calçada que escorrega quando a chuva teima em não parar num inverno que tarda em ir embora. Calçada que gela em noites frias. E ferve em dias de sol. Calçada que reflecte a luz de Lisboa, que tanta falta faz aos que não estão. Calçada portuguesa é chão da língua da saudade, do fado, de Fernando Pessoa e das pessoas que ele era também. É base sólida dos poemas de Camões, da prosa infantil de Sofia, das linhas despontuadas de Saramago. Calçada portuguesa é suporte de um povo e de uma língua que se querem tão portugueses.
Quando ele sai do metro. Apressado. Livro na mão. Ponho-me sentado no degrau, apoio-me o queixo da palma da mão e olho-o de esguelha. Daquela calçada, naquela escada tão portuguesa que sobe da Baixa para o Chiado, pergunto-me que livro irá ele a ler. Que livro guardará ele debaixo do braço. Tão perto do coração.
*daqui

quinta-feira, julho 16, 2009

Da planície

Era ermo, aquele monte, quando o conheci. Meia dúzia de calhaus enormes, bicheza que a minha mãe viu primeiro que qualquer outra pessoa, e terra. Muita terra. Seca, árida. Clara. Cortada, rachada. Separada pelo calor do sol. Era assim, monte e vale. Valle. Havia duas casas, uma quase sem telhado, outra nem tanto. Alicerces rijos, naquela terra sacrificada pelas diferenças diárias de temperatura. Ora frio gélido à noite. Ora quente incendiário, de dia. Amplitude térmica que não trespassa para as gentes, sempre tão quentes. Tão calmas. Sempre tão iguais umas às outras. Ermo aquele sítio, no meio do nada. Quente, tão quente que o sol está que queima os ombros de quem por lá passa.
Passam-se ali horas rápidas, dentro da acalmia da casa. Das tardes sem televisão e com conversas. Das noites a tocar guitarra e a cantar. E das madrugadas em que a conversa vence o sono, enquanto a lenha estala na lareira alentejana. Baixa e de tijolo-burro. Um copo de vinho tinto que aquece, um queijo manchego e pão alentejano. Isso, e a eternidade. Quadratura perfeita de fins-de-semana perfeitamente inesquecíveis.

terça-feira, junho 30, 2009

Quem te disse

Os teus olhos são como os meus, mas mais claros. E sempre que me olham, dizem-me coisas que eu não entendo. Preferia ter um pensómetro e ler-te o pensamento, assim, de imediato, quando te chegasses a mim com toda a pompa e circunstância e a tua boca se calasse. Como sempre.
Deixei de estranhar a tua inércia e passei a encará-la como uma ligeira amnésia. Que escondo de mim e tento afastar do pensamento. Só que de cada vez que insistes em convidar-me a sentar à tua mesa, comer da tua comida e beber das tuas palavras suadas e mastigadas, percebo que essa minha amnésia [essa tua inércia] sempre lá esteve. Não importa crermos que as coisas dos outros mudam por nós. Não adianta pensar que as coisas se alteram assim, momentanea e instantaneamente. Os outros mudam, se quiserem. Nós também.

sexta-feira, junho 26, 2009

More than words


Foste banda sonora de muitas vidas.
Mesmo daquelas que nunca conheceste.

segunda-feira, junho 22, 2009

Recesso

Disse-te tantas vezes que gostava de ti e não ligaste. Pensaste que fosse durar para sempre.
Também eu, ora. Também eu acreditei que o teu sorriso me fosse encantar para sempre. Também eu te prometi que ia adorar-te até ao fim. Acreditei que a tua maneira de falar me seduzisse sem deixar dúvidas e que ias ser para mim, e para sempre, perfeito. Aturei-te as birras - e tu as minhas. Duras e muitas. Permiti que me magoasses e me espetasses espinhos bem fundo, no coração. E aí magoavas-me. Mas tudo o que tínhamos de bom compensava os momentos maus. Esquecia-me de tudo quando me abraçavas. Sentia-me protegida nos teus braços, mesmo que estivessem frios. Porque contigo, era como se fossemos um. Pensei mesmo que a dor de te perder nunca fosse passar. Que o buraco que senti no peito fosse para sempre. Que as lágrimas se prendessem aos olhos numa eternidade dura e numa dor miudinha e sem parança. Pensei que a cura fosse tardar, que as mãos nunca mais encontrassem calor noutras que não as tuas. E que o sol fosse perder-se para sempre, mesmo quando o verão chegasse. E agora que te (re)vejo, te cumprimento e te toco. E falamos sem pensar, vejo o quanto as coisas mudaram sem me aperceber. E sem te aperceberes. Aquilo que eu pensava para sempre, afinal tinha um prazo de validade. E parece que - se ainda não acabou - está muito perto de ficar recesso.

