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domingo, março 05, 2006

Apetecia-me...

Às vezes apetecia-me parar, no caminho para casa. Parar naquela ponte, que permite passar a linha do comboio. Apetecia que ela não tivesse aquela cor, aquela textura, aquela frequência às vezes aflitiva durante o dia e aquele silêncio arrepiante durante a noite. Às vezes apetecia-me sentar, naquela ponte que (apetecia-me) não tivesse aquele metal à volta a proteger das quedas. Apetecia-me sentar, deixar cair as pernas e ficar com elas a abanar...para trás e para a frente, para a frente e para trás. E depois ouvir o vento. Apetecia-me que nesses momentos os meus pensamentos não fossem interrompidos pelo barulho que me ensurdece, sempre que lá passo. A petecia-me ficar a ouvi-lo. Porque os pensamentos estão sempre em mim, quando passo naquela ponte. E apetecia-me sentar, baloiçar os pés e parar por momentos, num segundo. Assim, o momento iria parecer algum escondido num daqueles filmes em que os pés balançam e em que muitas palavras ficam por dizer porque a velocidade a que circulam na cabeça não o permite.
Apetecia-me depois ficar a olhar para Lisboa. Aquela que tenho vindo a conhecer, pouco a pouco, mas loucamente, como qualquer paixão em início de namoro. Eu namoro-a desde o primeiro dia. E apetecia-me ficar com ela, senti-la, enquanto baloiçava os pés. E apetecia-me ficar a pensar naqueles que fazem parte dos meus dias, naqueles que não têm estado cá, naqueles que estão, naqueles que riem e choram e gritam e refilam e brincam e fazem parte de mim. Daqueles que vejo todos os dias e daqueles que desde a véspera da partida deixaram saudades. Apetecia-me, quando me sentasse, lembrá-los todos e senti-los, no sopro do vento, todos lado a lado, ao meu lado, nessa ponte onde passo todos os dias. Apetecia-me que não houvesse combóio nem rede nem arame nem barulho. Apetecia-me que às vezes, Lisboa fosse só esta paixão, com silêncio e onde eu pudesse ouvir, quando me apetecesse, apenas o sopro do vento.

5 comentários:

Deb disse...

Até me sinto lisonjeada. Muito bonita homenagem à minha cidade!...

Tu que também tens algo de cosmopolita nas veias, sabes, pelo que vejo, que a grande urbe dá bastante espaço aos pequenos prazeres. O caos, o ruído, esses pensamentos acotovelados parece que só alimentam a vontade de vigiar os pormenores!

O que se vê, ouve, cheira e sente numa possível paragem nessa passagem de nível, a balouçar as pernas... aiiii, dava um livro!

Sara ( Letizia) disse...

Ma che bello!Mi ha piaciuto molto questo testo (no so bene come si scrive).

...apetecia-me ter-vos por perto...

Catarina disse...

Baloiçar, como uma criança que ingenuamente sente cada brisa do ambiente que a envolve...sem dar por isso, já faz parte dele!
Tenho saudades de Lisboa, de vos sentir comigo!
*Adoro-te muito!

ARN disse...

Também estou apaixonada por Lisboa, adoro-a de noite e de dia! Quando vamos dar mais umas voltas a pé?

mitete disse...

Há gente mm doida!!! Sentar numa ponte? Ainda por cima nessa? Só tu... Cada vez que passo por lá só me dá arrepios! Não precisas dessa ponte pa sentir o vento, pa sentir a vida!!! Vive-a simplesmente a cada minuto que passa! E escreve! Escreve porque adoro ler o que sentes, sentimentos profundos que me fazem sentir!!!