quinta-feira, junho 11, 2009

Santos

Veste uma coisa leve para não te pesar o corpo. Já chegam os dias em que te custa subir as escadas depois do dia de trabalho, quando chegas já é noite escura. Hoje vais ser livre. Vais dançar até cair, braços no ar, como se fosses voar. Está calor na rua e é difícil passar por entre as pessoas e reconhecer caras no amontoado de gente que invade Lisboa. Passam-te ao lado conhecidos, que não reconheces porque a noite e a sangria não perdoam. Ou porque não te (re)conheces neles. Explica-me quando foi que subimos pela última vez aquela calçada íngreme e suja. Mostra-me aquela fonte sem te pedir. Dá-me um beijo na testa e agarra-me a mão antes de eu tropeçar, sem querer, naquele ladrilho mais feito. Sabes quantas vezes suspirei por ti? Há qualquer coisa que me fascina. Nesta cidade nossa, é fácil reconhecer-te as curvas pelas caminhadas familiares nas ruas por onde passámos. É fácil recordar-te sempre assim longe. Nunca estiveste aqui e reconheço-te bem. Mesmo que não estejas. Porque na cidade, por estes dias, tens o encanto da coisa essencial. A magia de um entardecer à beira-mar. E o cheiro que o manjerico deixa na minha mão e se entranha, porque nestes dias o calor vem da tua voz gravada. E a Lisboa cinzenta não é feia. Ganha uma tonalidade branca. E uma luz bonita. E encantadora.

sábado, junho 06, 2009

O jogo


Bem baralhadas as cartas, pouco há a fazer. Quando o jogo começa, as ideias têm de organizar-se depressa - acção/reacção - mas a estratégia já tem de estar traçada. O tempo pode ser curto para decidir ponderadamente. Há que prever todas as possibilidades e saber reagir rápida e friamente. As cartas todas na mão, os dedos da outra balançam, tocam-nas nas pontas. Dobram-lhes os cantos. Mas o jogo não amacia com falinhas mansas. Nem com festinhas. É do calculismo do jogo. Esfria o que de humano há em nós. E mesmo que acariciemos as cartas que temos na mão, os adversários observam constantemente os nossos olhos. Qualquer falha. Qualquer passo em falso pode denunciar-nos. É preciso rapidez. E poder de decisão. Amadureci a minha estratégia. Tirei apontamentos (e sabes que escrevo rápido e sem abreviaturas). Tracei um plano. Vários planos. Contingência. Prepara-te porque as cartas estão dadas e eu vou começar a jogar.

segunda-feira, maio 18, 2009

Só hoje

A luz ténue do candeeiro, na mesa de cabeceira, constrói um ambiente com média-luz. Um lusco-fusco que não revela. Mas também não esconde. A luz de cima, com mais watts e mais verdade, já foi apagada. Afastas a colcha macia e abres a cama com as mãos cada vez maiores, a aproximarem-se das minhas. Comparamos os tamanhos dos dedos e enroscas-te a mim. Ternura esta que me preenche o pouco tempo livre. Pedes-me um abraço. Dou-to sempre sem pestanejar. Hoje quebramos o hábito. Finjo trocar contigo o lado da cama. Apetece-me ser eu a enroscar-me em ti. Quero hoje ser eu a abraçada, a apertada, a muito-amada. Trata de mim como eu quero, só hoje. Que o tempo que me sobra para ti é pouco para o passarmos a discutir papéis. Não quero que questiones as minhas razões. Deixa-me só encostar-me ao teu ombro como te encostas ao meu. Hoje sou eu que tomo a iniciativa e digo primeiro que te adoro. E quero que me respondas de volta, que também, que adoras, tu a mim, como no primeiro dia em que te vi e te senti. Quero sentir os teus braços crescerem só para me abraçar. E perceber que posso pedir-te que me contes histórias para adormecer à vontade, porque a imaginação nunca te vai faltar. Por isso, só hoje, não me peças uma história. Não me peças um abraço. Conta-ma tu. Abraça-me tu. E estica o braço mais do que o costume. Apaga a luz por mim, por favor.

quinta-feira, maio 07, 2009

já nasceu


não tenho palavras para descrever o que foi o dia que deu origem ao i número 1

quarta-feira, maio 06, 2009

i

hoje não caibo em mim

terça-feira, maio 05, 2009

num instante

Escrevo hoje porque amanhã posso não ter tempo. O despertador pode tocar e eu posso não ouvir. Ou ouvir e adiar e voltar a adormecer. Escrevo hoje aquilo que quero escrever agora, que a vida não está para hesitações e o tempo é pouco para esperas. Escrevo aqui porque é o meu espaço. E é do meu tempo que se trata. Traço um retrato da realidade, faço perguntas e duvido das respostas. E escrevo agora porque sei que agora me apetece escrever. Sem razão, ponho-me em frente ao ecrã e acumulo letras e palavras e frases. Na cadência da escrita, como das horas, inspiro e expiro. Expira-se-me o tempo, ora vago, ora limitado. Como a vida, ora despreocupada, ora pomposa e agitada. Agitam-se os ramos das árvores ao sabor do vento e agita-se-me a vida por momentos. Que o tempo não pára e hoje eu posso escrever. Afundo-me aqui. Revelo-me a mim.

quase quase

ando a viver para isto

segunda-feira, abril 27, 2009

Sobre o 'jornalismo caviar'

Reunião acaba amanhã em Viena de Áustria
European Newspaper Congress: Jornalismo caviar precisa-se

“Precisamos é de jornalismo caviar, não de sopa”. Esta é uma das primeiras conclusões a que chegaram os cerca de 500 responsáveis de títulos impressos de toda a Europa e especialistas em media que estão desde ontem reunidos em Viena, Áustria, para discutir o futuro da imprensa e as novas tendências no décima edição do European Newspaper Congress que termina amanhã.No segundo dia de congresso os editores presentes na reunião de Viena chegaram à conclusão que, face aos desafios colocados pela Internet e pelos jornais gratuitos, que levaram a um decréscimo acentuado da circulação, as revistas e jornais têm de apostar na qualidade, pode ler-se num dos balanços da reunião, na página do congresso, em http://enc.newsroom.de/ .Palavras como seriedade e elegância, traduzida no design, são alguns dos conceitos em que os responsáveis de publicações de toda a Europa decidiram apostar para ultrapassar a crise.Para Juan Antonio Giner, fundador da Innovation, grupo de aconselhamento de empresas de media, que participou em alguns dos passos do projecto do novo diário “i” em Portugal, “os editores têm de editar e uma selecção de temas inteligente é um aspecto crucial para a sobrevivência”.“O que precisamos é de jornais necessários. O que precisamos é de jornalismo caviar, não de sopa”, disse o especialista.
in Público

sábado, abril 25, 2009

25/04 sempre

Liberdade

quinta-feira, abril 23, 2009

dia 7 tudo muda. (i) mude connosco

Há coisas que nos dão trabalho, nos mudam. Mudam connosco.
Há coisas sempre a mudar. Há que acompanhar o mundo.
Façam parte da mudança. Mudem connosco.

segunda-feira, abril 20, 2009

F5

Sabe bem sentir o prometido, concretizado. Sabe bem saber o combinado, real.
Sabe bem ouvir dizer bom dia todos os dias, como se fosse a primeira vez.

Quase

i num instante tudo vai mudar

quarta-feira, abril 15, 2009

Persistência

Se no domingo de ramos de há vinte cinco anos, a igreja de Arcos, em Anadia, não estivesse cheia para receber uma noiva vestida de branco, o dia de hoje não seria certamente o mesmo. Há vinte cinco anos, havia uma igreja, com seis degraus gastos à entrada, com bancos repletos de amigos. Há um quarto de século, um coro cantava nós as crianças, queremos brincar, com dedicação, e emoção, e carinho. Há vinte cinco anos, houve votos de um amor eterno, de um respeito mútuo. Houve leitura emocionada dos eleitos para ler no púlpito. Houve sessão fotográfica, e abraços sentidos e expectantes de que a felicidade daquele dia durasse para sempre. E uma promessa que juntou duas vidas numa só.
Houve uma festa grande, com taças de espumante da bairrada, e leitão, e um bolo branco e doce com várias camadas, para chegar para todos. Houve - imagino - música, e dança, e pulos. Houve um amor de verão que prometeu ser amor de uma vida, e eternizou-se ali. Entretanto, houve muitos dias felizes. E dias tristes. Uma mão cheia de rebentos.
Hoje recordam-se os momentos. Escreve-se uma música com letra adaptada, que lembra as viagens Alemanha-Portugal numa mota sem correntes nas rodas que tanto acelerou na neve. Recordam-se viagens, festas de anos, natais e outras comemorações. Lembram-se nascimentos, e uma panóplia de histórias, que começaram um dia na praia do Bom Sucesso sob - imagino - um sol quente de Verão. Decerto há mais de 25 anos houve um primeiro olhar que não recordo por não ter sido meu. Sinto-me só testemunha desta partilha de vida. Com buracos na estrada (mas quem não os tem?). Sinto-me prova viva de um amor de há mais de vinte cinco anos. Mas estas coisas das datas - dos dias assim contados - faz-me pensar no tempo como a única testemunha eterna viva. Colhe o dia porque és ele, dizia Ricardo Reis. 25 é persistência. Parabéns!

domingo, abril 12, 2009

Das saudades, do jardim e da memória

Cai-te uma e outra lágrima - atrevidas - pela bochecha abaixo. Sem piedade, choras um bocadinho, que já se sabe que as saudades nestes dias aumentam. E é difícil não pensar neles, que já não estão e fazem tanta falta. Olhas com enlevo para as mais novas, elas que cantam baixinho enquanto a cruz circula na sala da casa quase desabitada e, beija-se o senhor - com muitos beijos - entre amigos e familiares. E está cheia de amigos, é certo. Os sofás já gastos, não destes dias, mas de outros. Já idos. Dias que não se esquecem. E o jardim cheio de pétalas da cerejeira, carregadinha de flores - cor de rosa - que cheiram tão bem. E a mangueira sempre ali caída no jardim. E lírios lilás clarinho, de uma cor que já não existe. E a alcatifa escura, e a vontade de pintar o tecto de branco - que a casa tem um cheiro pesado a fresco. E a fotografia dele, e dela - deles - ali à porta. Com a jarra de flores frescas, que lembra a presença eterna. E a eterna falta. A ausência sabe tão mal. Não aquece, nem acalma. Só dá tristeza, de não estarem já, aqui.

segunda-feira, março 30, 2009

domingo, março 29, 2009

Hora de verão

Noites quentes, brisa fresca. Saudades dos dias compridos, de chinelos no pé. Da toalha molhada no corpo que não se cansa de mergulhar no mar. Saudades do sol que parece não acabar. Da permanência fiel na praia quase vazia. Da companhia das gaivotas que pisam a areia já lisinha - trabalho de máquinas - enquanto o sol se põe no horizonte. Hora solarenga, cheia de tempos para viver devagar, sem pressas. Viver a sério. Tempo para apreciar o fim de tarde na calma de uma esplanada com o Tejo como testemunha. Tempo de abrir o vidro do carro e pôr o braço de fora, mais perto do ar que circula. Hora de ouvir música mais alto, de pôr óculos mais escuros, e de vestir o corpo com cores mais claras. Altura de preparar o que aí vem. Gosto de dias mais compridos. Que a luz se alargue para lá das horas. Hoje o dia permanece.

sábado, março 28, 2009

Contradi(c)ção

A rua a descer, calçada preta dos passeios por terras lisboetas. De locais e de turistas. Os carris do eléctrico que começam e acabam nele. E eu à frente dele, sabendo que não funciona durante a noite. E recordo as conversas sobre as noites daqui. E sorrio descarada; acho piada à conversa. E às coincidências. Bebo mais um gole da garrafa cheia de sangria preparada para o jantar que entretanto não se bebeu por ser demais. E a noite demasiado curta. E a bebida demasiado doce. E o pensamento demasiado longe. A cabeça em ti. Apeteceu-me dizer-te 'olá.'. Mas não cedi. Gosto de ter saudades tuas.

sábado, março 21, 2009

encontro imediato

encontro-me comigo numa esquina sombria para os lados de não sei onde, perto de não sei o quê. pergunto-me como estou - como se não soubesse já o que se passa. cínica comigo, sorrio rápida e nervosamente. e respondo em modo automático tudo bem. convenço-me que sim. mas também não era preciso esforçar-me por me convencer. conheço-me. e limpo-me a lágrima que corre apressada pela minha cara. reflexo do meu autoconhecimento. aninho-me. em mim. hoje estou sozinha. aqui. e em letras pequenas.

sexta-feira, março 20, 2009

quinta-feira, março 19, 2009

confissões

"Diz-me que jornal lês,
dir-te-ei quem és is.
"

segunda-feira, março 09, 2009

NYC


Recordo o hoje

com memória de uma decisão já longínqua.
Foi um dia especial para nós, o 9 de Março.

Por mais que o calendário não diga, em minha casa é sempre dia da mulher

Em minha casa, a relação é de um para duas e meia. Porque somos cinco. E eles dois. Mas na família em geral, somos muito mais mulheres que homens. E isso tem vantagens. E desvantagens.
Sempre tive a noção da grandiosidade das mulheres da minha família. A minha bisavó – Ana -, que conheço apenas por fotografia, era uma mulher robusta, muito mais que o meu avô (o marido dela). Contam-me que era uma mulher muito forte, séria e muito exigente. Mas nas fotografias parece-me terna, atenta, carinhosa. Teve três filhos – duas mulheres e um homem. A minha tia-avó – Tereza – (uma das filhas da avó Ana) guarda até hoje um tacho com que faz ‘barriga de freira’, um doce conventual do qual só conta a receita a ‘pessoas especiais’. Acho que foi da avó Ana que ela herdou o gosto pela cozinha. Esta Tereza – com ‘z’, “à antiga”, é uma força da natureza. Enérgica, cheia de força, criou duas filhas – mais duas mulheres – sozinha. E claro, criou ‘a meias’ com a minha avó os quatro filhos dela – metade/metade. Dois rapazes e...claro...duas raparigas. É atenta aos pormenores, escreve muito bem e cozinha ainda melhor. Dá tudo o que tem - e também aquilo que não tem - mima netos, sobrinhos-netos, netos de amigas e de amigas de amigas. É um verdadeiro coração. E cheio.
A minha mãe é a segunda filha dos meus avós, mas tem postura de filha mais velha. Sempre foi a mais alta dos quatro. E a mais responsável. Tem umas pernas perfeitas, uma figura esbelta, uma paciência – como se diz - de Jó. Teve cinco filhos – um rapaz e quatro raparigas. Podia falar de cada uma em particular, mas somos tantas que fico por aqui.
As mulheres da minha família são protectoras. Muito, e especialmente em relação aos homens. Poupam-nos por serem minoria, por serem homens, por serem eles e não uma delas. E muitas vezes não percebo essa hiper-protecção. As mulheres da minha família são muitas. São galinhas, falam pelos cotovelos, gostam de opinar sobre tudo, de participar em conversas privadas que (esperam) tornam comuns. Gostam de mandar bitaites sobre roupa, opções de vida, dinheiros e até sobre o tempero da salada. As mulheres da minha família gritam e riem muito juntas. Ouvem-se e interrompem-se constantemente, Instalam a confusão com malentendidos, com palavras ouvidas de maneira diferente e com perdas de chaves que muito indignam e irritam o meu pai. As mulheres da minha família têm personalidades fortes, têm bom gosto e gostam de saber da vida umas das outras. São engraçadas, alegres e discretas. Sabem que ocupam um papel de destaque na família, e desempenham-no primorosamente.
As mulheres da minha família são muitas. Tantas, que mesmo que não se comemore todos os dias o Dia Internacional da Mulher, lá em casa é sempre - e felizmente - o nosso dia.

domingo, março 08, 2009

Isso querias tu...

Fossem os lábios feitos da mais forte das colas, e colar-se-iam para sempre num beijo eterno. Querias tu nunca mais dizer-me adeus, até logo ou até já. Querias tu não ter nunca mais de te despedires de mim, ficando apenas a incerteza do próximo vislumbre. Que os nossos braços se envolvessem num abraço sem dormência; que os nossos corpos fossem atraídos por um íman inexplicável. Que a pele doesse com a distância e se colasse, assim, sem mais nem menos, pela mera presença. Que o céu fosse cinzento escuro sempre que não estivesses, que o mar se revoltasse e galgasse a terra ao ver-te partir para longe de mim. Que o vento fosse insuportável e arrastasse todas as árvores à tua partida...e as voltasse a plantar com as mais profundas raízes no momento do teu regresso. Que a mais terrível tempestade se levantasse mal virasses costas e me olhasses pela última vez com os olhos tristes e já cheios de lágrimas. E que o S. Pedro fosse tamanhamente alérgico ao mau tempo que convocasse todos os santos e os deuses e lhes exigisse que estivesses sempre perto de mim para que o sol brilhasse todos os dias e todas as noites.
Que o meu coração não batesse senão por ti. Seria -então - e apenas assim - atenuado o sofrimento por estares longe de mim.

quarta-feira, março 04, 2009

Colecção

Está arrumada por categorias, por cores, por letras, por texturas. Mais macios, mais densos, mais cheirosos, mais largos, mais simpáticos, mais amigáveis, mais sinceros. É difícil ordenar este género de pertences. Há elementos fáceis de ordenar, só de olhar é possível distingui-los dos outros, atribuir-lhes um nome, criar-les uma regra. Mas há outros que, por mais que se puxe pela cabeça, vão permanecendo na divisória dos indiferenciados. É impossível atribuir nome a qualquer coisa igual a outra, a um mesmo nome, a uma mesma cor. É aquela, esta, a outra. X, Y, Z, N. Não tem existência própria; é tão e somente outra depois da primeira. E isso já torna a primeira irrelevante. E junta as duas numa divisória de conjunto, onde as características comuns não são mais do que elementos que as distinguem das restantes, mas que não as distinguem uma da outra.
A caixa acumula pó nas prateleiras, vai transitando pela mala do carro, porque ele não gosta de a deixar pelos armários poeirentos do escritório, e gosta de a levar para casa, sempre a fazer-lhe companhia. Uma colecção assim, com tantos anos, guarda já elementos antigos, envelhecidos pelo tempo. Guarda gargalhadas, guarda imagens turvas de memórias que foram desaparecendo com o passar dos anos. Mas a perfeição do início não é a mesma de agora. Ninguém disse que coleccionar pessoas é fácil.

terça-feira, março 03, 2009

segunda-feira, março 02, 2009

Não percas tempo com parvoíces. Procura o que te faz feliz

El tiempo corre muy de prisa. Lo único que no te va a gustar de la vida es que te va a parecer demasiado corta.

domingo, março 01, 2009

Madrid me mata, me pone, y me encanta


Porque Madrid no es nada especial,
No tiene un gran rio, ni apenas rascacielos,
No tiene ruinas, ni playa, ni mar.
Pero tiene el rincón inesperado, la animación constante, la variedad.
Vale la pena levantarse temprano por una vez para vivir un dia la vida de Madrid.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

lenga-lenga

Tenho uma paixão. Chama-se rádio.
Tenho uma amiga. Chama-se Meg.
Tenho uma rúbrica. Chama-se Bloco de Notas. É às sextas. Todas. Ou as que nós quisermos. Aqui. (no podcast da minha amiga Meg, que tem uma paixão por rádio, tal como eu)

Carnaval três

Mostra-me a tua máscara. Esfrega a lâmpada e pede três desejos. Hoje, só hoje, podes realizar os teus maiores sonhos. Não te acanhes. Pede. Pede que eu estou aqui para os satisfazer. Não tens de fazer sacrifícios, esfolar a pele dos joelhos com rezas nem preces. Pede apenas, pensa com força e eles realizam-se. Se quiseres voar e ver o mundo, voarás. Por cima das casas é tudo mais pequeno, e mais acessível. E tu, com o mundo a teus pés, podes sentir-te todo-poderoso. E se quiseres descansar, deita-te em qualquer lado e descansa. O tempo vai parar para não perderes pitada. Descansa bastante que o mundo pára só para que não percas nada do que se passa. E se quiseres permanecer, bem. Também se arranja. Sobrepõe máscaras. Guarda-as bem. Não as mostres a ninguém. E não peças nada. Sê apenas. Pleno. Em cada coisa.

Carnaval dois

Podes mascarar-te. Fazer trinta por uma linha. Dizer-me que por um dia és princesa. És super-heroína. És vagabunda. Podes jurar que não és tu mas outra que se me mostra. Que qualquer dia vais ser mesmo assim igual a todas essas coisas que prometes. Podes tentar entrelaçar os teus dedos nos meus de maneira diferente. Jurar a pés juntos que te transformaste com essa roupa. Que hoje fazes todas as loucuras, que gritas a Lisboa que me amas, que vais atacar-me com beijos ao som da sirene que eu nunca consigo ouvir. Podes tentar provar-me que hoje os teus beijos são menos apaixonados, que o teu coração bate menos do que ontem, ou que não é contigo que eu vou ser feliz.
Não me convences. A tua pele é a mesma. As tuas mãos têm a mesma suavidade. Essa máscara já eu conheço. Tens tantas. E eu? Eu podia apaixonar-me por ti outra vez. Convence-te. Qualquer que seja a máscara, já conheço a tua essência.

Carnaval um

Enquanto eles se passeiam pela curta avenida - mas a mais comprida cá da terra - cheios de folia carnavalesca e a pedirem atenção constante, os passos que eu dou são a pensar em ti. Quero abraçar-te quando chegar a casa. A música leva as ancas a balancear, para lá e para cá. Os chapéus coloridos lembram as pessoas de que o tempo é de festejos. Todos se vestem de maneira diferente. Querem ser alguma coisa que sonham, ou então que nunca sonharam. Ou simplesmente, querem ser diferentes de todos os dias. As colunas altas invadem as ruas com canções cantadas em brasileiro - o maior dos foliões. Os miúdos correm por entre a gravilha do separador da avenida, e quase atropelam aqueles que, como eu, têm o pensamento longe. E a hora de te abraçar nunca mais chega. Caminho em procissão. À minha frente, outros miúdos da idade do teu irmão mandam serpentinas aos que observam a passagem do cortejo. E eu ando automaticamente, e páro sempre que eles param. Não olho para trás nem reparo na guerra de balões de água, que disputam a atenção das miúdas penduradas à varanda do prédio do cruzamento. E nem a luz do dia aquece o meu estômago - porque o sol não reflecte no preto -, nem sequer a música me entra nos ouvidos. O amarelo, o azul e o resto da paleta transformaram-se em cinza há muito. Varia apenas o grau desta cor fria - ora mais escuro, ora mais claro - aos meus olhos. Não consigo sequer bater o pé nas paragens, a acompanhar o compasso. Porque simplesmente não o oiço. E quem me olha sabe que as minhas roupas pretas escondem o meu medo diário.
Medo não. Certeza.
Sei que vou chegar a casa, procurar-te no teu quarto e ver que tudo está intocado. Como desde o dia em que não voltaste. Sei que, mais uma vez, quando chegar a casa e for à tua procura para te abraçar, tu não vais estar.